Língua materna ou língua paterna?

Marcos Bagno
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LÍNGUA MATERNA OU LÍNGUA PATERNA?

A língua materna é precisamente a língua da mãe, a língua que cada pessoa começa a adquirir tão logo nasce e cria o vínculo afetivo-linguístico com a mãe (ou, na falta dela, com a pessoa que venha a preencher esse papel). É uma língua puramente oral — falada e ouvida —, mesmo quando provém da voz de uma pessoa altamente letrada. Língua do afeto, do desejo, do íntimo, do sonho, vive à margem dos ditames da norma canonizada. A língua materna é intrinsecamente variável, doméstica, familiar, idioma particular daquilo que em inglês se chama household, um termo que inclui a casa, seus ocupantes e todas as atividades ali desenvolvidas por eles. Quando, na história de cada sociedade, uma determinada língua — ou mais precisamente, uma das variedades dessa língua — é alçada à condição de língua oficial, ocorre uma importante metamorfose — a língua materna se torna língua paterna transformada em padrão (do latim patronu-,onde está presente a raiz pater- ‘pai’, mesmo vocábulo do qual procedem patrão e patrono).

É a língua patrocinada pelo Estado e, irradiando- se dele, a língua da escola — isso explica o choque que muitas pessoas (especialmente os falantes de variedades linguísticas estigmatizadas) experimentam ao tomar contato pela primeira vez com uma língua que, em boa medida, além de estranha é quase estrangeira. A língua paterna é essencialmente escrita, ortografi zada, normatizada. A língua paterna é a língua da Lei, sempre associada à figura do pai, inclusive nos postulados da psicanálise freudiana. A língua materna — língua de mulher — sofre na maioria das sociedades as mesmas depreciações dedicadas ao gênero feminino: é o lugar do “erro”, do “desvio”, do “frágil”, do pouco confiável, do instável, do inconvenientemente sensível e sensitivo. Ao pai cabe domar e domesticar esse idioma errático, conferindo-lhe regras, regimentos registros, regências, regulamentos — palavras todas derivadas de rex, regis, ‘rei’, assim como recto, direcção, correcção, régua. É a língua do Direito (< derectu–, ‘o que está reto’), erigida como lei linguística. A língua paterna é a língua da erecção, a língua do rei, pai da nação, símbolo do Estado.

Dante Alighieri, num texto escrito por volta de 1390, diz que, embora na Bíblia a primeira pessoa a falar explicitamente seja Eva, “é sempre mais racional supor que tenha sido um homem o primeiro a falar, porque seria inconveniente supor que um ato tão nobre do gênero humano tenha sido produzido primeiro pela mulher e não pelo homem”. Assim, ele faz mil malabarismos retóricos para nos convencer de que a primeira fala foi de Adão. A masculinidade da língua padronizada é explicitada no célebre introito da gramática de João de Barros (1540), em que o autor escreve que os antigos definiram a palavra gramática como “um modo certo e justo de falar e escrever, colhido do uso, e autoridade dos barões doutos”. “Barões” é outra forma de “varões”, ou seja, homens, pois são eles — e jamais as mulheres — os conhecedores e praticantes do “modo certo e justo de falar e escrever”.

O pior é que, tantos séculos depois, ainda tem gente idiota que acredita nessa bobagem!

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Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB – marcosbagno.org

FALAR BRASILEIRO - CAROS AMIGOS EDIÇÃO 205

 

 

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