Trump pede para parar e descer do planeta

Décio Semensatto
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Trump pede para parar e descer do planeta

Por Décio Semensatto

É isso mesmo, leitor. Depois de anunciar que os EUA deixarão o Acordo de Paris, Donald Trumpmostra que se comporta como se fosse possível os EUA pararem e descerem do planeta sem experimentaremqualquer uma das consequências que o aquecimento global irá proporcionar nos próximos anos. Com a justificativa estapafúrdia de que escolheu o “melhor para os americanos, e não para os moradores de Paris”, Trump dá nova prova de que governa sem qualquer percepção da mínima realidade, além da sua própria bolha. Se Trump pensa que a única saída para fazer crescer a economia dos EUA é basear a produção industrial queimando ainda mais combustíveis fósseis, então sua cabeça está cerca de um século atrasada. Parece que ele não acompanhou todas as inovações tecnológicas das últimas décadas e não vislumbra o oceano de oportunidades econômicas que novas concepções de economias não baseadas na emissão de carbono proporcionam. Esse atraso custará muito aos EUA, até mais do que simplesmente dinheiro.

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Está claro que para minimizar e remediar os impactos do aquecimento do clima deveremos gastar muito mais do que a alternativa de procurar retardá-los. Projeções confiáveis realizadas pelos cientistas que integram o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) apontam para esse cenário. Imagine o que o aumento do nível do mar causará ao funcionamento de todas as cidades litorâneas, que concentram a grande maioria dos habitantes do planeta e que abrigam grandes centros de fluxo financeiro e de produção de riquezas. Com mais vapor de água e maior temperatura na atmosfera, como Trump pretende combater furacões e nevascas que atingem seu país e que estarão cada vez mais intensas e frequentes? Talvez com um grande muro isolando os EUA do resto do mundo e pago pelo cidadão americano? E como lidará com quebras de safras? Oferecendo carvão e gasolina para comer e beber? Como arcará com o aumento de doenças associadas ao clima? Não arcará.Trump resolveu destruir qualquer iniciativa séria de universalização da saúde em território americano.

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"Não vou entrar aqui no mérito do debate se o aquecimento global existe e se nossas atividades realmente contribuem para sua aceleração. Essa é uma questão já vencida e aqueles que não 'acreditam', incluindo uma irrisória minoria de cientistas que buscam algum holofote, devem ter formado suas convicções em uma sala com ar condicionado"

Não vou entrar aqui no mérito do debate se o aquecimento global existe e se nossas atividades realmente contribuem para sua aceleração. Essa é uma questão já vencida e aqueles que não “acreditam”, incluindo uma irrisória minoria de cientistas que buscam algum holofote, devem ter formado suas convicções em uma sala com ar condicionado. Aquecimento global não é questão de crença. É fato evidenciado, explicado e sustentado por dezenas de milhares de pesquisas científicas e milhões (talvez bilhões) de dados coletados. Ponto final.

A questão agora é como os principais emissores de carbono se comportarão com a saída dos EUA. Alguns países estão vendo a oportunidade de se firmarem mais no papel de líderes mundiais acima dos EUA, como fizeram a Alemanha, China e França (Macron postou “Makeourplanetgreatagain”). Por enquanto, Rússia se mantém no compromisso, embora tenha dado o recado que poderá sair se considerar que os EUA estiverem em vantagem econômica. O Brasil, importante por conta da Amazônia, deve se manter no acordo apesar de eu particularmente não duvidar de nada da República Velha.

É fato que estão passando os últimos bondes da história para essa questão. Em breve haverá um ponto em que pouco será possível fazer a partir do colapso de certas relações ambientais. O grande problema é que o aquecimento global não é um fenômeno que cada um poderá escolher se enfrenta ou não. Com efeitos econômicos socializados por todo o planeta, Trump impõe a todas as nações financiarem com seus próprios prejuízos os lucros sujos derivados do projeto de país que ele acredita fazer os EUA grandes novamente. Deus abençoe a América...


 

 Décio Luis Semensatto Junior é ecólogo e professor de Ciências Ambientais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

 

 

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