As cinzas do cinema novo ou os filhos da telenovela

Gilberto Felisberto Vasconcellos
Typography

 

As cinzas do cinema novo ou os filhos da telenovela

Por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Atilado acerto de Erik Rocha ter deixado fora de seu documentário do Cinema Novo a senhora, quase ex-ministra, Ivana Bentes, que assim o livrou do parricídio cinematográfico e do antimarxismo vulgar.

O seu filme não deveria ter sido exibido em capítulos na TV. A exibição gota a gota potencializa a metodologia clip, descosida, ilustrativa, de que resulta a fraca metalinguagem desprovida de interpretação. Nem vencidos nem vencedores. Nem tupy nem antitupy.

Somos inocentes com ou sem culpa, inclusive a culpa feliz.

Documentário afável para agradar a todos durante a guerra civil em curso.

No livro A Revolução do Cinema Novo (1980) entende-se por revolução a mudança do domínio de uma classe social por outra. O autor imprime unidade estilística e conceitual às películas de seus amigos.

Mentalizadores e protagonistas do cinema da nacionalidade, Walter da Silveira e Roberto Pires colocaram a questão proletária e lumpemproletária. O banditismo do sertão e da cidade não é agente ou sujeito da revolução. A contradição é entre cinema nacional e subdesenvolvimento.

Glauber Rocha anteviu a cooptação do Cinema Novo feita pela TV Globo como aparato de dominação externa e apêndice do capital estrangeiro. Revolução traída, desfigurada, tal qual a revolução de 1917 na Rússia. A metáfora marxista exagera, mas não mente.

O padrinho da contra-revolução televisiva foi Roberto Campos. Os cineastas brasileiros eram compulsivos edipianos atrelados à lactose do Estado.

 

Leia mais:

Todo poder aos idiotas

O pesadelo capitalista videofinanceiro

A democracia grampeada

Com o golpe roliudiano de 1964 a telenovela é sucesso para gáudio de Carlos Lacerda, o censor do cinema em sua identificação ambivalente de amor e ódio com o personagem Antonio das Mortes, o sicário matador de cangaceiro. Em A Idade da Terra (1980) metamorfoseia em genocida das multinacionais representado

por Mauricio do Valle com cabelo aloirado pente quente e nevrosado capitalista anunciando Donald Trump, o império no fim da decadência.

Gunder Frank morou uns tempos no bairro de Botafogo. Escreveu em agosto de 1964 que Carlos Lacerda representava os interesses do capital comercial e imobiliário.

A direita carioca, seja qual seja, é de índole lacerdista moldada pelo desejo de telenovela. A pequena burguesia enlouquecida é fascinadapor Antonio das Mortes (hoje pastor evangélico) que atira no povo com bacamarte comprado no PMDB de Israel.

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

A montagem foi criada por Carlos Marx. Não por acaso Eisenstein quis filmar O Capital. A
dialética é tecida do presente para o passado. Em Revisão Critica do Cinema (1963) a  desigualitária constelação regional do País decorre da satelitização imperialista.

A burguesia bandeirante é soberba e vende-Pátria.

Glauber Rocha peleou com o Cebrap de FHC. Deus e o Diabo filmou a caatinga nordestina
criada pelos bandeirantes predadores de índios.

No tempo barroco a atriz Danuza Leão aparece antes e depois da first lady Marcela Temer.
Havia outros cineastas com talento. Releva citar Walter Lima Junior com seu magnífico filme
sobre Luís da Câmara Cascudo, refilmado por Ricardo Miranda, o saudoso Orson Welles de Niterói, no dizer carinhoso do fotógrafo Mario Carneiro.

Glauber Rocha aprendeu a filmar com Roberto Pires, o Lumière de Salvador. Gênio, como dele disse João Guimarães Rosa. Gênio, mas não infalível. Errou quanto ao caráter revolucionário
dos romances de Jorge Amado, errouao atribuir o papel de Cristo do Terceiro Mundo ao poeta ateu e marxista Pier Paolo Pasolini, errou ao subestimar a malícia anticomunista de Arnaldo Jabor: follow the money!

