Esperança para 2017

Alexandre Matias
Typography

Esperança para 2017

Por Alexandre Matias

O ano de 2016 foi pesado sob quase todos os aspectos e 2017 não parece que vai dar trégua. Para começar, o novo ano é quando as tragédias que ocorreram no ano passado começam a valer – de Trump ao governo do ex-vice golpista, de Dória a Crivella. As crises política e econômica que assolam o planeta parecem ter se transformado em regra e que não há
espaço nem motivação para resistir.

Mas, como canta um dos mortos de 2016, “há uma brecha em tudo e é por ali que entra a luz”. E enquanto via a democracia ruir, o Brasil e o resto do mundo engatar a ré rumo aos anos 1980, à Velha República, à Idade Média, também pude ver de perto diferentes facetas de um movimento que está cada vez mais engatilhado e que cresce, apesar da crise, porque não é pensado apenas como um mercado, apesar desta ser uma de suas motivações.

Leia mais:

Reerguer o Maranhão

Fim do capítulo

Duas estrelas sob a torre

A criação de um movimento musical autoral brasileiro já não é mais uma vontade – é um fato. Se compararmos então à crise criativa que vivemos na virada do século, quando a internet fechou algumas portas para abrir milhares de outras, a situação atual é o paraíso. A maioria das pessoas que trabalha com música – no palco e nos bastidores – vive cada vez mais disso, sem ter que se equilibrar entre outros bicos e empregos.

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE
"Há uma lenta transição que também mostra a criação de um novo mercado que pode se tornar
autossustentável em alguns anos, quando a internet é usada mais para divulgação da obra de um artista e eventos com a presença deles irão pagar suas contas"
 
   

Há uma lenta transição que também mostra a criação de um novo mercado que pode se tornar
autossustentável em alguns anos, quando a internet é usada mais para divulgação da obra de um artista e eventos com a presença deles irão pagar suas contas. O mercado também amadurece na medidaem que você tem várias máquinas de entretenimento trabalhando de costas para a mídia tradicional e fazendo as gravadoras multinacionais correrem atrás do novo sucesso, que depende de cenas e artistas que já formaram seu público.

Por mais que você possa desgostar do sucesso do forró universitário, do novo sertanejo, do funk paulista e do hip hop, é inegável que seu sucesso é fruto de seu próprio trabalho – e não da única máquina que antes alimentava rádios e lojas de discos. Sevocê nunca ouviu “10%” de Maiara e Maraisa, “Malandramente” do produtor Dennis com Nandinho e Nego Bam ou “Bumbum Granada” dos MCs Zaac e Jerry – três dos maiores hits de 2016 no Brasil – não é sinal que você é desinformado ou que vive numa bolha, mas que o que antes era a principal corrente do mercado não é um tsunami único como era até o final do século, mas várias ondas diferentes – algumas gigantescas, mas nunca reunidas em uma só, que, inevitavelmente, dominavam o espectro musical coletivo. Lembre da onipresença do axé, do sertanejo e do pagode nos anos 1990 (e como você,mesmo sem gostar ou conhecer, sabe de letras inteiras deste período) e compare com o que acontece no mainstream atual. E se você ainda perceber que estes artistas movem-se por conta própria, sem oauxílio de uma máquina de mídia que elegia os ungidos,dá para ver o quanto a música brasileira mudou nestes últimos quinze anos.

E mudou também para aqueles que exploram outras fronteiras da música brasileira. O ano viu a consolidação de um movimento novo na música brasileira deste século, cujo ápice aconteceu no ano passado – a volta da inquietação. Dois discos sintetizam estas duas frentes diferentes de um mesmo movimento em 2016. O Tropix de Céu, melhor disco da carreira da cantora paulistana, aponta transformações políticas e estéticas sob uma camada de despretensão pop. E o impressionante Duas Cidades, do grupo baiano BaianaSystem, bota o dedo na ferida do apartheid brasileiro, fundindo pontos de vistas e gêneros musicais modernos e ancestrais, urbanos e rurais.

Os dois discos fundem-se a um cenário desenhado no ano anterior por discos como TransmutaçãoDancê, Fortaleza, De Baile Solto, Selvática, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, Frou Frou, Mulher do Fim do Mundo, Rá!, Violar, Manual, Pedaço Duma Asa e Terceira Terra, que este ano ganhou aliados como MM3 do Metá Metá, os discos póstumos de Sabotage e Serena Assumpção, o Brutown dos The Baggios, o Melhor do Que Parece d’OTerno, o Golpe de Vista de Douglas Germano, o Arco e Flecha de Iara Rennó, o Monstro do DeFalla, o Ivete de Wado e o primeiro disco de Mahmundi, além de obras novíssimas de veteranos como João Donato, Letieres Leite, Odair José e Arthur Verocai. Isso sem contar a grande revolução estética transgênero, em que artistas como Liniker e os Caramellows, As Bahia e a Cozinha Mineira, Jaloo e Rico Dalasam desafiam classificações sexuais para expandir o horizonte cultural do País, modernizando-o na marra.

Há, contudo, um enorme abismo entre estes dois Brasis: um verdadeiramente popular, outro verdadeiramente desafiador. Dois levantes populares distintos, que se dividem esteticamente e retratam um País também separado pela política. Mas enquanto o cisma ideológico parece cada vez mais profundo e doloroso, a separação cultural parece mais fácil de se resolver. Artistas das duas vertentes já começam a flertar uns com os outros e nomes como Tiê, Karol Conká, Emicida, Tropkillaz, Kondzilla, Tiago Iorc, Anitta, Marcelo Jeneci e Mano Brown já lançaram
os primeiros sinais de aproximação entre metades brasileiras que não se conversavam – e pode ser que estes primeiros flertes comecem a render frutos na medida em que a situação política do País vai por água abaixo. Esta talvez seja a boa notícia de 2017 que já começa em transe e em crise – e o inimigo comum possa nos restituir a glória de ser uma só nação.


 

 Alexandre Matias, 41 anos, é jornalista e dono do site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br) e também mantém um blog no uol (matias.blogosfera.uol.com.br)

 

Artigos Relacionados

Novos caciques Novos caciques
TUDO TANTO Leia coluna de Alexandre Matias, publicada na edição 243 de Caros Amigos (Foto: Divulga...
Você samba de que lado? Você samba de que lado?
TUDO TANTO "Um País racista que disfarçou seu racismo glorificando uma música (e uma cultura)...
Ninguém disse que ia ser fácil Ninguém disse que ia ser fácil
TUDO TANTO Leia artigo de Alexandre Matias, publicado na edição 241 de Caros Amigos (Foto: Divulga...

Leia mais
×

×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend