A esquerda e o indivíduo

Cynara Menezes
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A esquerda e o indivíduo

Por Cynara Menezes

Somos de esquerda e pensamos, em primeiro lugar, na coletividade. É tão natural na esquerda priorizar o coletivo quanto é,na direita, priorizar o individualismo. Para a esquerda, o “nós” vem sempre antes; para a direita, se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Mas eu tenho a impressão que a gente tem pecado em não olhar mais para o indivíduo, em não mostrar uma atenção especial para com o crescimento individual.

Vejam bem: não estou propondo que abandonemos a prioridade ao bem-estar coletivo. Isto tem sempre que ser a meta do cidadão de esquerda, lógico. O que estou propondo é, somado a isso, que tracemos estratégias para nos aproximar dos que querem crescer e melhorar de vida enquanto pessoas, individualmente falando. Sobretudo conseguir transmitir que é possível ser de esquerda e ao mesmo tempo desejar ascensão profissional e social. Por que não?

Afinal, nos últimos anos, é justamente o que estivemos oferecendo às populações mais humildes, se considerarmos que o PT é um partido de esquerda: a oportunidade de galgar degraus na pirâmide social. Ora, uma vez que sobem na vida, por que estas pessoas se afastam da esquerda? Por influência da mídia, por síndrome de Estocolmo, por muitos fatores, mas também porque não têm se identificado com a esquerda. Até porque nós também não nos identificamos com este cidadão que ascendeu.

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O “empreendedor”, seja ele pequeno ou grande, infelizmente se sente mais acolhido na direita, que obteve êxito na disseminação da falácia da “meritocracia”. Nós sabemos que a direita mente ao enaltecer as “oportunidades iguais”; nós sabemos que a grande maioria dos que usam a palavra “meritocracia” não tiveram mérito algum em seus sucessos, a não ser por terem herdado dinheiro para chegar lá. Nós sabemos disso, mas os que foram seduzidos pela “meritocracia”, não.

"Devia ser o contrário, porque somos nós, de esquerda, que valorizamos quem rala na vida para conseguir ser alguém. Somos nós, inclusive, que achamos importante a mobilidade social, capaz de combater as desigualdades – a direita, pelo contrário, não só não está nem aí como trabalha para que tudo esteja onde sempre esteve"  
   

Devia ser o contrário, porque somos nós, de esquerda, que valorizamos quem rala na vida para conseguir ser alguém. Somos nós, inclusive, que achamos importante a mobilidade social, capaz de combater as desigualdades – a direita, pelo contrário, não só não está nem aí como trabalha para que tudo esteja onde sempre esteve. Os pobres “no lugar dos pobres” e os ricos “no lugar dos ricos”. Nós, não: queremos que os pobres melhorem de vida e que as riquezas não estejam tão concentradas nas mãos de poucos.

Mas o fato é que, hoje, se uma pessoa pobre quiser estudar, trabalhar e se esforçar para “ser alguém” encontrará eco no discurso enganador da direita e não no da esquerda. Que inversão é essa? Ao mesmo tempo que a esquerda (o PT, no caso) forneceu as condições para incluir milhões de pessoas no mercado de consumo e na universidade, estas condições são agora rejeitadas por quem mais precisa ou precisou delas...

Estamos carentes de ideias novas. O turbilhão de denúncias envolvendo o PT nos deixou estacionados. Faz tempo que não formulamos, não propomos nada ousado, arrojado. Antes de chegar ao poder, tínhamos tantas propostas inovadoras... Para onde elas foram? A máquina de iludir da direita conseguiu convencer os incautos de que tem vanguarda a oferecer ao mesmo tempo que leva o País para trás. A enganação é tal que arrancam direitos, levando trabalhadores ao passado, mas convencidos de que isto é o futuro.

Como nos aproximar destes jovens ambiciosos e sem recursos familiares que estão caindo na fábula da meritocracia, convencidos por gente que nunca trabalhou duro? Seria a ambição incompatível com ser de esquerda? Não acho. Todo mundo tem ambições na vida e isso nada tem a ver com ideologia. O que tem a ver com ideologia é a forma como esta ambição vai se concretizar e como o ambicioso em questão vai encontrar seu lugar no mundo.

Acho que a esquerda tem que entrar na disputa pelo pequeno empresário, pelo jovem que quer ter uma startup, tem que passar a olhar com mais simpatia o empreendedor. Não há incoerência em ser de esquerda e querer ter sucesso na vida. Demos as condições para que as pessoas estudassem e comprassem; agora precisamos oferecer propostas que as ajudem a crescer, a se desenvolver e ao mesmo tempo permanecer fiéis a um modo esquerdista de ver o mundo.

O que nos diferenciará, porém, da direita, dos “liberais”? A maneira como vemos estes empreendimentos,por exemplo. O empresário liberal quer pagar o menos possível para o empregado; nós não acreditamos em empresas em que todo mundo não cresça junto. Aos liberais pouco importa se sua empresa terá alguma função social ou de defesa do meio ambiente; para nós, não há razão para uma empresa existir se não for assim.

A realidade atual indica claramente que não podemos abrir mão da parcela da sociedade que almeja o crescimento individual. Melhor: não existe razão plausível para estarmos distantes dela. Não há nada mais à esquerda do que alguém sair do nada e ascender socialmente. São trabalhadores que merecem todo o respeito. Temos que descobrir como conscientizar estas pessoas sobre o pouco que a direita tem de fato a oferecer a elas. Mas, para isso, é necessário que nós também sejamos capazes de lhes oferecer algo.


Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialismo Morena (socialistamorena.com.br)

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