"Volver a los 17"

José Arbex Jr.
Typography

 

"Volver a los 17"

"Volver a los diecisiete
después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin
ser sabio competente
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un nino frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo"
(Violeta Parra)

Um século após a tomada do poder pelos bolcheviques, na Rússia, o planeta está à beira da catástrofe. Um bilhão de famintos passa fome, quando há superprodução de alimentos. Sessenta milhões vivem em condições absolutamente inaceitáveis, em acampamentos de refugiados espalhados pelo planeta, expulsos de suas terras por conflitos motivados pela ganância (petróleo, recursos naturais, territórios) e/ou interesses geopolíticos. Apenas 1% dos mais ricos acumula maior fortuna do que os restantes 99% da humanidade; as 62 famílias mais ricas têm tanto dinheiro quanto a metade mais pobre dos seres humanos. Um século após a tomada do poder pelos bolcheviques, as crianças são impiedosamente massacradas nas ruas de Alepo. Olhem bem para essas crianças: elas são a vitrine do capital.

Mas o capitalismo triunfou sobre a Revolução Russa, proclamou Francis Fukuyama, um epígono idiota de Hegel, no seu livro sobre o suposto fim da história, apresentado com pompa e circunstância sobre os escombros do Muro de Berlim, em 1989. Triunfou? Onde? Nos 60 milhões que dependem do food stamp para comer, em plena Roma? Na ameaça de destruição do ecossistema planetário, ameaçado pelo aquecimento global provocado pela ação predatória do capital? No “desemprego estrutural” que nega um futuro aos jovens, até mesmo nos centros mais desenvolvidos do capitalismo? Nas ondas fundamentalistas e conservadoras, que vitimizam com crescente ferocidade as mulheres, os gays, os negros, os islâmicos – os grupos sociais marginalizados, quaisquer que sejam as razões – e que acabam de eleger o racista, misógino e falastrão Donald Trump ao posto executivo de maior poder no planeta? Magnífico triunfo!

"Os impasses do capitalismo contemporâneo não podem ser atribuídos ao próprio capitalismo, diz Samuel Huntigton, autor da 'tese' sobre o suposto 'choque de civilizações', uma barbaridade sem qual
quer sentido, inspirada pela obra do 'arabista' Bernard Lewis e promovida pelas universidades e agências reprodutoras da ideologia do capital espalhadas pelo mundo"

Os impasses do capitalismo contemporâneo não podem ser atribuídos ao próprio capitalismo, diz Samuel Huntigton, autor da “tese” sobre o suposto “choque de civilizações”, uma barbaridade sem qual
quer sentido, inspirada pela obra do “arabista” Bernard Lewis e promovida pelas universidades e agências reprodutoras da ideologia do capital espalhadas pelo mundo. Os grandes conflitos da atualidade, diz Huntington, não são de natureza econômica, mas sim consequência da globalização, ao permitir o encontro de “civilizações” portadoras de valores culturais e religiosos conflitantes: chinesa, japonesa, hindu, budista, islâmica, latino-americana, cristã ortodoxa, subsaariana e ocidental. O principal choque, é claro, ocorre entre a civilização ocidental, baluarte da democracia, dos direitos humanos e do progresso, e o Islã, que agrega 1,7 bilhão de jihadistas e fanatizados. Cabe ao Ocidente aceitar o pesado fardo do homem branco de exercer a função civilizatória, como bem demonstraram, por exemplo, os Bush (pai e filho) com as matanças no Iraque (em 1991 e 2003), para não falar dos milhões de mortos pelas bombas de Nixon/Kissinger no Laos, Vietnã e Camboja, e para não falar de Hiroxima e Nagasaki.

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Em 1917, a Revolução Russa era portadora da grande esperança da transformação social necessária para levar a humanidade a um novo patamar, após o desastre deixado pela Primeira Guerra. Durante os anos 1920, no pouco tempo em que de fato existiu, ainda não subjugada pela ditadura neoczarista de Josef Stalin, a revolução produziu feitos absolutamente notáveis, em todos os campos do conhecimento. O processo de rápida industrialização e as liberdades asseguradas, ainda que num ambiente de guerra civil e cerco dos países capitalistas, permitiram um surto de imensa criatividade, que rapidamente transformou um país massacrado pela invasão da Alemanha e por guerras civis, atrasado, com uma imensa maioria de analfabetos (foi o último a extinguir o regime de servidão na Europa), numa potência mundial no campo da cultura e das artes, cuja influência perdura até nossos dias. Basta mencionar alguns nomes: Sergei Eisenstein e Dziga Vertov (cinema), Mikhail Maiakhovski (poesia), Konstantin Stanislavski e Vsevolod Meyerhold (teatro), Dmitri Shostakovich e Serguei Prokofiev (música).

O pesadelo stalinista impôs a ditadura do partido único, o culto à personalidade do dirigente e um regime de terror que sufocou a revolução. Esgotou-se aí, com Stalin, no início dos anos 1930, a Revolução de 1917. O que se seguiu, na forma da União Soviética, foi uma caricatura do socialismo, uma farsa grotesca. É óbvio que as coisas poderiam ter sido muito diferentes se, por exemplo, houvesse triunfado a revolução na Alemanha, com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht à frente (ambos assassinados em 15 de janeiro de 1919, durante o governo social-democrata de Friedrich Ebert), ou na Hungria, onde chegou a ser proclamada uma república soviética, em março de 1919. Mesmo nos Estados Unidos, Franklin Roosevelt só propôs o New Deal, como uma resposta à Depressão de 1929, por temer as consequências de uma revolução socialista em seu país. O fantasma de 1917 ainda estava, então, muito fresco e aterrorizava o capital. Na Alemanha, onde a crise da república de Weimar ainda agitava o fantasma da revolução, a solução encontrada pelo capital foi empossar Adolf Hitler (cuja carreira, aliás, foi muito estimulada e elogiada pelo grande humanista Winston Churchill).

Bibliotecas inteiras já foram escritas sobre tudo isso e outras muitas serão. Não faltam e não faltarão os Fukuyama, os Huntington e um monte de espertalhões, alguns regiamente pagos, para explicar que a revolução estava destinada ao fracasso; que Stalin (e seus reflexos no mundo, incluindo Mao Tsétung) não foi uma aberração totalitária, mas uma “consequência lógica do marxismo”, que não há, enfim, alternativa para o capital. Não há? A “alternativa”, então, será aguardarmos sentados o desfecho da sucessão de catástrofes que já está em curso? E qual será o desfecho? A agonia de Roma durou cinco séculos, entre o auge do império criado por Augusto (em 27 a.C.) e a tomada de Roma pelos hérulos liderados por Odoacro (476). Mas Roma não detinha arsenal nuclear, não era capaz de interferir no ecossistema planetário, não tinha à sua disposição os meios de destruição alegremente colocados ao alcance de um Trump da vida. O planeta não aguentará cinco séculos de agonia capitalista.

Cem anos depois, temos que volver a los 17, se quisermos sobreviver como espécie.


José Arbex Jr. é jornalista

Artigos Relacionados

O apito da panela de pressão O apito da panela de pressão
COLUNA Confira coluna do jornalista José Arbex Jr. publicada na edição 246 de Caros Amigos, nas...
Venezuela enfrenta um desastre anunciado Venezuela enfrenta um desastre anunciado
NAS BANCAS Leia coluna de José Arbex. Jr, publicada na edição 245 de Caros Amigos. Nas bancas e...
Islamofobia cresce com a benção de Trump Islamofobia cresce com a benção de Trump
COLUNA Leia artigo de José Arbex Jr., publicado na edição 243 de Caros Amigos (Foto: Chip...

Leia mais
×

×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend