Greve geral coloca a questão do poder no Brasil

José Arbex Jr.
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Greve geral coloca a questão do poder no Brasil

Por José Arbex Jr.

São Paulo amanhece silenciosa e deserta na sexta-feira, 28 de abril, como não se vê sequer aos domingos. Passeatas, piquetes de greve, bloqueios de rodovias e apresentações de grupos culturais — música, teatro, declamadores de poesia e circenses — se multiplicam nas capitais e cidades do interior dos 26 estados e em Brasília. O transporte público é paralisado em grande parte do País, ao passo que milhões de trabalhadores e trabalhadoras de todas as categorias cruzam os braços nas cidades e no campo. As mobilizações envolvem até grupos indígenas em luta pela demarcação de suas terras. Comerciantes não abrem suas portas, transeuntes fazem pequenos “comícios” espontâneos nas ruas. Não há como calcular com exatidão quantos participam ativamente do movimento, sem precedentes na história do Brasil. Estimativas aproximadas, e nada exageradas, indicam algo em torno dos 50 milhões de brasileiros. É a greve geral.

De nada adiantou o bloqueio de informação praticado pela rede Globo. Contrariando todos os princípios básicos que orientam a prática do bom jornalismo, a edição do Jornal Nacional de 27 de abril silenciou completamente sobre a convocação da greve geral, embora tenha sido feita por uma frente de amplitude política e ideológica inédita, abarcando a totalidade dos movimentos sociais, as centrais sindicais, setores importantes da Igreja Católica e uma parcela de evangélicos e de outras denominações. Como não recordar, para efeito de contraste, a intensa participação da Globo (e, claro, de outros órgãos da mídia patronal) na preparação das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, quando a emissora divulgava repetidamente, com vários dias de antecedência, os locais e horários dos atos programados, mesmo quando organizados por grupúsculos insignificantes? O fracasso do bloqueio apenas ressalta a impressionante força do movimento que paralisou o País.

“A greve geral conseguiu chegar ao conjunto da classe trabalhadora e, acima de tudo, fazer um grande debate sobre a importância da luta e da resistência contra as reformas do governo golpista de Michel Temer”, avalia João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST. “Caso os ouvidos de Brasília permaneçam surdos à vontade da maioria, mesmo com o forte recado de hoje, o País poderá entrar de forma mais profunda na rota do conflito social”, diz Guilherme Boulos, coordenador da Frente Povo sem Medo e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Avaliações semelhantes se multiplicam por parte dos dirigentes e porta-vozes dos movimentos e sindicatos.

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Apesar de tudo, os ouvidos de Brasília permanecem surdos. Michel Temer, imerso em seu próprio mundo bizarro, e rejeitado por 92% dos brasileiros, limitou-se a repetir o mantra autista (sem ofensa aos que padecem da doença) de que nada aconteceu em 28 de abril, sendo nisso secundado por vários governadores, a começar por Geraldo Alckmin. Tudo foi obra de pequenos grupos de agitadores, motivados por interesses políticos e partidários. E diz que as reformas previdenciária e trabalhista seguirão o seu curso “normal”, com uma arrogância e indiferença às demandas da sociedade que só encontram paralelo na Maria Antonieta dos brioches. Nossa encarnação extemporânea da rainha francesa deveria estudar um pouco de história, para entender que comportamentos desse tipo acabam dando dor de garganta.

"A greve geral de 28 de abril foi um movimento profundo da sociedade brasileira, muito mais significativo e impactante do que, por exemplo, as jornadas de junho de 2013 — elas próprias um reflexo das tensões sociais latentes no País."

A greve geral de 28 de abril foi um movimento profundo da sociedade brasileira, muito mais significativo e impactante do que, por exemplo, as jornadas de junho de 2013 — elas próprias um reflexo das tensões sociais latentes no País. A imensa adesão ao movimento não pode ser explicada “apenas” pela rejeição às propostas de reformas — embora, obviamente, o seu impacto terrorista sobre a vida das pessoas tenha sido o elemento decisivo —, mas expressa também o cansaço, o repúdio do povo às quadrilhas de mafiosos que tomaram Brasília de assalto, ainda que muitos daqueles que aderiram à greve não consigam distinguir entre golpistas e golpeados, colocando todos no mesmo saco, de um modo algo confuso.

O problema, agora, consiste em dar forma orgânica aos desdobramentos do movimento grevista nacional. Há muitas incógnitas em jogo — a continuidade ou não das reformas, e em que medida as propostas do governo serão “atenuadas”; os caminhos da operação Lava Jato, em particular o destino reservado a Luiz Inácio Lula da Silva; a disposição dos dirigentes sindicais e dos movimentos sociais em levar adiante o processo de mobilização até suas últimas consequências; a capacidade dos movimentos sociais, grupos e organizações populares e sindicais responderem às manipulações midiáticas, por meio das redes, blogs e quaisquer outros canais disponíveis.

O mais importante já foi feito: a nação se ergueu e mostrou a sua face diante do governo e das máfias no poder. É preciso, agora, dar o próximo passo: expulsar as camarilhas e refundar o Estado sobre novas bases, talvez com a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. A luta se intensificará nos próximos meses.


 

 José Arbex Jr. é jornalista 

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