Convenção Evangélica expulsa igreja que permitia batismo de LGBTs

Fabio Py
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Expulsão da Igreja Batista de Pinheiros da CBB: um histórico dos problemas e rachas batistas

Por Fábio Py

Quem são os batistas hoje? Não é uma pergunta fácil de ser respondida. Até por que a denominação configura a terceira mais numerosa protestante-evangélica no Brasil, logo, tendo diferentes ramos e frações o compondo. Está atrás apenas da Assembleia de Deus e da Igreja Universal no número de fieis. É interessante vê uma igreja “tradicional” com tamanha promoção social aproximando-se em números das igrejas pentecostais e neopentecostais. Mas não é apenas isso. Historicamente essa estrutura religiosa foi um fenômeno protestante posterior das Reformas da Europa que ganhou força desde os solos ingleses, mas principalmente nos EUA, onde há tempos é a maior denominação protestante. Nisso arrisco uma tese: pelos batistas serem um fenômeno posterior nas Reformas acabaram se desenvolvendo a partir dos sucessos e fracassos das demais signatárias. Incrementam as experimentações sociais a partir de sua marca eclesiástica de a igreja local ser autônoma e democraticamente constituída.
Pela característica do governo local autônomo, tanto aqui, como nos EUA, os batistas desenvolveram uma série de associações que lhes garantem tal nome, sendo que no Brasil a maior associação de batistas se encontra sob o guarda-chuva da CBB, a Convenção Batista Brasileira. É uma convenção que tem força, mesmo que as comunidades locais tenham garantia de autonomia normalmente pautada na democracia. A CBB teve início no Brasil em 1907, originalmente sem força de coesão sobre as comunidades. Era apenas uma simples reunião de missionários, pastores e líderes religiosos para discussão dos problemas das comunidades locais, contudo, como união de corpus eclesiástico e sua sedutora vontade de poder foi-se implicando organizações, escolas, seminários, agências publicadoras, juntas de missões e convenções regionais. Tais complexidades foram forjadas para apresentar uma identidade batista – ostensivamente composta de um ideal conversionista.

"Para eles, Lutero não era tão “santo”, porque era um ex-monge ou monge, que falava palavrões e bebia vinho. O reformador alemão era tudo o que as elites batistas do século passado negavam" 

• Batistas, mais puros dos reformados
A salada batista formada pelos fluxos missionários sulistas americanos apresentou historicamente uma inovação entre os protestantes no século XX. Eles não se dizem protestantes, pois protestantes vieram de Lutero. Para eles, Lutero não era tão “santo”, porque era um ex-monge ou monge, que falava palavrões e bebia vinho. O reformador alemão era tudo o que as elites batistas do século passado negavam. Assim, o pastor James Milton Carroll, no livro “Rastro de Sangue” constrói a hipótese do ‘rastro de sangue’ entendendo que os batistas vieram de uma sequência ininterrupta desde a tríade João Batista-Jordão-Jerusalém (JJJ). Logo, bem antes da podridão das Reformas europeias e sem qualquer vínculo com católicos. A hipótese teve importantes seguidores no Brasil e em certa medida é um argumento para não permitir o vínculo dos batistas com o movimento ecumênico que brotava no País nos anos de 1930. Os batistas, limpos e puros, não poderiam se ligar aos demais protestantes e católicos. Claro que, já na década de 1940, formaram-se batistas desviantes como Lauro Bretones, David Malta do Nascimento e Hélcio Lessa – que mesmo contra as sinalizações oficiais participaram das reuniões ecumênicas da Confederação Evangélica Brasileira – a CEB. Eles mesmos que posteriormente, construiriam o movimento de Diretriz Evangélica, no qual, renovou teologicamente a agenda batista na década de 1950.

