Armas matam; mais armas matam mais

Emiliano José
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Armas matam; mais armas matam mais

Por Emiliano José

Uma guerra.

Nesta guerra, entre 1980 e 2014, já morreram quase 1 milhão de pessoas – exatamente 967.851 vítimas de disparo de arma de fogo.

É um número assombroso.

Como é assustador constatar que a esmagadora maioria dessas mortes, quase 86% do total, foram resultantes de agressão com intenção de matar.

Exatamente 830.420 homicídios.

Muita coisa perto das outras causas de mortes.

Suicídios, quase 38 mil vítimas, coisa de 3,9% do total.

Acidentes: pouco mais de 16 mil, 1,7% do total.

Intencionalidade indeterminada, 83.468 vítimas, 8,6% do total.

E essas últimas ocorrências vem diminuindo com o tempo.

Se formos a outras comparações, o susto é maior ainda: a Aids matou 12.534 pessoas em 2014 no País onde ocorre a guerra a que nos referimos.

E para isso, corretamente, para esse flagelo, temos campanhas, programas de esclarecimento, mecanismos de prevenção, tratamento, políticas para enfrentá-lo.

Querem saber quantas mortes por armas de fogo nesse mesmo ano de 2014?

Quase quatro vezes o que a Aids matou: 44.861 pessoas. 

É cruel fazer conta, mas necessário.

Pra ver o que armas de fogo nas mãos das pessoas podem fazer.

O flagelodas mortes por armas de fogonão encontra quaisquer políticas destinadas a enfrentá-lo, e significa 123 vítimas a cada dia do ano, cinco mortes a cada hora se nos baseamos no resultado de 2014.

Em negrito, pra ver se chama atenção.

Já pensaram o que é isto?

O número de mortes a cada dia, 123 vítimas, representa o equivalente aos massacres de Paris de 2015, quando morreram 137 pessoas.

"O número diário de mortes por arma de fogo é maior que o resultado do massacre do Carandiru, 111 mortes.É um rio de sangue. Grave é que o fenômeno esteja quase naturalizado. Somos capazes de nos emocionar com o Carandiru, corretamente, e pouco se nos dá que morram mais de um Carandiru por dia na guerra que assola o País"

O número diário de mortes por arma de fogo é maior que o resultado do massacre do Carandiru, 111 mortes.

É um rio de sangue.

Grave é que o fenômeno esteja quase naturalizado.

Somos capazes de nos emocionar com o Carandiru, corretamente, e pouco se nos dá que morram mais de um Carandiru por dia na guerra que assola o País.

Nos impressionamos com as guerras de além-mar, com a do Iraque, a do Afeganistão, com tantas outras, com o menino morto numa praia distante, tudo muito justo, tudo muito certo, mas não nos incomodamos com cinco mortes por hora, 123 a cada dia, insisto nos números porque necessário.

Aquelas guerras são bem menores do que a nossa.

Matam menos.

E não é que não sejam graves, sangrentas.

A emoção, a sensibilidade também é fabricada, produzida.

Somos o décimo País em mortes por arma de fogo no mundo.

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Estão morrendo principalmente homens – 94,4% das vítimas. Lembrou-me a União Soviética, que quase viu dizimada a sua população masculina: perdeu 25 milhões de soldados na II Guerra.

E jovens – a faixa de 15 a 29 anos representavam em 2014 60% das vítimas de homicídios por armas de fogo.

Há, também, uma óbvia seletividade racial, preferência para matar negros. 

Enquanto a taxa de homicídios por arma de fogo de brancos caem 27,1%, de 14,5% em 2003 para 10,6% em 2014, a de negros aumenta 9,9%: de 24,9% para 27,4%.

Morrem 2,6 vezes mais negros que brancos vitimados por arma de fogo.

Busquei os números e subsídios para a análise no “Mapa da Violência 2016: Homicídios por armas de fogo no Brasil”, do professor JulioJacoboWaiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), quinto estudo dele discutindo a letalidade das armas de fogo, publicado pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Poderia ser pior, não tivesse havido um esforço de desarmamento da população, não acontecesse o Estatuto do Desarmamento, não houvesse uma campanha destinada a desencorajar o uso de armas de fogo por civis. Essa política de controle de armas de fogo, colocada em prática pelo governo Lula, teria poupado quase 144 mil vítimas, segundo aproximações feitas pelo professor JacoboWaiselfisz.

No entanto, parece pouco provável que tal política siga andando.

