Evangélicos contra estado criminal e o "golpe gospel"

Fabio Py
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Evangélicos contra estado criminal carioca e o golpe

Por Fábio Py


Pensar a desobediência civil sob a ótica do Evangelho. Esse foi o polêmico tema da aula-ato, realizada no início deste setembro na escadaria da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, na Cinelândia. O evento contou com a participação de quase cem pessoas, a maioria identificada, de alguma forma, com a identidade protestante/evangélica em sua vertente mais progressista. Na aula-ato, os religiosos rechaçaram as Unidades de Políticas Pacificadoras (UPP) e rejeitaram o impeachment de Dilma Rousseff.

"Assim como foi denunciado por Jesus, os mandatários do poder são um sepulcro caiado e, dessa forma, a desobediência civil é uma atitude legítima"

Contra UPP e o estado criminal, o ativista Fellipe dos Anjos, utilizando-se de passagens da Bíblia (1Cor 1,27-28), destacou que levantar-se contra a opressão estatal é uma atitude legítima para os cristãos. Fellipe indicou que a leitura dos evangelhos mostra que Jesus não se deixou dominar pelo império romano. Ao contrario, lutou junto com os menores da época (órfãos, viúvas, prostitutas, pedreiros, pescadores etc.) contra o imperialismo romano. O também ativista Ronilson Pacheco, além de lembrar o sofrimento das vítimas das UPPs, abordou a segregação racial, destacando as lutas dos líderes religiosos negros, entre os quais, o norte-ameriacano Martin Luther King e o sul-africano Desmond Tutu.

Um dos momentos mais importantes da aula-ato foi a leitura do “Manifesto Evangélico Contra a Legitimidade do Estado”. O documento indica que o impedimento de Dilma Rousseff seria um teatro armado pelo próprio estado brasileiro formalizando um ritual que combina uma série de gritos irreais, articulações obscuras, e de intencionalidade impenetráveis. O documento salienta que, assim como foi denunciado por Jesus, os mandatários do poder são um sepulcro caiado e, dessa forma, a desobediência civil é uma atitude legítima “desobediência e a desautorização do estado e das suas formas de imposição e gestão são, na verdade, um imperativo da vivência de uma espiritualidade inspirada em Jesus”, afirma um dos trechos do manifesto.

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Embora de tônica nitidamente evangélica, na aula-ato houve participações de pessoas de outras tradições religiosas, como personalidades católicas e do candomblé do Rio de Janeiro, mostrando que o diálogo entre os diferentes setores religiosos se faz necessário.

O evento foi organizado por cristãos membros de comunidades circulantes do Grande Rio, que apresentam um caráter inclusivo e progressista. Aceitam pessoas de Aula-Ato-Fabio-Pyidentidade LGBTT, assumem a responsabilidade social do cristianismo, lutam contra o racismo, questionam a estrutura fundiária brasileira, a mobilidade urbana e assumem a discussão ecológica e em favor das populações empobrecidas urbanas. O setor também contraria as estruturas religiosas locais que apoiaram (por seus religiosos) a política higienista do governo explanado pelas mídias e empresários cariocas que tentam pacificar o cotidiano.

O seguimento não se identifica com as agendas evangélicas ligadas à bancada BBBB do Congresso (banqueiros, Bíblia, bala e boi) um braço responsável pelas ações que afunilaram com o impedimento da presidente Dilma Rousseff – apelidado de ‘golpe-gospel’. No entanto, rejeitam também a política de implementação/consolidação das UPPs, que se formalizaram na coligação PMDB-PT. Acredita-se que as UPPs representam, de fato, invasão militar nas favelas cariocas, que se tornaram laboratórios de políticas de exceção e de violações de direitos humanos e sociais.

Com a aula-ato do dia cinco mostra-se que o setor evangélico é muito mais vasto do que a mídia explora, diferente do que o senso comum quer crer. Existe uma fração de evangélicos que apoia políticas mais sociais, chegando a questionar o estado criminal carioca. Leva-nos a perceber que o que as mídias pintam seria uma caricatura antiquada, recheada pelos bufões da intransigência: Marcos Feliciano, Silas Malafaia ou Eduardo Cunha. Quando se percebe que nem mesmo os fiéis das próprias igrejas desses líderes apoiam (todas) suas falas e/ou votam cegamente nos políticos por eles indicados.

 

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