Que se vayan todos!

José Arbex Jr.
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Que se vayan todos!

Por José Arbex Jr.

O andar da carruagem apenas deixa mais claro aquilo que, no início, era apenas uma provável hipótese: o governo Temer foi instalado para destruir completamente o mínimo que ainda havia de garantias para os trabalhadores. Todos já sabem: a reforma da Previdência não é uma reforma, é a sua liquidação, pura e simples (é uma piada propor um sistema que exige contribuição de 49 anos, para restituir, com muita sorte, benefícios ao longo de cinco ou seis anos ao trabalhador na reta final de sua vida); da mesma forma, a reforma trabalhista não é uma reforma, é a destruição da CLT (a pretexto de criar empregos, a reforma aprovada pelo congresso revoga conquistas sociais históricas, incluindo a mais importante delas, a jornada de 8 horas). Temer veio para praticar uma política de terra arrasada, e a determinação com que o faz é a moeda de troca de que ele dispõe para se manter no poder: as camarilhas que compõem a máfia burguesa sustentam o seu governo, desde que as reformas sejam concretizadas.

Mas cometem um equívoco aqueles que criticam o governo golpista por, supostamente, pretender impor um projeto neoliberal ao País. Não se trata disso. Os mafiosos que ocupam o Planalto não têm projeto, não tem plano algum. Não são neoliberais, provavelmente sequer sabem o que significa isso. Não sustentam uma visão de futuro. Não se trata mais de um grupo que defende a abertura de mercado, a inserção plena do País na economia globalizada e o fim dos protecionismos, em oposição aos que, no caminho inverso, acreditam, por exemplo, na ativação da economia doméstica como propulsora do desenvolvimento nacional. Não estamos mais nos anos 1990, e sequer na primeira década do novo século. Não há mais planos. Há apenas e tão somente uma lumpemburguesia formada por parasitas, grupos mafiosos que querem saquear o que ainda há de riquezas no País. Ponto final.

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 Isso torna a situação geral ainda mais grave e urgente. Os congressistas que votarão as reformas, com raras e honrosas exceções, não têm compromisso com nada, a não ser com seus próprios interesses pecuniários. Não defendem uma ideologia, uma visão de mundo. Ao contrário. Enxergam a atividade política como um grande bazar, um mercado persa onde tudo pode ser negociado. Daí que, por exemplo, ao defender o impedimento de Dilma Rousseff, não tenham exibido qualquer escrúpulo ao invocar, como justificativa, a necessidade de libertar Jerusalém, de prestar homenagem à própria mãe e outras dezenas de bizarrices idiotas. É nas mãos dessa gente que está o poder de decidir sobre o futuro de milhões e milhões de trabalhadores e trabalhadoras. O Brasil está à beira de um retrocesso social catastrófico, de imensas proporções.

"As reformas têm que ser barradas nas ruas. Não há outra saída. É pura ilusão acreditar que o Congresso recuará. Ou que o Supremo Tribunal Federal poderá servir de apoio à luta pela preservação dos direitos fundamentais adquiridos ao longo de décadas e séculos de combates"

As reformas têm que ser barradas nas ruas. Não há outra saída. É pura ilusão acreditar que o Congresso recuará. Ou que o Supremo Tribunal Federal poderá servir de apoio à luta pela preservação dos direitos fundamentais adquiridos ao longo de décadas e séculos de combates. Mais ilusório ainda é pretender que o jogo será decidido em 2018, quando, supostamente, haverá novas eleições presidenciais no País, e um novo governo, eleito pelo povo, saberá reverter o curso atual. Canalizar a revolta para a disputa eleitoral é aprisionar a luta na armadura engessada de instituições apodrecidas. É fazer o jogo das máfias que controlam os agrupamentos políticos.

Entretanto, foi precisamente isso que fez Luiz Inácio Lula da Silva, durante uma manifestação histórica, realizada na Avenida Paulista, em São Paulo, no dia 15 de março. Ao falar para cerca de 100 mil pessoas, Lula criticou corretamente a proposta de reforma da Previdência, denunciou o seu verdadeiro sentido, mas apontou como solução a eleição de um governo autêntico dos trabalhadores, em 2018. A maior parte da bancada do PT no Congresso adotou a mesma linha, ao denunciar a aprovação da terceirização total do trabalho pela Câmara dos Deputados, em 23 de março (e sancionada por Michel Temer, no dia 31). Para a maioria dos deputados petistas, a “grande resposta” virá em 2018. Faltou explicar o que devem fazer os trabalhadores e trabalhadoras até lá. O PT, aparentemente, pretende reeditar o “Lula Lá” como solução. É patético, até porque pende sobre a cabeça de Lula a espada do juiz Sérgio Moro.

A saída está nas ruas, na articulação de uma greve geral capaz de colocar em crise o próprio poder central, não em 2018, mas já, o quanto antes. Não está sendo fácil para o governo aplicar a sua agenda. Se dependesse unicamente da vontade do Planalto, as reformas já teriam sido todas aprovadas e Lula, provavelmente, estaria na cadeia. Mas a resistência demonstrada por trabalhadores e trabalhadoras nas ruas, apesar dos equívocos de suas direções, impõe limites à ação predadora das gangues, que também se dividem na disputa do espólio, como lobos que disputam os restos das presas. Os mafiosos estão divididos e não são infensos às ruas, sabem que arriscam o seu futuro político (por essas razões, aliás, o governo obteve apenas 231 votos favoráveis à aprovação da terceirização na Câmara, bem menos do que os 367 que votaram pelo impedimento de Dilma). Quanto maior a amplitude das mobilizações, mais difícil será passar a reforma da Previdência. Em dezembro de 2001, na Argentina, um imenso movimento popular impulsionado pelo lema “que se vayan todos” foi capaz de derrubar presidentes e criou um clima de pânico entre os políticos em geral, que eram expulsos de restaurantes, aviões e outros locais públicos. Está mais do que na hora de acontecer algo semelhante no Brasil. É vital.


 

José Arbex Jr. é jornalista 

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