Fim do capítulo

Alexandre Matias
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Fim do capítulo

Por Alexandre Matias 

O rap brasileiro sempre nos fez esperar pelos novos discos. A espera por Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MCs, era palpável – todos sabiam da importância do grupo para o gênero e ansiavam pela novidade que certamente elevaria o patamar de qualidade da cena local. Os quatro anos entre Raio X do Brasil e o disco de 1997 só não foram mais tensos que os cinco que o sucederam, antes do lançamento do épico ostentação Nada Como Um Dia Após o Outro Dia.

A lenta espera também marcou o lançamento dos discos do RZO na virada do século, o segundo disco solo de Marcelo D2, o segundo do Z’África Brasil, o primeiro do coletivo Quinto Andar, o segundo disco do coletivo Instituto, os discos de estreia de BNegão e Black Alien e, claro, os doze anos que separam Nada Como Um Dia… de Cores e Valores, lançado em 2014, pelos Racionais MCs. Mas nenhuma espera foi tão aguardada quanto a do segundo disco do rapper Sabotage – e a razão é evidente.

Porque Mauro Mateus dos Santos, uma das raras unanimidades no rap brasileiro e assumidamente agente fundamental para tirar a cena hip hop nacional da adolescência, foi assassinado no dia 24 de janeiro de 2003, três meses antes de completar trinta anos e bem no início da gravação de seu segundo disco. O primeiro, Rap é Compromisso, lançado três anos antes, havia chocado o consenso do gênero ao levar o estilo musical para além do território gangsta, pavimentado durante os anos 1990 ao som de tiros e sirenes de polícia. Sabotage flertava com o samba, com o soul, com o funk e seu impressionante fl ow de palavras conquistava até os neófi tos. Sem contar sua presença: um poço de carisma que hipnotizava rodinhas de improviso, plateias de milhares ou qualquer um com quem parasse para conversar olhando no olho.

Logo após Rap é Compromisso, que vendeu quase 2 milhões de cópias pela gravadora dos Racionais MCs, Cosa Nostra, Sabotage passou a explorar novos rumos. Flertou com a moda, a publicidade e o cinema, quebrando uma série de tabus em relação à presença do hip hop. Se os Racionais haviam erguido um muro contra tudo que eles entendiam como uma continuação velada da escravidão, Sabotage pulava este muro sagazmente para mostrar que era preciso ganhar aqueles que eram considerados inimigos.

 

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O cinema proporcionou seu momento-chave, quando entrou para o filme O Invasor, adaptação de Beto Brandt para o cinema do livro de Marçal Aquino, quase como penetra. Foi chamado para participar da trilha sonora depois que o diretor o viu em um clipe de seus padrinhos do RZO e não conseguiu disfarçar o riso quando viu o ator e músico Paulo Miklos interpretando alguém da periferia. Começou a dar dicas para o diretor e para o ator e logo foi efetivado na equipe como consultor para o filme. Foi a deixa para que ele participasse do filme fazendo o papel dele mesmo. A elogiada participação no filme de 2002 o garantiu um convite para trabalhar na adaptação que Hector Babenco fez do livro de Drauzio Varella, Carandiru, que estreou no ano em que o rapper morreu.

Foi nos bastidores do primeiro filme que Sabota, como era mais conhecido pelos amigos, consolidou o laço com os produtores Daniel “Ganjaman” Takara, Rica Amabis e Tejo Damasceno, que haviam começado a lançar-se como Instituto. Ao perceber o potencial que os produtores tinham para reunir pessoas e músicos interessantes, o rapper instigou os três para irem ao palco e assim reuniram-se para poucas apresentações ao vivo – algumas históricas, como no Sesc Santo André ou no Sesc Pompeia. Era o início do ciclo ao vivo de um dos polos de produção mais intensos do Brasil na primeira década do século – que aos poucos foi se separando amigavelmente à medida em que Ganjaman começou a se envolver com a carreira de Criolo – e uma forma de Sabotage explorar novos limites e horizontes musicais.

Essa evolução foi interrompida com a morte estúpida do rapper, que tomou quatro tiros dados por alguém ainda anônimo, que deixou uma máscara preta ao lado de seu corpo, no bairro da Saúde, em São Paulo. A notícia pegou toda a cena hip hop de surpresa e, em choque, ela perdeu o rumo conduzido pelo agora mártir. Anos se passaram para retomar o rumo, que contaram com o surgimento de outros rappers e coletivos inspirados no trabalho de Sabotage com o Instituto. Nomes como Quinto Andar, Emicida, Rappin’ Hood, Kamau, Rael, Parteum, Marcelo D2 e os próprios Racionais começaram a moldar um novo rap para o século 21, claramente inspirados pelos horizontes abertos por Sabotage.

Enquanto isso havia a espera de um disco que vinha sendo feito há mais de dez anos, usando os vocais que o rapper havia gravado pouco antes de morrer e reunindo os principais nomes da cena e amigos de Sabotage .O disco, que finalmente foi lançado este semestre com apenas o nome do rapper, levou treze anos para sair, mas reúne a nata de uma cena cada vez mais madura e coesa. Conduzido pelos três integrantes originais do Instituto (que, com a saída de Ganja, finalmente lançaram o seu próprio segundo disco no ano passado, Violar), o novo disco conta com onze faixas que juntam nomes tão importantes quanto Negra Li, Lakers, Mr. Bomba, BNegão, Céu, DJ Cia, Funk Buia, Dexter, Helião e Sandrão do RZO, Fernandinho Beatbox, Rodrigo Brandão, Rappin’ Hood, DJ Nuts e Tropkillaz, entre outros, e tem o peso que esperávamos deste lançamento, revelando-se um disco tão importante para esta década como o anterior foi para a passada.

Este mesmo grupo de luminares – mais outros tantos, como Emicida, Criolo, Fióti, Black Alien, João Gordo e os filhos de Sabotage, Sabotinha e Tamires, entre outros – se reuniu no Salão dos Arcos do Teatro Municipal de São Paulo para a primeira audição ao vivo do disco, quando cada um dos amigos e participantes do álbum póstumo foi ao microfone para saudar a importância do maestro do Canão para a maturidade atual do rap brasileiro – e vários discursos arrancaram lágrimas ao lembrar como o Sabotage, mais que importante, era querido. O disco póstumo é o legado vivo de sua obra, que certamente infl uenciará os próximos rumos do rap que vem por aí. Um fi m de capítulo que valeu cada minuto da espera.

 

 


 

 Alexandre Matias, 41 anos, é jornalista e dono do site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br) e também mantém um blog no uol (matias.blogosfera.uol.com.br)

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