• Batistas, e os entraves pentecostais
Outro problema atravessado na construção da CBB foram os rachas ocorridos nas décadas de 1960 por conta da aceitação dos religiosos aos “dons do Espírito Santo”. Nesse caso, cito as importantes igrejas que tiveram disputas eclesiásticas e judiciais: a Igreja Batista do Calvário (no bairro do Fonseca, em Niterói, RJ) e a Igreja Batista da Lagoinha (em Belo Horizonte, MG). A Igreja Batista do Calvário se formou do racha na Igreja Batista do Fonseca, processo levado pelo pastor Samuel Chagas. Já, a hoje conhecida Igreja Batista da Lagoinha foi deflagrado o processo pelo pastor José Rego do Nascimento, que voltou a Belo Horizonte dizendo que o avivamento chegou ao Brasil. Nesse período, a CBB se muniu com um corpo jurídico para provar quem seriam os ‘verdadeiros’ batistas, isso é, os ‘tradicionais’ da fé, logo, não abertos a ‘heresia’ pentecostal. Interessante que, a partir do período, os concílios de pastores passaram a chamar o pentecostalismo (e aos dons do “Espírito Santo”) como conjunto de procedimentos heréticos. Ao mesmo tempo, o dado contém um contra-senso, pois, pelo percebido no último censo no Brasil, os batistas foram a denominação tradicional que mais cresceu nos últimos anos, muito se devendo a incorporação de elementos pentecostais. Assim, se percebe que os batistas são a face do protestantismo clássico que mais dialogou comunitariamente com as ‘inovações’ do cenário evangélico brasileiro.

• Batistas na atualidade
Na atualidade pode-se dizer que a questão do pastoreado feminino entre os batistas não foi tão resolvida. Certo é que em 10 de julho de 1999, ocorreu a primeira consagração de pastora pela CBB, a pastora Silvia da Silva Nogueira, pela Primeira Igreja Batista de Campo Limpo. Embora a Ordem dos Pastores Batistas tenha recusado inicialmente a filiação de mulheres pastoras, isso foi revogado em janeiro de 2010. Hoje, são ao menos 195 pastoras consagradas ao ministério pastoral, o que aos poucos vai renovando os quadros dos rígidos masculinos púlpitos batistas.

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Fruto de um desses novos ares que recentemente chocou-se com a estrutura batista, e vem da Igreja Batista de Pinheiro, em Maceió (AL). Uma comunidade diferente até porque é liderada pelo casal de pastores Odja Barros e Welligton Santos. Odja e Welligton têm histórico de acessos ecumênicos assumindo a causa dos mais pobres e luta pela terra junto aos sem-terra. Também, fomos informados que pastor Welligton participa das reuniões do grupo gay de Maceió, que no início causou alguns problemas na própria comunidade. Sobre essa série de ações tão distintas ao padrão conversionista, branco e de classe média típico dos caminhos batistas no Brasil afirma-se que certo universo batista no Nordeste é diferente do Sul e Sudeste. Sim, pois a proximidade do Sul/Suldeste da estrutura pesada da religião acaba sufocando diferentes expressões da fé. Ainda sobre a série de acessos distintos do Nordeste batista vale lembrar a quantidade de membros das comunidades que participaram no passado das Ligas Camponesas (vide o documentário “Cabra Marcado para Morrer” de Eduardo Coutinho) e dos que se encontram acampados nos assentamentos.

Por isso, infelizmente, a Igreja Batista de Pinheiro acaba de ser expulsa da CBB, por permitir o batismo de pessoas de identidade LGBT. O processo que ocasionou tal permissão comunitária construiu-se em dez anos de discussão, oração e estudos na comunidade. O impacto da questão foi tão grande nos sites, mídias, que obrigou as lideranças da CBB a reagir rapidamente. Entre os diálogos que findaram com a expulsão da igreja de Pinheiros no dia 9 de julho de 2016 se deu também por meio de cartas públicas (leia ao final do artigo). O posicionamento da CBB, anterior ao desligamento, assinado pelo atual presidente e secretário executivo, indicam que os batistas do Brasil não são intolerantes, mas que as pessoas ao participarem das comunidades locais deveriam mudar pessoas homossexuais. A carta-declaração da diretoria da CBB apresenta similaridades com o fundamentalismo protestante/intolerante indicando que o “Evangelho é superior à cultura e que está, embora real e concreta existência humana, deve ser compreendida à luz da essência da Bíblia”. Percepção aprofundada quando as lideranças escrevem sobre a “essência da fé”, findando a declaração dizendo que a igreja “feriu frontalmente a integridade da Palavra de Deus, que é nossa única regra de fé e prática”. Assim, gostaria de formalizar algumas perguntas sobre essas frases, tendo em vista a seriedade do posicionamento das lideranças, e claro, por conta da falta de preparo dos mesmos:

• Que evangelho é superior à cultura? – tendo em vista que os canônicos são ao menos quatro, fora as dezenas dos não-canônicos;

• Qual é a essência da Bíblia? – sabendo que temos sessenta e seis livros e cada qual apresenta uma lógica interna;

• Qual é a “integridade da Palavra de Deus”? – quantas Palavras de Deus se encontram entre os milhares de fragmentos bíblicos?

