Um perigoso palhaço na Casa Branca

José Arbex Jr.
Typography

 

Um perigoso palhaço na Casa Branca

Por José Arbex Jr.

A afirmação de que um palhaço narcísico e exibicionista assumiu a Casa Branca, por mais verdadeira que seja, cria uma sensação perigosa de que Donald Trump é só uma "piada", fruto de um simples acaso, uma espécie de “anomalia” que deverá ser “corrigida” nas próximas eleições à Presidência dos Estados Unidos. Trump deve ser levado extremamente a sério, mesmo quando o seu discurso é dissociado de qualquer base real. Preservadas as distinções de época e circunstâncias, há escassos 84 anos (isso é, há alguns minutos, na escala histórica), assumia o poder na Alemanha um pintor frustrado, um idiota tão ou mais histriônico que Donald, proponente de uma “ideologia” alucinada e sem qualquer fundamento na realidade, mas que foi capaz, dado o contexto de crise, de produzir o holocausto e levar o seu país e o mundo para uma tragédia cujos efeitos ainda não se esgotaram.

Aliás, há muitas semelhanças entre os discursos de Adolf e Trump: ambos dialogam com o ressentimento, o ódio e a frustração de uma camada da população que se sente excluída da economia, amedrontada pelo desemprego e pela pobreza e sem perspectiva de melhoria no futuro. Trump, como Adolf, assume a máscara do líder poderoso que, sem hesitar diante de nada nem ninguém, e ancorado unicamente na própria vontade, oferece as respostas para tudo. Apenas o forte conteúdo irracional que caracteriza esse processo permite que um especulador imobiliário e falastrão se apresente como campeão do “povo” contra as “elites” (é irrelevante, para os seus apoiadores, o fato de Trump ser um bilionário, diferentemente de Adolf, nascido no seio de uma família de classe média baixa).

Leia mais: 

"Volver a los 17"

A Besta está solta na terra do tio Sam

De farsa em farsa, a "nova República" morreu

PUBLICIDADE

 

As medidas anunciadas durante a sua primeira semana como presidente assentaram as bases para um governo orientado pelo excepcionalismo (a ideia da “grande América” primeiro, cuja contrapartida é o total desprezo pela ONU e organizações internacionais multilaterais), ultranacionalismo econômico (adoção de medidas protecionistas drásticas, incluindo a ruptura de contratos e acordos internacionais), racismo (fechamento das fronteiras à entrada de árabes e islâmicos, exclusão de representantes hispânicos no governo federal, eliminação das páginas da Casa Branca escritas em espanhol, início da construção do novo “muro da vergonha” na fronteira com o México, ameaça de cortar verbas federais de municipalidades que ofereçam “santuários” a imigrantes ilegais), misoginia e conservadorismo religioso e ideológico (pressões econômicas e políticas sobre entidades nacionais e internacionais que defendam o direito ao aborto), além de um perfil explicitamente autoritário, policial e repressivo, com a defesa da prática da tortura como um meio válido para obter confissões, e a possibilidade de instauração de campos de concentração para estrangeiros, invocando como precedente os presídios instalados nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra.

No campo da política doméstica, Trump adotou as primeiras medidas para acabar com o Obamacare (programa de universalização do acesso à saúde criado pelo ex-presidente Barack Obama), ameaçando eliminar o quase nada de assistência oferecida a 25 milhões de beneficiados. Além disso, em 24 de janeiro, autorizou a construção do gasoduto Keystone, entre o Canadá e o Golfo do México, colocando em risco vastas extensões de terras indígenas e recursos naturais. A construção do gasoduto, brecada durante o governo Obama, reflete as pressões da indústria do petróleo (em particular, do lobby organizado pelos bilionários irmãos Koch), que financiou as campanhas de Scott Pruitt, promovido a secretário da Agência de Proteção Ambiental (EPA). Pruitt, até há pouco, descartava a existência do aquecimento global.

