Revolução e anticapitalismo

Emiliano José
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Revolução e anticapitalismo

Houve uma época, venho dela, em que a Revolução era tema obrigatório na esquerda. Fosse a reformista, fosse a antirreformista, e apenas tomo termos do passado sem qualificá-los, o termo revolução aparecia como absolutamente indispensável. A formulação sobre quaisquer processos de transformação passava pela ideia dessa musa. Nós nos embalávamos por ela, nos inspirávamos nela.

E essa inspiração tinha um pano de fundo: nos obrigava a olhar para além do capitalismo.

Éramos ousadamente anticapitalistas.

Queríamos a superação do capitalismo.

Não sei se o fato de o capitalismo, com sua impressionante capacidade de superação, de sobrevida, que pode durar muito tempo, quem sabe, não sei se isso fez com que a ideia de Revolução, volto à caixa alta, entrasse em desuso, ou fosse confinada a microrrevoluções, a singularidades, todas muitas justas, mas incapazes de abarcar o todo.

 

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A nossa musa pretendia, queria dar o salto, sempre para além do mundo do capital, uma transformação de fundo, estrutural, fundada na gênese marxista. Não se rendia às contingências, não se subordinava às conjunturas específicas, embora nunca as desprezasse.

Ser revolucionário não é simples.

Pensar na Revolução, difícil.

Estou escrevendo e sabendo o quanto posso ouvir de contraponto. Ser anticapitalista parece coisa antiquada. Melhor procurar os caminhos de convivência, de adaptação a esse impressionante modo de produção, mesmo que pretendendo transformações.

Pode acontecer até de alguns companheiros ou companheiras de esquerda sacarem Gramsci para justificar isso, pobre Gramsci, utilizado de variadas maneiras.

 

Sou, sem qualquer atitude pretensiosa, um gramsciano, e sei o quando ele era cioso da ideia revolucionária, o quanto era adepto da Revolução, eis ela de volta, caixa alta.

Sei, sei muito bem, que tudo depende da correlação de forças.

Sei do processo, da trincheira por trincheira, da luta pela hegemonia diária, incessante.

Que não nos basta uma atitude panfletária.

Mas, cada passo há de ter um rumo, para que a longa jornada não seja em vão.

É assustador o frenesi do modo de produção capitalista, há uma espécie de trem suicida aumentando de velocidade, e isso perigosamente vai sendo naturalizado. Causa vertigem, nos coloca à beira do precipício, mas nem sempre nos damos conta disso.

Há tempo e força para deter esse trem?

Não sei.

Sei ao menos que é preciso, primeiro, a consciência de que ele aumenta a sua velocidade, e até agora não creio haja uma clareza da tragédia a caminho e nem reunião de forças no mundo para barrá-lo.

 "As maiorias têm consciência da obscena concentração de renda do mundo, obviamente resultado do modo de produção capitalista? Sabem que oito, isso mesmo, apenas e tão somente oito bilionários possuem uma riqueza equivalente à de 3,6 bilhões de pessoas integrantes da metade mais pobre da população do planeta?"

As maiorias têm consciência da obscena concentração de renda do mundo, obviamente resultado do modo de produção capitalista?

Sabem que oito, isso mesmo, apenas e tão somente oito bilionários possuem uma riqueza equivalente à de 3,6 bilhões de pessoas integrantes da metade mais pobre da população do planeta?

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Discute-se corrupção, difunde-se uma moral saneadora, aqui e acolá, inclusive no Brasil, sem ir ao fundo da questão, tangenciando-a sempre: existe algo mais escandaloso do que essa crescente concentração de renda?

E ela é naturalizada, glamourizada, santificada quase, creditada aos méritos dos Bill Gattes, Amancio Ortega, Warren Buffett, Carlos Slim, JeffBezos, Mark Zuckerberg, Larry Ellison e Michael Bloomberg, os oitos privilegiados filhos desse obsceno modo de produção.

Esses bilionários usam os paraísos fiscais para sonegar impostos, não raramente valem-se de trabalho escravo ou pagam salários de miséria aos seus empregados ou aos fornecedores, e essa denúncia foi feita pela Oxfam, organização não governamental que divulgou essa lista dos oito privilegiados, e bote privilegiados nisso.

