De novo, a armadilha das "Diretas Já"

José Arbex Jr.
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De novo, a armadilha das "Diretas Já"

Por José Arbex Jr. 

A falência do governo Temer trouxe à tona a demanda pela convocação de eleições “diretas já”, estabelecendo um vínculo político com o movimento que, em 1984, marcou a transição do regime militar para a suposta democracia no Brasil. Setores importantes da esquerda abraçam a perspectiva, incluindo a Frente Brasil Popular (que reúne os mais importantes partidos da esquerda, centrais sindicais e movimentos sociais, incluindo o PT, a CUT e o MST), o MTST, artistas e intelectuais. “Diretas já” parece ser, portanto, a via encontrada pela esquerda para dar um basta ao governo golpista e criar os meios para impedir a realização das reformas trabalhista e previdenciária que ameaçam golpear profundamente a juventude e os trabalhadores brasileiros.

Será?

A campanha pelas “diretas já” de 1984 foi um fracasso retumbante. O movimento, como se recorda, foi absolutamente fantástico, brilhante, repleto de energia e de esperança num futuro melhor. Durante meses, reuniu milhões de pessoas pelas ruas das principais capitais e cidades brasileiras, em atos liderados pelo que havia de melhor, mais progressista e mais expressivo no País, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Miguel Arraes e Eduardo Suplicy, constituindo a ala esquerda de um arco de alianças que agregava também Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Teotônio Vilela, além de artistas, jogadores de futebol, cantores e lideranças religiosas. Tudo isso desembocou na imensa frustração de 25 de abril, quando, para a indignação impotente de milhões que ocupavam o vale do Anhangabaú, em São Paulo, e outras praças pelo Brasil afora, o Congresso espúrio, cria da ditadura militar, rejeitou a emenda Dante de Oliveira que restabeleceria as eleições diretas para presidente da República.

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A frustração do movimento, a sensação penosa de uma imensa energia jogada no esgoto, abriu a possibilidade de uma transição completamente controlada pelo próprio regime. José Sarney, o primeiro presidente do “Brasil democrático”, era um quadro da antiga Arena, o partido da ditadura, que chegou a presidir. Nenhuma instituição da ditadura foi desmantelada. Algumas apenas mudaram de nome, como o nefando Serviço Nacional de Informação (SNI), que passou a se chamar Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Nenhum general foi julgado, nem muito menos condenado. Nenhum torturador teve que pagar pelos seus crimes. As diretas só aconteceriam cinco anos depois, quando foi eleito Fernando Collor de Mello, após a aprovação da chamada “Constituição Cidadã”, em 1988. Em síntese, algumas coisas mudaram no País, de modo que tudo permanecesse como sempre foi — como escreve Tomaso Di Lampedusa num livro sobre o Risorgimento italiano, base do roteiro do filme O Leopardo, dirigido por Luchino Visconti.

"Trocando em miúdos: devemos orientar toda a nossa indignação — ampla, farta e magnificamente demonstrada com a greve geral de 28 de abril, e depois novamente exibida em Brasíia, em 24 de maio — para o interior do quadro institucional, esperando que o Congresso atenda à reivindicação, e torcer, depois, para que o eleito seja o salvador da pátria que promoveria o programa desejado. Isto é, vamos percorrer agora exatamente o caminho escolhido em 1984. Não basta errar uma vez?"

Hoje, novamente, a proposta da esquerda é canalizar a energia dos jovens e trabalhadores para exigir a convocação de eleições diretas. A ideia é eliminar um governo golpista e substituí-lo por outro, legítimo representante das aspirações populares, capaz de atirar ao lixo as reformas propostas e alavancar um programa democrático que garanta e aprofunde as conquistas sociais. Trocando em miúdos: devemos orientar toda a nossa indignação — ampla, farta e magnificamente demonstrada com a greve geral de 28 de abril, e depois novamente exibida em Brasíia, em 24 de maio — para o interior do quadro institucional, esperando que o Congresso atenda à reivindicação, e torcer, depois, para que o eleito seja o salvador da pátria que promoveria o programa desejado. Isto é, vamos percorrer agora exatamente o caminho escolhido em 1984. Não basta errar uma vez?

O governo Temer foi empossado pelos golpistas para cumprir uma tarefa muito precisa e específica: realizar as reformas desejadas pelo capital financeiro. Ponto final. Inversamente, o centro da questão, do ponto de vista dos jovens e trabalhadores, é barrar imediatamente as reformas. Exigir “nenhum direito a menos”, não importa quem seja o gerente de plantão dos negócios da burguesia. Novamente, o caminho para barrar as reformas existe e não é eleitoral: foi apontado pela greve geral de 28 de abril e pelos atos e manifestações que se multiplicam, sem cessar, pelas ruas em todo o País. Submeter o combate às reformas à lógica do jogo institucional, depositar no Congresso — no atual Congresso, cuja composição atingiu o grau mais vil, reacionário e baixo da história recente do País — a esperança de mudar a constituição, significa sufocar o potencial explosivo da luta. Queremos o fim das reformas já, não algo a ser alcançado talvez — e ponha “talvez” nisso — por obra e graça de um eventual presidente eleito, quem quer que seja.

É a luta contra as reformas, com a mobilização direta dos jovens e trabalhadores, que pode garantir a democracia, incluindo a realização de eleições e a posse de um governo legítimo, e não o contrário. 1984 deixou uma lição que a esquerda, ou pelo menos uma parte importante dela, não quer enxergar.


 

José Arbex Jr. é jornalista

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