• E, quais são os escopos de regras que ela compõe tendo em vista sua diversidade e milhares de frases e construtos literários;

"Desde a década de 2000, aos poucos, esse projeto vem perdendo força pela assimilação nos quadros dos seminários batistas de intelectuais de tendências ultraconservadora ou de calvinistas. Nesse sentido, a expulsão ou desligamento da Igreja Batista de Pinheiro seria mais um dispositivo da instância que vem se reorganizando em prol dos antigos vínculos com as agências americanas" 

Na leitura do posicionamento prévio da CBB lembrou-me o que Paul Ricouer diz no seu livro “Hemenêutica bíblica”, quando entende que a tentativa de unificação de mensagem tão extensa parece uma bifurcação em prol dos interesses de outrem. Na mesma linha de pensamento, outro francês, Pierre Bordieu, assume que “é característico dos dominantes estarem prontos a fazer reconhecer sua maneira de ser particular como universal”, nesse caso, a CBB, com seus agentes “tornam universal o conjunto de textos selecionados” desconsiderando por completo qualquer estudo mais apropriado dos fragmentos selecionados. Claro, a CBB já se posicionou e desligou a comunidade, contudo, cabe aqui destacar a tristeza de seu reenquadramento recente com os movimentos fundamentalistas/intolerantes que vêm convergindo nas últimas décadas, como se percebe ao pinçar frases da declaração. Também, a tristeza pois se sabe de seu reempalhamento junto à antiga agência colonizadora batista americana a “Junta de Missões Estrangeiras de Richmond” (“Junta de Richmond”) – agora nomeada International Mission Board of the Southern Baptist Mission (IMB-SBM). Ela que foi responsável pela chegada dos missionários batistas no Brasil de histórico intransigente, intolerante e racista, típicos derrotados sulistas americanos. O vínculo com os americanos foi algo tão discutido nos altos da CBB entre as décadas de 1970 e 1980 que ao fim se concluiu que era melhor romper tais laços e consequentemente favorecer o desenvolvimento do pensamento batista brasileiro com liberdade.

Sobre isso, o saudoso Darci Dusileck mostra que desde a década de 2000, aos poucos, esse projeto vem perdendo força pela assimilação nos quadros dos seminários batistas de intelectuais de tendências ultraconservadora ou de calvinistas. Nesse sentido, a expulsão ou desligamento da Igreja Batista de Pinheiro seria mais um dispositivo da instância que vem se reorganizando em prol dos antigos vínculos com as agências americanas. E, claro, se comportando em completa conexão com os padrões intolerantes dos derrotados sulistas. Por outro lado, quero crer que o projeto de assimilação de pessoas da identidade LGBT (mesmo difícil) deve ser labutado nas comunidades religiosas, uma vez que os textos bíblicos também apóiem a escravidão, reinados totalitários e subserviência da mulher ao homem. Penso que ao longo dos anos ocorrerá, como houve entre os batistas, a assimilação ecumênica, e depois as expressões pentecostais pelos batistas; que a agenda LGBT aos poucos seja inevitável. Até porque, já existem uma soma de membros dessas comunidades ligados aos espectros da identidade LGBT. Por isso e, por el@s, quero agradecer aos pastores Odja e Welligton pela ousadia no enfrentamento de todo tipo de ameaças que vêm sofrendo junto à comunidade de Pinheiros. Lembrando-nos da resistência profética, algo primaz ao Cristianismo, bem como do protestantismo-evangélico brasileiro ressaltado pelo teólogo da revolução, Richard Schaull. Assim, termino agradecendo a comunidade ter-se feito como oásis num deserto me(r)diano que é a CBB.

Outras fontes da internet:
http://vigiai.net/artigos/cbb-igreja-batista-do-pinheiro-maceio-al-feriu-frontalmente-a-integralidade-da-palavra-de-deus; http://gazetaweb.globo.com/portal/especial.php?c=5823; http://batistadopinheiro.blogspot.com.br/; https://www.facebook.com/notes/novos-di%C3%A1logos/a-religiocracia-batista/1116174751781909;


 Fabio Py Murta de Almeida é doutorando em Teologia PUC-RJ e bolsista pelo PSDE-Capes no École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS-Paris)

 

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