No Brasil, e é preciso anotar isso num momento em que tanto se discute corrupção, seis bilionários concentram a mesma riqueza de mais de 50% dos brasileiros – Jorge Paulo Lemann, Joseph Safra, Marcel Herrmann Telles, Carlos Alberto Sicupira, Eduardo Saverin e João Roberto Marinho. E o governo golpista discute cortes e mais cortes de investimento social, volta ao modelo concentracionista neoliberal, depois da distribuição de renda possibilitada pelas politicas dos governos Lula e Dilma.

A Revolução não pode deixar de atentar para isso.

Não pode deixar de levantar a bandeira anticapitalista.

Há que proclamar a necessidade de superação desse modo de produção.

Não fosse pela concentração de renda, e tal concentração é evidência da inviabilidade desse modo de produção, insustável a caminhar nessa velocidade, há a necessidade urgente de avaliar o desastre a que estamos sendo levados como planeta.

O capitalismo pode nos levar, está nos levando, à impossibilidade da existência humana, não há exagero nisso. A lógica impiedosa da acumulação de capital, o padrão de consumo estabelecido pelo capitalismo, está levando à destruição acelerada dos recursos naturais, do meio ambiente, de modo a nos levar à inviabilização do planeta terra.

O capitalismo, com sua lógica de acumulação, sempre foi isso. Mas, agora nos coloca, coloca a espécie humana, sob risco iminente.

É evidente que a política leva em conta as situações singulares, vive debruçada sobre a conjuntura, e só ela pode estancar esse trem suicida. Talvez por isso, a política, nessa etapa de financeirização do mundo, de predomínio absoluto do capital financeiro, esteja sob ataque cerrado, demonizada, esculhambada, diminuída, a população levada a acreditar seja ela, a política, a responsável por todos os males, e não por acaso há o crescimento da direita, muitas vezes da direita fascista, por toda parte.

É hora de a esquerda não só lutar para recuperar a dignidade da política, mas, fazer isso significa, também, pensar estrategicamente. Escapar do confinamento conjuntural. Ou por outras palavras, pensar a conjuntura olhando o todo.

Recuperar a ideia da Revolução.

Recuperar o espírito anticapitalista, não ter medo de dizer isso.

Colocar a preservação do meio ambiente como essencial à existência humana.

Não ser cúmplice da destruição do planeta, defender o meio ambiente.

Mostrar o que o capitalismo está produzindo, evidenciar a barbárie da concentração da renda, o que é a verdadeira e monstruosa corrupção, aviltamento da condição humana.

Isso, como alguns podem querer, não é abandonar a política, ao contrário.

É voltar a fazer da política instrumento de transformação, é pensar revolucionariamente.

"O que o golpe de 2016 está fazendo é escandalosamente seguir a trajetória neoliberal, atacar os direitos sociais e as políticas distributivas, voltar um século atrás quanto à legislação trabalhista, abdicar da soberania nacional, abrir as portas à especulação capitalista destruindo o meio ambiente"

O que o golpe de 2016 está fazendo é escandalosamente seguir a trajetória neoliberal, atacar os direitos sociais e as políticas distributivas, voltar um século atrás quanto à legislação trabalhista, abdicar da soberania nacional, abrir as portas à especulação capitalista destruindo o meio ambiente O golpe de 2016 segue a trilha da lógica mundial: aprofundar a lógica do capitalismo financeiro, que está levando os trabalhadores do mundo à pauperização, e os poucos ricos a uma riqueza escandalosa,intolerável. 

Pensando conjunturalmente, é possível fazer acordos com parte da produção capitalista, mas sem abrir mão de aspectos essenciais, especialmente os direitos da população mais pobre, e sem rebaixar nossa visão estratégica de superação do capitalismo.

Não há mais tempo a perder.

É certo que não vivemos uma situação cômoda.

É uma conjuntura de dificuldades para a esquerda em todo o mundo.

Mas, rebaixar nossa estratégia não irá acalmar o ímpeto destrutivo e acumulador do capital. Tática e estratégia não podem andar separadas. Nem reforma e Revolução. Na luta pela hegemonia lembrar sempre que o capitalismo será o nosso apocalipse, se a humanidade não barrá-lo. A barbárie provocada por ele não é amanhã. Está à nossa porta. 


 

Emiliano José é jornalista 

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