Novos caciques

Alexandre Matias
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Novos caciques

Por Alexandre Matias

Há um tempo que venho detectando e relatando aqui nesta coluna, o reencontro da música brasileira com a cultura de protesto, a contracultura, a vanguarda estética e o descontentamento generalizado da sociedade. Qualidades distintas, mas primas, vizinhas e movidas pela mesma motivação, que é próxima do próprio conceito da arte em si, de não manter-se no mesmo lugar, de querer sempre transcender, ir além. A expressão artística em si não se limita a apenas refletir o indivíduo, a sociedade ou a civilização, mas também a provocar a transformação, a questionar o status quo, buscar expandir a consciência — e com ela, o indivíduo, a sociedade e a civilização.

Tradicionalmente, a música (e a cultura como um todo) brasileira sempre enfrentou a autoridade, a mesmice, a estagnação. Nossa tradição é a do anti-herói, sejam os personagens de Machado de Assis ou do Henfil, o intelectual em conflito ou o político populista do filme Terra em Transe, a golpista e o empresário corrupto de Vale Tudo ou o malandro / bandido e policial corrupto / assassino das letras do samba e do hip hop. O Brasil sempre viveu à margem e sua cultura traduzia isso em forma de confronto — são clássicos os dribles que diferentes compositores deram na censura mais hostil à cultura (a da época da ditadura militar, antes dos anos Fernando). Mas nos anos de ouro da economia nacional do início do século, a música — e, de certa forma, toda a cultura brasileira — passou por um momento de autocelebração e de autocontentamento que inevitavelmente neutralizava o choque e o conflito, criando o tal abismo estético — que é irmão da polarização política — que segue dividindo o Brasil neste novo século. Até o rap, tradicionalmente aguerrido e politizado, começou a falar de amor.

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Mas essa década do não-confronto não aconteceu só por conta da boa fase financeira que o Brasil — e o mundo — atravessava. Ela também coincide com o início da era digital para as massas, quando a internet deixa de ser conexão discada e vira banda larga, quando o texto deixa de ser o principal padrão de comunicação para dar espaço para imagens, sons e vídeos, quando a internet sai dos computadores para os telefones celulares e as pessoas passam a se conectar umas às outras através de enormes catálogos humanos on-line chamados de redes sociais. Este novo cenário começou a ser desenhado pela própria chegada da música na internet. A velocidade de transferência e o formato MP3 fizeram a música ser o boi de piranha da nova mídia e com ela foi descentralizado um mercado que, durante o século 20, foi lentamente se transformando em um oligopólio.

O download ilegal de músicas no início do século fez a indústria fonográfica perder a liderança cultural que um dia teve, passando-a para empresas de tecnologia. A mesma década de satisfação política também foi uma década de reinvenção de formatos e uma nova geração de artistas viu-se surgindo entre um mercado que estava desintegrando e outro que vinha sendo construído de forma incerta. As primeiras gerações da música brasileira no século 21 não protestavam porque não queriam — mas fazer música em si já era uma forma de protesto, de sobrevivência em um mercado que não parecia ter solução viável no horizonte para mantê-lo financeiramente.

Isso, contudo, vem mudando. Esta mesma geração, dona de uma nova safra de álbuns lançada nos últimos anos, mostra que está botando suas garras de fora — e cobrando uma mudança. Muitos discos lançados em 2016 peitam a mentalidade de shopping center e a produtização que o capitalismo impõe à cultura. Mas faltava uma pressão mais forte, mais direta. E essa pressão começou a ser feita por dois álbuns de 2017, lançados na mesma semana: o Galanga Livre, de Rincon Paciência, e o Boca, de Curumin.

"São discos irmãos, paulistanos, mas essencialmente brasileiros, que fogem do cinza da metrópole para abraçar o colorido de todo o País, sem perder os olhos e os ouvidos do resto do mundo"

São discos irmãos, paulistanos, mas essencialmente brasileiros, que fogem do cinza da metrópole para abraçar o colorido de todo o País, sem perder os olhos e os ouvidos do resto do mundo. Álbuns que mexem com diferentes estados de espírito e gêneros musicais, pontos de vistas e visões de mundo, temperaturas e pressões distintas para fugir de uma estética única, repetitiva, quadrada. Rincon e Curumin fogem dos padrões, mas, principalmente, do padrão, da âncora mercadológica do sucesso comercial que, quando não dá o prumo, ajuda a afundar.

O multifacetado Galanga Livre parte de uma história fictícia de um escravo que matou o senhor de engenho para entrar num Brasil em constante movimento, intenso e sempre na pressão, mesmo nos momentos mais contemplativos. Rincon produz e rima com características particulares, uma dicção que remete a idiomas africanos, rimas sagazes e manhosas e beats que casam samba com trap, a versão mais recente e eletrônica do hip hop norte-americano. Ele fala sério com um riso no canto da boca, brinca com assuntos sérios, superpõe o épico e o mundano, história e rotina para frisar que os diferentes aspectos de sua musicalidade não são díspares, mas complementares.

Curumin segue um discurso semelhante, mas trabalhando na pós-produção, no improviso, na sonoridade orgânica. Multi- -instrumentista, ele lidera sua banda a partir de uma bateria cheia de samples, pedais, teclados. Dispara trechos de música para encaixar em sua própria batida, seja orgânica ou sintética, acompanhado de perto por seus velhos compadres Zé Nigro e Lucas Martins, que também revezam-se nos vocais, guitarra, baixo, efeitos e MPC, lidando com as duas facetas da mesma musicalidade. Seu recém-lançado disco Boca é o ápice deste amálgama musical, misturando cores e sabores para mostrar que a graça é não ter padrão. Tanto Boca quanto Galanga Livre pressionam ainda mais o dedo na política ao tirá-la das assembleias e congressos e trazê-la para a vida real, cotidiana, puxando discussões sociais e culturais que vão além da régua da mera música pop. Ambos abrem o capítulo 2017 da maturidade dessa geração e têm a mesma força que a dupla Tropix (da Céu) e Duas Cidades (do Baiana System) pareciam carregar no ano passado.


 

 Alexandre Matias, 41 anos, é jornalista e dono do site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br) e também mantém um blog no uol (matias.blogosfera.uol.com.br)

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