Receita de sucesso garantido

Marcos Bagno
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Receita de sucesso garantido

Por Marcos Bagno

Existe uma fórmula certeira e infalível de sucesso para quem quiser arrebanhar multidões e garantir um tsunami de gargalhadas: debochar dos “erros” que outras pessoas supostamente cometem ao falar a língua. É tiro e queda. Também é uma receita de êxito garantido se alguém quiser desviar uma discussão, esconder o problema de fundo, contornar um tema espinhoso: em vez de tratar da coisa em si, basta apontar os “erros de português” do oponente. Bingo! Não tem como perder.

Tudo isso é velho como as pirâmides do Egito. Os linguistas ingleses Lesley e James Milroy criaram um termo para esse fenômeno sociocultural: “tradição da queixa”. Em qualquer cultura dominada por uma língua hegemônica que, em determinado momento de sua história, sofreu o processo de padronização, existe essa tradição da queixa. No caso do português, é fácil recolher testemunhos de cem, cento e cinquenta, duzentos anos atrás em que se lamenta a “ruína” e a “decadência” da língua, em que se prevê até mesmo a “morte” iminente da língua. Patacoada!

 

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A ciência linguística tem, pelo menos, cento e cinquenta anos. Desde que ela se firmou como um campo de estudo bem delimitado, é possível explicar todo e qualquer fenômeno linguístico com ferramentas conceituais precisas. Por exemplo, se a maioria de nós pronunciamos “falá”, “comê”, “pedi”, sem o [r] que aparece na escrita (falar, comer, pedir), esse é um caso de apócope, um fenômeno fonético perfeitamente explicável e que se dá em todas as línguas do mundo. Quando os portugueses, por seu lado, pronunciam “falari”, “comeri”, “pediri”, estão praticando  uma paragoge. Se todos nós dizemos “assisti o jogo” (em vez de “assisti ao jogo”), é porque pusemos em ação um processamento cognitivo: a reanálise por analogia. E assim vai, e vai longe.

Essa antiquíssima tradição da queixa agora se vale das inovações tecnológicas. O conteúdo é o mesmo: é a zombaria, o deboche, o sarcasmo. É a velha acusação de que quem não fala como eu (penso que) falo é “burro”. Mas burra mesmo é a pessoa que se mete a falar do que não sabe e, por isso, expõe sua própria burrice com arrogância. Além de burra, é preconceituosa: só encontra erro na fala dos outros, mas nunca no seu próprio modo de falar. Ora, quando a gente analisa a fala desses falsos conhecedores, o que mais aparece são erros, isto é, usos que não correspondem ao que prevê a tradição gramatical. Numa sociedade excludente e injusta como a nossa, que caminha a passos largos rumo a um fascismo institucionalizado, não admira que essas pessoas burras façam tanto sucesso.


Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UNB - marcosbagno.org 

 

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