Trump é o porta-voz mais extremado do punhado de capitalistas (reduzido a oito indivíduos) que acumulam mais dinheiro que a metade mais pobre da humanidade. Um olhar, mesmo que rápido, sobre o novo gabinete é suficiente para indicar que o poder está concentrado nas mãos de bilionários, chefes de corporações e generais de extrema-direita. Os magnatas, além do próprio Trump, são: Rex Tillerson, secretário de Estado (presidente da Exxon-Mobil, uma das maiores empresas de petróleo do mundo); Andrew Puzder, secretário do Trabalho (rede nacional de restaurantes CKE); Betsy DeVos, secretária da Educação (herdeira da empresa Amway – seu irmão, Erik Prince fundou a Blackwater, grupo paramilitar que emprega mercenários, especializado em organizar “operações sujas” a soldo do Pentágono e da CIA); Wilbur Ross, secretário do Comércio (banqueiro); Steve Mnuchin, secretário do Tesouro (ex-sócio do grupo Goldman Sachs) e o “assessor especial” Gary Cohn (Goldman Sachs), e Linda McMahon, responsável pela promoção de pequenas e microempresas (mulher de Vicent McMahon do setor de entretenimento); o campo militar foi entregue aos generais James Mattis (Defesa), Mike Flynn (Segurança Nacional) e John Kelly (Segurança Interna).

"Todos os integrantes do seu gabinete são islamofóbicos (com graus variados de fobia) e se identificam, em linhas gerais, com as orientações religiosas e ideológicas do TeaParty, o movimento fundamentalista cristão que tomou de assalto o Partido Republicano. Além disso, é a primeira vez, em 65 anos, que um general assume o comando do Pentágono, rompendo com uma tradição de manter o controle dos militares nas mãos de civis"

Todos os integrantes do seu gabinete são islamofóbicos (com graus variados de fobia) e se identificam, em linhas gerais, com as orientações religiosas e ideológicas do TeaParty, o movimento fundamentalista cristão que tomou de assalto o Partido Republicano. Além disso, é a primeira vez, em 65 anos, que um general assume o comando do Pentágono, rompendo com uma tradição de manter o controle dos militares nas mãos de civis. O “bafo” conservador e racista se espalha também para os segundo e terceiro escalões do governo. O jornalista Steve Bannon, por exemplo, indicado para o Conselho de Segurança, é simpático ao grupo KKK (embora negue, oficialmente). O senador Jeff Sessions, novo procurador geral, é conhecido por sua militância histórica contra a concessão de direitos civis aos negros. O empresário Carl Paladino, amigo íntimo de Trump e coordenador de sua campanha em Nova York, declarou que Michelle Obama deveria “voltar para o Zimbábue” (onde, provavelmente, nasceu o pai da ex-primeira-dama) para “viver com Maxie, o gorila”.

Entretanto, a retórica e as medidas agressivas não conseguem esconder o fato de que o governo Trump está assentado sobre bases muito frágeis. Primeiro, por ter perdido as eleições nas urnas, por três milhões de votos. Já começa, portanto, com a legitimidade questionada. Segundo, porque não conseguirá cumprir o milagre de gerar milhões de empregos em alguns meses, como prometeu ao longo de toda a sua campanha eleitoral. Terceiro, porque seus decretos unilaterais tendem a isolar o país no mundo. E quarto, mas talvez o mais importante, os 8 milhões de jovens e trabalhadores que se organizaram para sustentar a candidatura do democrata Bernie Sanders não abandonaram as ruas. Ao contrário, no próprio dia da posse de Trump (20 de janeiro), Washington foi tomada por manifestações de centenas de milhares de mulheres e jovens que expressaram o seu repúdio. Os próximos meses e anos prometem grandes embates nos Estados Unidos. Se as demências beligerantes de Trump indicam um cenário catastrófico, os movimentos de resistência também abrem grandes perspectivas. O futuro do planeta, em boa parte, depende de quem vencerá as batalhas e guerras que se avizinham.


José Arbex Jr. é jornalista

 

Artigos Relacionados

A A "ordem mundial" se desintegra
NAS BANCAS Confira artigo do jornalista José Arbex Jr. publicado na edição 247 de Caros Amigos,...
O apito da panela de pressão O apito da panela de pressão
COLUNA Confira coluna do jornalista José Arbex Jr. publicada na edição 246 de Caros Amigos, nas...
Venezuela enfrenta um desastre anunciado Venezuela enfrenta um desastre anunciado
NAS BANCAS Leia coluna de José Arbex. Jr, publicada na edição 245 de Caros Amigos. Nas bancas e...

Leia mais
×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend