O PT faz a diferença

José Arbex Jr.
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"Os sucessivos governos petistas – com todas as suas mazelas, contradições, problemas, esquemas de corrupção, concessões ao capital etc. etc. etc. – asseguraram ganhos salariais reais".

Por José Arbex Jr.

 

“Você viu o que aconteceu ontem? Nossa, e eu que pensei que o PT estivesse morto. Mas, não... Você viu quanta gente tinha? Que absurdo! Eu tenho fazenda, sabe? Tem formigueiro na fazenda. Você vê uma, duas, três formigas passeando que acha que é só aquilo lá. Mas, quando você pisa, ou faz alguma coisa para espantar, aí todas elas saem. São milhares, milhares de formigas. Estava tudo vermelho na Paulista. Essa gente é como formiga!”

O lamento da distinta senhora, ouvido num fino restaurante de São Paulo, traduz de modo muito exato um cenário que é a pedra no sapato da burguesia (ou o formigueiro na plantação de rosas, se preferirem): o PT e as organizações dos trabalhadores existem. E isso faz toda a diferença do planeta. O “ontem”, causa de tanta consternação, referia-se, evidentemente, às grandes manifestações organizadas pelo PT, centrais sindicais e movimentos sociais, no dia 18 de março, em todo o País.

Um olhar sobre o cenário político mundial, mesmo rápido e até distraído, evidencia uma especificidade brasileira: aqui, os partidos e as organizações dos trabalhadores não passaram por nenhum processo de derrota nas últimas décadas. Ao contrário. Os sucessivos governos petistas – com todas as suas mazelas, contradições, problemas, esquemas de corrupção, concessões ao capital etc. etc. etc. – asseguraram
ganhos salariais reais (algo que Barack Obama tentou, sem sucesso, fazer nos Estados Unidos) e promoveram melhorias sociais significativas para as parcelas mais marginalizadas da população. Isso não ocorreu pela vontade de Luís Inácio Lula da Silva ou de qualquer outro dirigente, mas como resultado do processo que levou o PT ao Planalto. Nada semelhante ocorreu em qualquer outra parte do planeta.

Houve, é claro, alguns avanços sociais em outros países, principalmente na América Latina, incluindo Uruguai, Bolívia e Venezuela. Mas, nada que se compare, sequer remotamente, aos verificados no Brasil, tanto pelo tamanho da economia (entre os dez maiores PIBs do planeta) quanto pelas dimensões do proletariado (tanto no sentido clássico, quanto na sua acepção contemporânea, que inclui os setores da classe média “precarizada”) e pela história da construção do partido, das centrais sindicais e dos movimentos sociais no País. O PT subiu as rampas do Planalto graças a décadas de lutas que, paulatinamente, conseguiram construir um consenso nacional favorável. Isso tudo não acaba da noite para o dia, nem é anulado por alguns escândalos de corrupção, como demonstraram as “formiguinhas” do dia 18.

O capital tem que
derrubar Dilma Rousseff,
para aplainar o caminho
das privatizações e
anular as conquistas
dos trabalhadores,
mas há uma pedra no
meio do caminho

Para um mero efeito de comparação, e sem pretender desenvolver, neste espaço, qualquer ensaio mais aprofundado, basta refletir sobre o que se passa na Venezuela. Alçado ao poder, em 1998, por uma forte base popular, mas sem contar com partidos e organizações

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enraizados entre os trabalhadores, Hugo Chávez promoveu transformações importantes no País, mediante a adoção de vastos programas sociais. Beneficiado pela alta do preço médio do barril do petróleo na primeira década do século (US$ 110, comparados aos US$ 35 atuais), erradicou o analfabetismo, garantiu acesso de milhões de miseráveis aos programas de saúde pública e alimentação. Mas Chávez adotou um estilo de governo personalista, carismático e centrado na figura do líder. Não foi capaz de impulsionar a construção de um partido, ou
mesmo de uma rede de organizações partidárias, sindicais e sociais minimamente capazes de assumir para si, de modo organizado, autônomo e independente, o processo de tomada de decisões sobre os rumos do País. Sua morte expôs a fragilidade do edifício construído pelo chavismo.

Talvez Dilma Rousseff possa ser, em alguma medida, comparada a Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, principalmente no quesito “competência”. Mas Lula não é Chávez. Não se trata aqui, novamente, de discutir intenções, perfis psicológicos ou traços de caráter. É possível que Lula seja até mais personalista e manipulador do que Chávez, mas o PT existe sem Lula, ao passo que o chavismo morreu com o seu criador. E o PT ainda é o partido que se opõe, mesmo que minimamente, aos “programas de austeridade”, à privatização total das riquezas do País, à revogação das conquistas e ganhos reais experimentados pelos trabalhadores nos últimos anos. O próprio Lula sente na pele a vontade das bases do PT, e por isso ele é obrigado a se distanciar, em alguma medida, do programa econômico do governo Dilma. Com o PT, a situação está complicada. Sem o PT, o capital vai promover uma política de terra arrasada no Brasil.

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É por isso que o capital quer o fim do governo Dilma. Mas é também por isso que enfrenta uma resistência organizada sem comparação no mundo. Em outros países, os movimentos de novo tipo – Podemos na Espanha, Occupy nos Estados Unidos, Syriza na Grécia – esenvolvem formas variadas de luta, mas ainda incapazes de propor alternativas à questão do poder, e sem um grau de organicidade capaz de resistir às motoniveladoras do capital. No caso grego, por exemplo, a vitória eleitoral do Syriza acabou atropelando o próprio movimento que o elegeu. Para derrubar Dilma, o capital usa os mesmos recursos e táticas já experimentados com sucesso em outros países, como no caso de Salvador Allende, no Chile, em 1973 – claro que preservadas todas as reservas e distinções quanto aos contextos histórico, ideológico e político. Com a ajuda indispensável da mídia (El Mercurio, no caso chileno; rede Globo e asseclas, no brasileiro), cria uma situação de tensão no País, promove a instabilidade econômica, assusta a classe média e coloca os militares em movimento. Nem sempre dá certo. Falharam, espetacularmente, na Venezuela, quando o golpe orquestrado pela mídia, em 11 de abril de 2002, foi derrotado pelas manifestações de centenas de milhares de jovens e trabalhadores em Caracas.

Estão tentando novamente, no Brasil, e contam com as operações extremamente competentes e eficazes de um dos mais avançados aparatos de mídia do mundo. Mas há um pequeno inconveniente: milhões de formiguinhas organizadas pelo PT, pelas centrais sindicais e pelos movimentos sociais não topam a brincadeira. Vão às ruas e exigem respeito à democracia, além de uma mudança nos rumos do
governo Dilma. E ainda enxergam em Lula o seu dirigente – e apenas por isso Lula ainda não foi preso: a burguesia não tem a segurança de que seria capaz de controlar o País, na ausência do maior líder popular da história recente do Brasil. Claro, claro, claro: Lula pode tentar empregar o seu capital político para conciliar as classes antagônicas, como sempre fez, aliás. Ainda assim, o fará por delegação dos trabalhadores, e não pela vontade do capital.

O Brasil é assim.

Leia este e outros artigos na edição 229 de Caros Amigos, que já está nas bancas e na loja virtual.

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