Quanto nos custarão as mudanças climáticas: uma perspectiva científica e a distância brasileira da realidade

Décio Semensatto
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Quanto nos custarão as mudanças climáticas: uma perspectiva científica e a distância brasileira da realidade

Por Décio Semensatto

Saiu nessa última semana de junho na revista Science um estudo bastante interessante, no qual pesquisadores de universidades americanas estimaram as perdas econômicas do PIB dos EUA causadas pelas mudanças climáticas até o final deste século. Para tanto, os autores assumem que a tendência das mudanças climáticas e o uso do solo serão mantidos. Entretanto, não consideraram a adaptabilidade humana a essas mudanças, o que realmente é muito difícil prever. Foram analisados seis grandes setores (de mercado e fora do mercado): agricultura, criminalidade, tempestades na região costeira, energia, mortalidade humana e trabalho. A referência de temperatura é o nível pré-industrial e para a o PIB o intervalo entre 1981 e 2010.

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Os resultados de 29.000 simulações apontam a perda de 1,2% do PIB a cada 1o C que a temperatura média elevar. Em se tratando da dimensão do PIB americano, isso é bastante significativo. De um modo geral, a criminalidade deverá aumentar em todo o país. Já os outros setores terão um desempenho diferente de acordo com o local. Enquanto o sul e leste deverão ter perdas na agricultura, a região central e noroeste deverão ter ganhos. Já a mortalidade deverá aumentar em algumas regiões por conta do calor e de tempestades e furacões mais intensos, enquanto em outras deverão diminuir o número de mortes com invernos menos rigorosos. O fato é que os efeitos serão diferenciados e até mesmo divergentes no território americano, levando a um novo cenário de organização social e econômica daquele país. Uma projeção muito relevante é que o terço mais pobre dos condados tem 90% de probabilidade de perderem de 2 a 20% de seu PIB, o que irá aumentar a desigualdade no país.

Em que pese ser apenas uma projeção, ela está publicada em uma das mais prestigiadas revistas científicas de todo o mundo, reconhecida pelo seu rigor editorial. Neste caso, trata-se de um bom material para reflexão e aprofundamento de análise. Como a Ciência não é dogmática, cabe a leitura crítica. Infelizmente, no Brasil não temos incentivo para execução desse tipo de estudo, mesmo sendo o principal produtor agrícola de todo o mundo, maior detentor de água doce e de áreas conservadas,tudo com enorme potencial de impactos causados pelas mudanças climáticas. Ao contrário, a Ciência, Tecnologia e Inovação do país recebem apenas 50% de sua dotação original prevista e será relegada a assunto quaternário na nação temerária.

Na segunda quinzena de junho o mundo assistiu as trapalhadas diplomáticas do governo temerário, que resultou em ameaça de retirada de investimentos estrangeiros na conservação da Amazônia. Aqui, além de não termos qualquer incentivo para executar estudos tal como o publicado na Science, o governo ainda contribui para piorar o cenário de mudanças climáticas.

Para ver o artigo que mencionei, acesse: http://science.sciencemag.org/content/356/6345/1362

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