Verdades inconvenientes

Cynara Menezes
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Verdades inconvenientes

Por Cynara Menezes

Um dos maiores defeitos dos políticos profissionais é a mentira. Parece que uma vez que alguém entra para a política, perde a capacidade de ser sincero. Isso não é exclusividade da direita, não. Políticos em geral mentem, seja para agradar os eleitores, seja para ocultar seus erros. Mentem que nem sentem. Neste momento, ao contrário, nosso País chegou à hora da verdade. Se para alguma coisa a Lava Jato e o golpe contra a Dilma serviram, foi para acabar com a mentirada em que a política brasileira vivia mergulhada. A corrupção nas campanhas eleitorais era uma velha canção em nossos ouvidos, mas fingíamos estar surdos. A classe política sabia. A imprensa sabia. A própria Justiça sabia. Vamos falar a verdade! Como é que as coisas funcionam? O povo também precisa saber. Pois bem.

Ficou claro que todos os partidos (à exceção, talvez, do PSol) se beneficiaram de doações milionárias de empresas, legais e ilegais, para eleger seus candidatos. A “generosidade” dessas empresas com políticos está diretamente ligada aos negócios que fecharão com os governos para os quais “doaram”. Está aí, portanto, a raiz de toda corrupção. Enquanto houver financiamento privado de campanha, haverá corrupção.

 

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Também se comprovou que alguns destes políticos não se utilizaram destes recursos “por fora” apenas para fazer campanha, e sim para enriquecer, abrir conta em seu nome e no de familiares no exterior e mimar as esposas com joias e roupas caras. Muitos dos que encheram as burras de dinheiro se encontram no poder após Dilma ser arrancada do cargo, sob a desculpa de que queriam “acabar com a corrupção”. Melhor dizendo: foram eles, os maiores ladrões desta nação, que a tiraram do cargo.

Mas, se queremos ser mesmo sinceros, devemos reconhecer que a maior parte deles já estava lá antes do golpe. Michel Temer estava. Geddel Vieira Lima estava. Moreira Franco estava. Eliseu Padilha estava. Romero Jucá foi líder no Senado dos governos Lula e Dilma, como antes havia sido de FHC... O próprio Eduar do Cunha, em certo momento, foi aliado do PT. Vamos falar a verdade, pô.

E esta vai doer: se tudo isso não tivesse acontecido, Temer jamais chegaria à presidência da República – mas poderia continuar a ser vice-presidente, inclusive de Lula em 2018, já imaginaram? Nós, cidadãos de esquerda, poderíamos ter que engolir o PT mais uma vez se aliando ao PMDB, aos Jucás, Geddéis, Moreiras e Padilhas, até o final dos tempos. É ou não é uma maravilha termos nos livrado dessa gente de uma vez por todas? O PT errou, sim, ao aderir a este sistema de financiamento de campanha e em se aliar a esta corja que iria traí-lo e derrubá-lo do poder. Mas outra verdade que a gente enxerga hoje é que o PT conseguia manter essa turma com a rédea mais curta. Sem o PT no poder, eles estão descontrolados.

"O PSDB tem outra atitude em relação a este bando: se os petistas faziam lamentavelmente vista grossa para os malfeitos do PMDB, os tucanos os deixam absolutamente à vontade, até porque estão subordinados a eles e obcecados pela volta ao governo federal. Se os petistas demonstraram falta de escrúpulos, os tucanos nunca souberam o que é isso"

O PSDB tem outra atitude em relação a este bando: se os petistas faziam lamentavelmente vista grossa para os malfeitos do PMDB, os tucanos os deixam absolutamente à vontade, até porque estão subordinados a eles e obcecados pela volta ao governo federal. Se os petistas demonstraram falta de escrúpulos, os tucanos nunca souberam o que é isso.

Nem só verdades duras têm vindo à tona. É bom comprovar que estávamos certos quando dizíamos que o impeachment era um golpe. Estávamos certos quando dizíamos que o PSDB iria destruir os direitos dos trabalhadores se voltasse ao poder. Eles falavam que era mentira, que era “terrorismo”, e prometiam ao povo o contrário, apenas para iludi-lo. Parte dos que foram às ruas de verde e amarelo contra Dilma foi para rua porque caiu nessa.

Também se confirmou que o PSDB faria, como fez FHC, um governo destituído de soberania, de joelhos para os Estados Unidos, e empenhado em vender todas as riquezas nacionais. Falávamos a verdade ainda quando dizíamos que, uma vez na presidência, a direita iria destruir a saúde e a educação públicas simplesmente porque, como sempre alertamos, governa para os ricos. São verdades que não consolam, mas que esperamos que sirvam para abrir os olhos dos ingênuos.

E já que eu comecei, quero dizer mais algumas: foi um erro a presidenta Dilma Rousseff  ter se candidatado à reeleição em 2014. O PT deveria ter feito prévias e se, fosse o caso, Lula deveria ter saído no lugar dela. Porque o segundo governo Dilma não estava bom, estava ruim demais. E não falo isso sob a ótica dos paneleiros, falo sob a ótica dos movimentos sociais, dos sem-terra, dos sem-teto, dos indígenas, dos cidadãos LGBTs.

Mas, antes disso, em 2013, foi um erro crasso do PT ter mantido a aliança com o PMDB em nome de uma governabilidade que não existia mais. Deveria ter partido para o tudo ou nada com uma chapa puro-sangue, e de fato virar à esquerda, não como jogo de cena, como os marqueteiros regiamente pagos fizeram a gente crer naquele segundo turno de 2014 – para ver Dilma reassumir, em 2015, ao lado de golpistas e rentistas.  verdade dói. Mas purifica. Não sei se sairemos desta situação um País melhor. Às vezes penso que o período em que o PT esteve no poder foi a exceção e que a regra é a patifaria que estamos vivendo, da mesma forma que sempre vivemos antes de Lula chegar ao poder em 2002. Outro lado de mim pensa que não, que esta é só uma fase ruim e que voltaremos a tomar o rumo correto, para fora do atoleiro. Seja o que for que nos espera mais adiante, soltar estas verdades inconvenientes presas na garganta tem um efeito libertador.


 

♦ Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialismo Morena (socialistamorena.com.br)

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