O ministro, a ignorância e a gramática

Marcos Bagno
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O MINISTRO, A IGNORÂNCIA E A GRAMÁTICA

Um amigo me disse que ia escrever à presidenta Dilma sugerindo que nomeasse Aluizio Mercadante para o cargo de embaixador do Brasil na Coreia do Norte. De fato, teria sido muito melhor para todos nós do que reconduzi-lo ao MEC, esse saco de pancada da política, quase sempre ocupado por gente que não tem a mais mínima menor ideia do que seja educação. E o nosso mercadantesco personagem, mal assumiu o cargo, já tonitruou sua vasta ignorância sobre o tema. Reclamou que a proposta de uma base curricular nacional (preparada por especialistas, mas quem liga mesmo para isso, né?) dava pouco espaço para a “gramática”: “Você domina a língua com gramática. A norma culta é discussão fundamental, precisamos reforçá--la”. Poucas palavras, mas suficientes para deixar todos os estudiosos da linguagem de cabelo em pé. Que m**** significa dizer que alguém “domina a língua com gramática”? E que raios tem a ver “gramática” com “norma culta”? Aliás, o que é mesmo essa tal de “norma culta”, que tantos invocam como se fosse uma entidade mística, etérea, inalcançável pelo comum dos mortais? Me dê paciência, meu pai Oxóssi. A linguística moderna vai completar cem anos em 2016, mas a maioria das pessoas ainda pensa na língua em termos pré-medievais.

Cada vez que, por algum milagre inexplicável, conseguimos dar um passo à frente no nosso multissecular atraso educacional, vem alguma força maligna e nos puxa de volta cem passos atrás. E quando o assunto é língua, qualquer pessoa que se dedica a seu estudo sabe que as falácias pré-científicas mais reacionárias imperam ao longo de todo o espectro político, do coxinha fascistoide mais tapado ao esquerdista radical mais obsessivo. De Alexandre “Porta-voz-da-ditadura” Garcia a Aldo “Lei-dos-estrangeirismos” Rebelo, todos se unem felizes para expor sua rematada desinformação como se fosse a erudição mais profunda. Blergh!

Saber “gramática”, no sentido tradicional, isto é, decorar nomenclaturas e atribuir rótulos a pedaços de frases soltas, não leva ninguém a nada, nem a dominar sua língua nem, muito menos, a saber “gramática”. Isso já está provado, comprovado e recomprovado por trabalhos feitos no mundo inteiro, muitos deles no Brasil, e há mais de quarenta anos. É perfeitamente possível levar uma pessoa a se apoderar de uma estrutura linguística por meio da reflexão consciente sobre usos autênticos em vez de obrigá-la a decorar nomes que não fazem nenhum sentido para ela e que, fatalmente, ela esquecerá. Por isso, o linguista Mário Perini (olha aí a dica, sr. Ministro!), diz que gramática é “a matéria que ninguém nunca aprende”. É muito fácil, por exemplo, ensinar que é possível substituir a construção “Suellen disse que gosta mais de teatro do que de cinema” por “Suellen disse gostar mais de teatro do que de cinema” explicando o que está em jogo: a troca de “que gosta” por “gostar”. Basta apresentar vários exemplos, mostrar como se faz a troca e de que modo ela torna o texto mais conciso etc. Mas ninguém precisa saber que o resultado da troca é uma “oração subordinada substantiva completiva objetiva direta reduzida de infinitivo”. Essa centopeia terminológica não serve rigorosamente para coisíssima nenhuma, não leva ninguém a melhorar seu uso da língua falada ou escrita.

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Um pouco de leitura de vez em quando faz bem, sr. Ministro... do que mesmo? Ah, da educação,né?

Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB – marcosbagno.org

FALAR BRASILEIRO - Publicado na edição 224 da revista Caros Amigos

 

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