Venezuela enfrenta um desastre anunciado

José Arbex Jr.
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Venezuela enfrenta um desestra anunciado

Por José Arbex Jr. 

Apesar das imagens incessantemente divulgadas pelo Jornal Nacional, e dos comentários e análises feitos pelos “especialistas” de plantão, não há ditadura na Venezuela, nem o governo do presidente Nicolás Maduro promove o “morticínio” de manifestantes. Em 30 de julho, cerca de 8 milhões de eleitores (de um universo de 19 milhões) compareceram às urnas para eleger uma nova Assembleia Constituinte — medida legal e legítima, prevista pela Constituição em vigor no país —, apesar do boicote da oposição e de uma intensa campanha midiática promovida com o objetivo de criar um clima de pânico na população. Maduro, nesse sentido, foi vitorioso. Mas foi uma vitória de Pirro. O desastre está instalado.

A convocação da Constituinte foi uma resposta às tentativas da oposição, que desde 2015 detém a maioria do Congresso Nacional, de convocar um plebiscito para revogar o mandato presidencial. Inicialmente, o governo tentou paralisar os trabalhos dos congressistas, mediante a promulgação de uma série de sentenças do Tribunal Superior de Justiça, levando ao impasse institucional. Em março, o TSJ praticamente dissolveu o Congresso, assumindo as funções legislativas. O escândalo foi tão grande que até mesmo a procuradora-geral da república, Luisa Ortega Díaz, antiga expoente do “chavismo”, declarou a inconstitucionalidade da medida. Maduro foi obrigado a recuar, mas estava aberto o caminho para que a oposição assumisse uma ofensiva implacável contra o governo.

O governo Maduro está completamente isolado. A Assembleia Constituinte não foi reconhecida pelos Estados Unidos, União Europeia e os mais importantes países latino-americanos, incluindo o Brasil e demais integrantes do Mercosul. Em contrapartida, a mídia internacional “vende” com sucesso a imagem de Maduro como um ditador sanguinário, e propaga, sem cessar, o fato de que ao longo de quatro meses de manifestações de rua, desde abril, os confrontos com a polícia resultaram em cerca de cem mortos, como se houvesse uma vontade deliberada do governo de produzir massacres. Por mais lamentável que seja a ocorrência de vítimas fatais, a cifra empalidece face aos 165 mortos diariamente no Brasil.

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A economia está em bancarrota, com a maior inflação do planeta (720% ao ano, segundo o FMI) e desabastecimento generalizado dos gêneros de primeira necessidade – incluindo comida e produtos farmacêuticos. Prospera o mercado negro dolarizado, ao passo que se tornou cena comum presenciar pessoas remexendo lixo nas ruas, em busca de algo para comer. O quadro tende a piorar, com o anúncio de sanções econômicas por Washington, que podem incluir aquilo que seria um golpe fatal: a eventual suspensão da compra do petróleo venezuelano, hipótese já anunciada pelo presidente Donald Trump. A Venezuela depende cada vez mais dos petrodólares dos Estados Unidos, pois boa parte dos demais importadores paga com serviços (como é o caso, por exemplo, de Cuba, que envia seus médicos para as favelas de Caracas). Mas a adoção do embargo ao petróleo venezuelano implicaria consequências também para a economia dos Estados Unidos, que importam quase 800 mil barris diários do país (7,5% do total). O embargo implicaria, necessariamente, um aumento do preço do combustível para o consumidor final. Com a popularidade em baixa, Trump não quer pagar o preço político.

O governo venezuelano perde legitimidade a passos largos. Se ainda existe uma base social que o apoia (e os votos na Constituinte mostram que existe), a maior força de Maduro não é assegurada pelas ruas, mas pela fidelidade da cúpula das Forças Armadas, quase que integralmente formada por Hugo Chávez, ao longo dos catorze anos em que esteve no poder. Especialmente após o fracasso do golpe de Estado de abril de 2002, Chávez promoveu uma reformulação da estrutura do poder militar no país, com o objetivo de assegurar absoluto controle. Mas a situação de penúria provoca revolta mesmo em antigos tigos redutos “chavistas”, o que gera também “rachas” na cúpula política do movimento, que se divide quanto à avaliação sobre os caminhos possíveis para sair da crise.

"Como a Venezuela chegou a essa situação? Não existe, obviamente, uma resposta simples. Mas, em termos gerais, ela é resultado da convergência de dois grandes fatores: o fracasso de um estilo de governo carismático e centralista, criado por Hugo Chávez, e uma conjuntura internacional que produziu a queda brutal do preço do petróleo, principal produto de exportação da Venezuela e base de sua economia"

Como a Venezuela chegou a essa situação? Não existe, obviamente, uma resposta simples. Mas, em termos gerais, ela é resultado da convergência de dois grandes fatores: o fracasso de um estilo de governo carismático e centralista, criado por Hugo Chávez, e uma conjuntura internacional que produziu a queda brutal do preço do petróleo, principal produto de exportação da Venezuela e base de sua economia.

Embora a Venezuela seja um país democrático (desde 1999, quando Chávez assumiu o poder, foram realizadas 21 eleições, em todos os níveis), sua cultura política foi estruturada em torno da figura do presidente “comandante”, detentor das iniciativas políticas e uma espécie de messias redentor. Essa cultura atribuiu um poder imenso ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), resultado da fusão programática das forças sociais e políticas que apoiaram a Revolução Bolivariana e abraçaram a ideologia do “socialismo do século 21”. Tornou-se força hegemônica, com quase 6 milhões de membros, em 2007, cultivando o apoio dos setores mais pobres e marginalizados com vastos e importantes programas sociais sustentados pelos petrodólares. Embora o partido incentivasse debates entre os seus membros, a figura do “comandante” era onipresente e sufocava a formação e emergência de novas lideranças.

No âmbito econômico, o país nunca conseguiu superar a sua total dependência do petróleo. Com a queda do preço do barril em 2008 (quando eclodiu a crise mundial do capital), com alguns poucos períodos de recuperação do preço e novos patamares de queda, especialmente após 2014, a entrada de dólares desabou. Tipicamente, o governo tentou resolver a crise com a adoção de medidas administrativas (como o Primeiro Plano Socialista da Nação, adotado em 2007), com resultados desastrosos. A morte prematura de Chávez, em 2013, foi um golpe fatal, pois todo o edifício construído com base na sua liderança foi completamente abalado.

Maduro herdou um país em crise, e com um governo permanentemente acossado por uma oposição aliada à Casa Branca. Jamais conseguiu colocar-se à altura dos desafios postos pelo período pós-Chávez. A Venezuela agora paga o preço.


José Arbex Jr. é jornalista 

 

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