Um clássico renovado

Marcos Bagno
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Um clássico renovado

Por Marcos Bagno

Em 1986 foi publicado o livro Linguagem e escola: uma perspectiva social. Sua autora, Magda Soares, é um dos nomes mais importantes da educação no Brasil, especialmente do ensino de língua. Além de pesquisadora e formadora de docentes, produziu diversas coleções de livros didáticos de português, sempre com propostas inovadoras fundamentadas nos avanços mais recentes da pedagogia e da linguística. É também uma das principais responsáveis pela divulgação entre nós do conceito de letramento, herdado da antropologia cultural e que tem se revelado muito importante como instrumento teó- rico para a pesquisa e a prática da educação linguística. Agora, passados mais de trinta anos da edição original, o livro de 1986 sai em nova versão, revista e atualizada, e por nova editora (Contexto).

Para explicar o insucesso escolar, Magda Soares passa em revista três construtos teóricos. O primeiro é a “ideologia do dom”: as diferenças entre os indivíduos se devem a desigualdades “naturais”, cada um nasce mais bem “dotado” do que outros. Uma psicologia rasteira, mas muito difundida no senso comum. A segunda é a “ideologia do déficit cultural”: o modo de vida das classes médias e altas permite que as crianças nascidas nesses ambientes sociais tenham mais facilidade para assimilar os conteúdos propostos pela escola. É uma teoria que, evidentemente, aceita a hierarquia social como algo pacífico e inevitável. Por fim, a “ideologia das diferenças culturais” desloca a responsabilidade pelo fracasso escolar do aluno para a própria escola como instituição reprodutora e perpetuadora das desigualdades sociais.

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Valendo-se da sociologia de Pierre Bourdieu, que vê a sociedade como um grande mercado em que os bens culturais (assim como os econômicos) são distribuídos segundo uma lógica de dominação e exploração, Magda Soares propõe ações capazes de levar a uma educação, e a um ensino de língua em particular, mais democrática e libertadora.

É tristemente irônico que a reedição desse livro importante se dê neste ano de 2017, em que presenciamos não só a persistência dos gravíssimos problemas diagnosticados pela autora trinta anos atrás como também a perversidade furiosa com que os criminosos que assaltaram o poder executivo no Brasil tentam aprofundar as injustiças históricas e pulverizar os tímidos avanços educacionais obtidos na última década, além de decretarem uma interrupção de investimentos na área pelos próximos vinte anos. Uma monstruosidade planejada para manter o País na barbárie social e cultural própria da mentalidade de quem hoje nos (des)governa.


♦ Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UNB – marcosbagno.org

 

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