Gramática, religião & anticomunismo

Marcos Bagno
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 Gramática, religião & anticomunismo

Por Marcos Bagno

Uma querida amiga compartilhou comigo um vídeo em que um padre, isso mesmo, um sacerdote católico, de batina e tudo, critica os atuais princípios de educação em língua materna nas escolas brasileiras. Em tom de deboche, ele diz que hoje em dia “aula de português” não tem mais nada a ver com “gramática”: ninguém ensina nem estuda mais “sujeito”, “verbo”, “complemento” etc. Segundo ele, o importante hoje é se “comunicar”. Conforme ele descreve, a aula hoje se faz por meio de um “texto”: a pessoa escolhe um “tema social” de seu interesse, leva um “texto” e, embora esteja sendo paga para “ensinar português”, o que ela faz mesmo é “debater política”. Isso, na opinião do tal padre, contribui para a “lenta e gradual imbecilização de uma nação”.

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Quem vê o tal vídeo pode até pensar que se trata de um ator (de um bom ator até!), fingindo acreditar nas asneiras que diz. Mas, infelizmente, o clérigo fala a sério, é bom de retórica e sabe tirar proveito dos recursos que essa velhíssima arte põe ao seu dispor. Se a coisa ficasse só nessa história de ensinar ou não ensinar “gramática”, o vídeo seria simplesmente a milionésima manifestação de uma ideologia multissecular, que a ciência linguística, infelizmente, ainda não conseguiu fazer desmoronar. Mas o nosso sacerdote dá um salto de qualidade nesse velhíssimo discurso ao incluir em sua peroração a palavra “socialismo”. Para ele, a “imbecilização” se faz para que se possa implantar o “socialismo”. Até que enfim!

"Termina sua breve arenga dizendo que as pessoas ali presentes e que o escutam certamente nunca ouviram falar de Antonio Gramsci, mas que elas conhecem muito bem o gramscismo porque “na escola, na universidade e em outros lugares” aquelas pessoas foram instruídas segundo uma “cartilha marxista”. E assim se completa a santíssima trindade: gramática, religião e delírio anticomunista. Amém!"

Há anos venho investigando as ideologias linguísticas, sobretudo os mitos relacionados à necessidade de “ensinar gramática” para garantir a “ascensão social” do alunado (me engana que eu gosto!). Mas essas ideologias, que correm soltas por todas as sociedades ditas “ocidentais”, quase sempre se apoiam em argumentos (todos falaciosos) que giram em torno das supostas qualidades superiores da “norma culta”, dos benefícios do “ensino de gramática” para o “raciocínio lógico” e outras bobagens semelhantes. Ora, pois bem: o padre em questão não esconde suas posturas políticas direitosas e fascistosas. Ele é explícito, dá nome aos bois e os chama de “anti-intelectuais”. Termina sua breve arenga dizendo que as pessoas ali presentes e que o escutam certamente nunca ouviram falar de Antonio Gramsci, mas que elas conhecem muito bem o gramscismo porque “na escola, na universidade e em outros lugares” aquelas pessoas foram instruídas segundo uma “cartilha marxista”. E assim se completa a santíssima trindade: gramática, religião e delírio anticomunista. Amém!

O discurso desse padre, que poderíamos rotular tranquilamente de “conto do vigário”, é tão rançoso e bolorento que parece copiado de algum folheto de propaganda anticomunista dos anos 1950. Mas ninguém se engane: é novinho em folha, fresco e reluzente, pois são essas fantasias conservadoras que estão ganhando o primeiro plano mundo afora e Brasil adentro. Quanto a mim, “lenta e gradual imbecilização de uma nação” é alguém continuar apregoando que virgens podem dar à luz sem intercurso sexual, e fazendo medo nas crianças com essa bobajada imbecil de que “deus está vigiando”, quando deus nunca se deu ao mero trabalho de sequer existir. Vade retro!


 

 

 

♦ Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB (www.marcosbagno.org)

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