O lobby armamentista cresce no País, tornado nos últimos anos o quarto País exportador de armas de fogo do mundo, ao menos se tomado a referência de 2012. Supera países como a Federação Russa ou a China. O setor fez forte ofensiva sobre o Legislativo em 2014. 

Há uma campanha, aberta ou subliminar, no sentido de tentar demonstrar que armas nas mãos da população desestimulaam o crime e reforça a segurança da população, uma rematada besteira.

"Mais armas nas mãos da população significam mais mortes, não o contrário. Estamos, a rigor, importando uma ideologia, a americana. Os EUA são o país que mais exporta armas do mundo. E que sempre difundiu a ideologia de que o cidadão há de ter uma arma na mão para se defender. E há, nesse momento, um governo no Brasil, resultante de um golpe, absolutamente disposto a ceder aos apelos desse lobby"

Mais armas nas mãos da população significam mais mortes, não o contrário.

Estamos, a rigor, importando uma ideologia, a americana. Os EUA são o país que mais exporta armas do mundo. E que sempre difundiu a ideologia de que o cidadão há de ter uma arma na mão para se defender. E há, nesse momento, um governo no Brasil, resultante de um golpe, absolutamente disposto a ceder aos apelos desse lobby.

A política de segurança caminha na contramão do que havia sido pensado no Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), nascido no governo Lula, e que articulava políticas de segurança com ações sociais, dava prioridade à prevenção, buscava as causas da violência.

O governo Temer só pensa em repressão e em presídios.

E outra iniciativa política equivocada e muito grave: a utilização das Forças Armadas para quaisquer crises que envolvam a crise prisional. Forças Armadas não são pensadas constitucionalmente para tanto e nem tem experiência para esse tipo de atividade. O governo golpista quer transformá-las em polícia. 

Há outras questões de fundo a incrementar essa guerra, esse banho de sangue.

A mais forte delas, arrisca-se dizer, é a nefasta política de combate às drogas.

Pretende-se resolver pela repressão, pela tolerância zero a questão das drogas, política em relação à qual até os EUA estão recuando pela absoluta ineficácia dela.

Não há civilização sem droga, e o que se tem a fazer é desenvolver políticas de convivência com ela, e não pretender extingui-la a golpes de facão e tiros de metralhadora.

Nunca esquecer o crescimento vertiginoso da máfia com a vigência da Lei Seca nos EUA entre os anos 20 e início dos 30 do século passado.

Ou mudamos essa política, ou não há dúvida de que o banho de sangue vai prosseguir.

É assustador assistir ao governo golpista diante das rebeliões nas penitenciárias propor mais e mais presídios, como se isso fosse uma solução.

Somos atualmente o quarto País do mundo em número de prisioneiros, e em torno de 40% deles sem julgamento.

Quem imagina ter prisões em paz com superlotação, condições miseráveis, com um sistema prisional que caminha para a crescente privatização?

Não há como.

A Holanda crescentemente está desativando presídios, e isso decorre, entre tantos outros aspectos, também por conta da legalização e controle da qualidade das drogas. Assim agiu o Uruguai recentemente, assim tem procedido outros países, inclusive, sob alguns aspectos, os EUA. 

Se não mudarmos essa política de combate às drogas, se não dermos passos ousados na política de desarmamento, se não articularmos política de segurança com ações sociais, não é preciso ser vidente para descobrir que a matança de jovens pobres negros nas periferias das cidades grandes, médias e pequenas prosseguirá.

Essa guerra não pode prosseguir.

Não podemos seguir acabando com nossa população masculina jovem e negra, eliminando-a.

Acresça-se a tudo isso, o fato de que o governo golpista, ao incrementar a política neoliberal, ao retirar direitos numa escala sem precedentes, ao desnacionalizar a economia, destruir a infraestrutura nacional, favorecer o rentismo, fará com que a miséria e o desemprego aumentem exponencialmente, e isso já está acontecendo aceleradamente, e esse é um caldo de cultura favorável ao crescimento da violência, lamentavelmente.

Resta que a população se levante, crie suas próprias formas de resistência à política golpista, se prepare para as eleições de 2018, de modo a que retomemos o caminho do desenvolvimento com distribuição de renda e possamos, então, criar políticas capazes de nos fazer caminhar novamente na direção de uma sociedade justa e fraterna, capaz de solucionar os conflitos pelo diálogo, e não pelas armas.

*Com esta frase, encerra-se o “Mapa da Violência 2016”.


  Emiliano José é jornalista 

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