O cinema entreguista pós-Glauber Rocha separou capitalismo de imperialismo.

"O cinemão bate palmas para o imperialismo democrático. A telenovela é o perdão ao golpe
de 64. A burguesia golpista da Fiesp agora é democrata. O pop Rockefeller era a Tropicália, para quem a ditadura começou com o AI-5, e não com a deposição de João Goulart em 1964"

O cinemão bate palmas para o imperialismo democrático. A telenovela é o perdão ao golpe
de 64. A burguesia golpista da Fiesp agora é democrata. O pop Rockefeller era a Tropicália,
para quem a ditadura começou com o AI-5, e não com a deposição de João Goulart em 1964.

Todo mundo surfou na superestrutura autoritária. Antimilitarista, mas não antimilitar, quase linchado pela sociedade civil de Zuenir Ventura. Glauber Rocha reivindicou a epopéia Simon Bolívar no Palácio da Alvorada.

A ditadura continua com a democracia das multinacionais.

Os historiadores bundões ainda não assimilaram a catequese Guarany do Kinema, segundo
a qual a raiz do golpe de 64 está no Lopez del Paraguay com capitalismo de Estado que incomodou a sádica City.

O cinemão submetido à telenovela e à música popular. Aí está a muleta do cineasta a fim de
alcançar sucesso de público, segundo a “euforia entediante” da música popular, como dizia Theodor Adorno. Para essa ruidosa autoajuda gospel, Glauber Rocha se equivocou porque não seduziu o mercado. Foi iludido pela conversa de revolução socialista no Terceiro Mundo, como
reclama Danuza Leão em A Idade da Terra.

O caminho trilhado pelo cinemão foi dado por Roberto Campos e Carlos Lacerda. O professor em Dragão da Maldade converte-se em pastor de Igreja ou âncora da TV Globo.

Paulo Martins de Terra em Transe, seduzido por Milton Friedman e atualizado por George Soros, é eleito senador pelo PSDB de São Paulo, e que já está em Geraldo del Rey desvitalizado em A Idade da Terra. Aí Antônio das Mortes retorna como personagem protagônico.

O lance de Brahms não é com Cristo, e sim com os contratos de privatização. Não mais se comove com a injustiça de que padecem os oprimidos em Dragão da Maldade, não carrega o vestígio de culpa ou arrependimento por ter matado os cangaceiros Lampião e Coirama. Retoma a pauta com o coronel e a Igreja em Deus e o Diabo na Terra do Sol, não tem medo do marxismo nem do proletariado. Cristo, de quem tem um difuso pavor, não é o seu inimigo, já que Cristo é uma palavra anfibológica que serve à acumulação de capital do bispo Edir Macedo.

O desdobramento de Antônio das Mortes em Brahms é pró-imperialismo. Os interesses do
capital monopolista estrangeiro são mais fortes do que a religião. O povo é bobo se contar
com a expiação.

Afinal, o que Brahms quer do Brasil? Não quando está a fim das buças no carnaval e nas Olimpíadas do Maracanã, mas quando recebido pelo Bank of Boston no Palácio da Alvorada.


 Gilberto Felisberto Vasconcellos é jornalista, sociólogo e escritor

 

 

Artigos Relacionados

O pop e o magister O pop e o magister
COLUNA Leia coluna do sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos, publicada na edição 243 de...
Doria dondoca de direita Doria dondoca de direita
COLUNA "Algum fundamento terá na realidade a distinção entre proletariado paulista e proletariado...
Todo poder aos idiotas Todo poder aos idiotas
COLUNA Leia artigo de Gilberto Felisberto Vasconcellos, publicado na edição 239 de Caros Amigos (...

Leia mais
×

×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend