O pop e o magister

Gilberto Felisberto Vasconcellos
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O pop e o magister

Por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Eu sou o manager que veio para desfazer o nó petucano, a combinação anímica do PT com PSDB. Eu sou a bola da vez do Planalto. A burguesia, não só a bandeirante, precisa de mim. Quanto ao capital estrangeiro, sempre o desejei como mel das núpcias. O escopo de minha vida não é senão converter o País em um baita protetorado dos EUA. Cada estado administrado por uma multinacional com os seus executivos. Por exemplo: Minas Gerais fica com Monsanto, Rio Grande do Sul com Google. Nada de político, o lance agora é gestor, e não importa se Luciano Huck tenha dúvida em como grafar a palavra. Gestor com gê ou com jota?

O que ficou provado é que o eleitor gosta do que não entende. Gestor com gê ou com jota – dane-se; aliás, já era a conversa fiada de intelectual na política. O que adianta a Freguesia do Ó ficar sabendo que o Faraó Hitler foi quem primeiro se apresentou como gestor? Que não me leve a mal FHC com os seus ex-pruridos acadêmicos quanto à existência de empresário não político. Não estou nem aí para os ditados do magister. O professor não apita nada no capitalismo videofinanceiro, principalmente no capitalismo videofinanceiro a caminho do fascismo. Em termos de prestígio e persuasão, um âncora ágrafo e bem pago como Fernando Mitre vale muito mais do que o saudoso mestre professor Antonio Candido.

Mistura de publicidade e televisão, Dória linguisticamente é um anacoluto, existencialmente uma vacuidade que se move pela aparência e começa a se ver como um prodígio. Diz de si para si: eu sou bala, cheguei a prefeito com votação estrondosa. FHC está enciumado. Errou por não ter me apoiado. Meu sucesso o incomoda. E daí que eu seja um parvenu, um arrivista? Considera-me um balão, quando não um bobão. Andamos rixados, mas a rixa não pode vir a público. O tempo corre a meu favor, ainda que meus cabelos sejam pintados e não seja eu mais um jovencito. Sou pop, nunca me droguei. Os pobres da favela do Capão e os ricos dos Jardins votaram em mim. No PSDB não há ninguém tão interclassista. O Brasil inteiro maravilha-se com minha proeza eleitoral.

 

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O povoléu do Capão adora minha maneira californiana de me vestir.

O marketing o aconselha a não exibir temperamento água com açúcar, nada de nádegas em cima do muro. Há de escolher um inimigo e dar-lhe bordoada o tempo todo. Quem? Lula e, de sobra, o PT. Ainda que em seu íntimo não esteja convencido que Lula seja o capeta e o mal de todos os males.

Em sua pacata e conformista vida de pequeno-burguês passou Dória quase sessenta anos sem dar a menor bola para o que fazia o PT, indiferente a sindicato, salário mínimo, trabalhador, classe operária, mais-valia. Nada disso despertava sua atenção, que sempre esteve voltada para a dolce vita dos milionários.

A fúria artificialmente manufaturada contra Lula nasceu-lhe de súbito durante a Lava Jato. Geraldo Alckmin, assessorado por agência estrangeira de marketing, resolveu, não sem ousadia, lançá-lo candidato a prefeito. Eu? Eu não. Isso é loucura. Já consultou a douta Janaína Paschoal? Eu não sou político. Eu, não. De nada sei sobre política. Aí é que está o pulo do gato. Você é gestor, gerente, manager.

O povo não suporta mais ouvir falar em político. O pastor Crivella no Rio de Janeiro cuida das pessoas, Trump ganhou com o mote do empresário não político. E, repare bem, empresário cheio da grana, justiceiro dos pobres. Rico não precisa tacar a mão nas sobras de campanha, nem receber salário. Dispensa-o por puro amor, pelo desejo de servir ao povo. Como classificar essa jogada de Dória? Populismo? Charlatanismo?

"Ninguém poderia supor que tão logo pudesse no pedaço pintar outro Collor. Collor paulista, louvado pelos jornalões, que acorda às seis da manhã disposto a pegar no pesado, ostentando que pobre gosta é de rico. Essa é a essência da perversidade tucana. De qual milionário você gosta?"

Injuriar a política e demonizar o político não cai bem aos ouvidos de FHC, sabedor que Adolf Hitler se apresentava como gestor, não como político. Para Dória já era FHC. Com o candidato Matarazzo preterido, o salão tucano está em dissídio. Dória, o trumpinho, é o ditoso prefeito de São Paulo que se veste de jeans apertados e mocassim sem meia, espécie de Alckmin renovado na era do botox. Ninguém poderia supor que tão logo pudesse no pedaço pintar outro Collor. Collor paulista, louvado pelos jornalões, que acorda às seis da manhã disposto a pegar no pesado, ostentando que pobre gosta é de rico. Essa é a essência da perversidade tucana. De qual milionário você gosta? FHC é o banco com ramificações na burguesia culta, ainda que cafona, periférica e colonizada. Dória é o rentismo financeiro em suas ramificações na publicidade e propaganda. Dória é a hipérbole do dinheiro mercadoria: a cópula com a financeirização do capital monopolista. O PSDB de FHC é o do neoliberalismo, o de Dória será o do neofascismo?

O inimigo externo de Dória é o PT, mas dentro do PSDB o adversário a ser abatido é o poder simbólico de FHC. Este não tem poder no executivo, mas é um magister dixit. Dória é a única alternativa da burguesia bandeirante para 2018. Presidente da República, será o maior fenômeno eleitoral superando a Collor e Jânio Quadros. Antes disso, não obstante o juízo desabonador sobre o prefeito, FHC terá de se curvar diante dos fatos. Dória é o homem providencial.

O litígio instaurado nas hostes tucanas não pode descuidar-se da sobrevivência do partido. Todos farão as pazes. O poder... é o poder. No decurso do tempo, Dória é quem entoará o réquiem a FHC. Dória ou o fim do PSDB. FHC precisou da muleta de Itamar Franco, a via prussiana de Juiz de Fora, enquanto a Dória sobra-lhe razão ao afirmar que ganhou a prefeitura de São Paulo por ele mesmo. A essa altura já está convencido de que o trono é dele, confiado em seus atributos pessoais de súbito revelados.

O povo quer ser governado por bilionários. A moda é a exibição da plutocracia que começou com a coluna Joyce Pascowitch. Exiba o consumo conspícuo. A burguesia bandeirante não mora mais em choupana à João Ramalho. Dória tem os seus antecedentes, não é uma anomalia na história da classe dominante.

Viva o golpe de 1964. Essa é a palavra de ordem nos últimos anos.


Gilberto Felisberto Vasconcellos é jornalista, sociólogo e escritor.

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