Desculpe, Gregório. Talvez precisemos de mais 300 anos...

Décio Semensatto
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Desculpe, Gregório. Talvez precisemos de mais 300 anos...

Por Décio Semensatto

Meu caro Boca do Inferno,

Estamos em 2017. Desde que você escreveu sua obra Epílogos, lá pelo final do século XVII, muitos acontecimentos se sucederam nas terras da eterna colônia. Pois é, o Brasil ainda é uma colônia. De exploração, diga-se. Isso porque embora emancipada da coroa lusa, restaram nesse País os senhores escravocratas de uma oligarquia cada vez mais assanhada, que perpetua-se no poder e lança aos cães aqueles que não compartilham de suas cepas. Pense em dois senhores que devem explicações aos tribunais.

Denuncie com convicções um egresso da pobreza que tirou outros milhões de pobres da mesma situação e será um herói nacional por defender a lei e os bons costumes. Denuncie um abutre de sangue azul que também rouba o cofre público e planeja a morte de seu capataz e assistirá sua salvação no tribunal com direito à menção de sua destacada trajetória política, sem qualquer constrangimento.

Mostre a desonra da canalhada, será no máximo mais uma nova boca do inferno. Acaricie com suas palavras a política que lança o braçal como fosse um pedaço de carvão à fornalha que move a engrenagem do capitalismo selvagem, será o visionário e cronista de sua época.Como vê, a colônia pode não estar no papel, mas continua muito viva nas mentes e corações de gerações e gerações da massa cada vez maior que forma o nosso País. Não há liberdade de fato quando as grades e os grilhões mantem-se na consciência daqueles que outrora foram cativos e daqueles que senhoraram. E aquela atmosfera (i)moral que você descreve nas câmaras, templos, repartições, tribunais e no gabinete do mandatário? Ainda continua fétida e nauseante.

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Sabe, meu bom Gregório, há quem diga que hoje muito pode se resolver com o mérito do esforço próprio. Não há meritocracia enquanto houver quem seja convencido pelas circunstâncias que não poderá alcançar seu direito simplesmente porque sua condição social é inferior, independentemente da superioridade de sua inteligência e de sua decência.

Eu juro, meu bom amigo, que tenho me esforçado para manter o moral e a esperança de que em algum momento todo aquele potencial que sonhamos por gerações irá finalmente se realizar. Queria que fosse na do meu filho e o educo para isso. Há muitos outros que o fazem também. Apesar disso, esse País parece estar numa galáxia distante.

Dados os trilhos que nos impõem seguir e as pontes para o futuro que nos querem fazer atravessar, seguiremos sendo a velha colônia de exploração que você conheceu, Gregório. Aqui se exaure sem piedade ou acanhamento até a última gota de sangue do povo e da terra em grande benefício de quase ninguém. Acho que precisaremos um pouco mais do que outro epílogo como o seu. E quem sabe de mais 300 anos...

Um abraço que não conhece o tempo.

Epílogos

Gregório de Matos

Que falta nesta cidade? Verdade

Que mais por sua desonra?Honra

Falta mais que se lhe ponha... Vergonha.

O demo a viver se exponha,

Por mais que a fama a exalta,

numa cidade, onde falta

Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? Negócio

Quem causa tal perdição? Ambição

E o maior desta loucura? Usura.

Notável desventura

de um povo néscio, e sandeu,

que não sabe, que o perdeu

Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos? Pretos

Tem outros bens mais maciços? Mestiços

Quais destes lhe são mais gratos? Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,

dou ao demo a gente asnal,

que estima por cabedal

Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? Meirinhos

Quem faz as farinhas tardas? Guardas

Quem as tem nos aposentos? Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,

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e a terra fica esfaimando,

porque os vão atravessando

Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda? Bastarda

É grátis distribuída? Vendida

Que tem, que a todos assusta? Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,

o que El-Rei nos dá de graça,

que anda a justiça na praça

Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia? Simonia

E pelos membros da Igreja? Inveja

Cuidei, que mais se lhe punha? Unha.

Sazonada caramunha!

enfim que na Santa Sé

o que se pratica, é

Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?....Freiras

Em que ocupam os serões?.......Sermões

Não se ocupam em disputas?.....Putas.

Com palavras dissolutas

me concluís na verdade,

que as lidas todas de um Frade

são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou? Baixou

E o dinheiro se extinguiu? Subiu

Logo já convalesceu? Morreu.

À Bahia aconteceu

o que a um doente acontece,

cai na cama, o mal lhe cresce,

Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode? Não pode

Pois não tem todo o poder? Não quer

É que o governo a convence? Não vence.

Que haverá que tal pense,

que uma Câmara tão nobre

por ver-se mísera, e pobre

Não pode, não quer, não vence.

Extraído da biblioteca digital do Portal Domínio Público.


 

 Décio Luis Semensatto Junior é ecólogo e professor de Ciências Ambientais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Diadema (SP).

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