É crime desejar a morte de alguém?

Walter Takemoto
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É crime desejar a morte de alguém?

Por Walter Takemoto

Hélio Schwartszman, golpista e colunista da Folha, diário oficial tucano, e escreveu na edição do dia 11/01 sobre o episódio em que médicos em um grupo do Whatsapp fazem piadas, xingam e recomendam deixar de realizar procedimentos médicos visando apressar a morte da Dona Marisa quanto se encontrava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.

Escreveu o colunista:

"Odiar uma pessoa e desejar sua morte, embora pouco enaltecedor, especialmente para um profissional da saúde, não está tipificado como crime –e nem deve estar. Antes que petistas mais afoitos me xinguem, lembro que tanto eu como eles celebramos a agonia e a morte do ditador Francisco Franco, para dar um único exemplo. Fazê-lo foi um crime? Parece-me claro que não".

O colunista considera pouco enaltecedor que um médico declare que a equipe deveria apressar a morte da Dona Leticia, talvez considerasse enaltecedor, mas não muito, se fosse o médico de plantão e se recusasse a atendê-la na emergência.

Por outro lado, considero que tem razão quando escreve que não é um crime desejar a morte de alguém.

Em uma mesa de bar, brincando com amigos, em um estádio de futebol, é comum ouvirmos falas ou gritos do tipo "morre de uma vez seu porra", "pega esse cara e mata", "queria ver morrer de uma vez". Essas expressões são comuns, por exemplo, quando um jogador do time adversário encena uma falta ou comete uma falta grave em um jogador do time que torcemos.

E era comum também quando nos referíamos a figuras como Franco. Como cita o colunista, ou Pinochet que autorizou a tortura e assassinato de milhares de jovens. E provavelmente muitos falaram ou falarão sobre a morte de Trump.

E o que diferencia os médicos dos torcedores de futebol ou de amigos bebendo em uma mesa de bar?

Dona Marisa não cometeu nenhuma falta grave contra médico algum, não ordenou a morte de ninguém, muito menos de médicos. Não cometeu crimes contra a humanidade, muito pelo contrário, defendeu a democracia e a liberdade ao lado de outras mulheres durante as lutas dos trabalhadores de todo o Brasil sob a ditadura.

"E foram essas lutas, nas quais esteve presente a Dona Marisa ao lado do Lula e milhares de trabalhadores, que hoje permitem que muitos médicos estudem e se formem, se manifestem até mesmo contra o PT"  
   

E foram essas lutas, nas quais esteve presente a Dona Marisa ao lado do Lula e milhares de trabalhadores, que hoje permitem que muitos médicos estudem e se formem, se manifestem até mesmo contra o Partido dos Trabalhadores (PT), o Lula, a Dilma, e nas ruas e redes sociais possam expressar suas opiniões, mesmo sendo radicalmente antagônicas ao que Dona Marisa defendia.

Se os médicos podem se manifestar e defender o que bem entendem, isso não lhes confere o direito de utilizar o conhecimento técnico-cientifico para propor que o procedimento correto a ser adotado por outros médicos é apressar a morte de uma paciente, para "o capeta abraçar".

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Não só é uma expressão de ódio contra um ser humano, como a explicitação de que esse médico jogou no lixo faz muito tempo o código de ética de sua profissão, e que se move na relação com seus pacientes sob o domínio desse mesmo ódio.

Ao se deparar com um paciente grave vestido com uma camiseta do PT como se comportará? Vai negar atendimento? Desligar os aparelhos para que "seja abraçado pelo capeta"?

É exagero? Lembram-se da médica pediatra que negou atendimento a uma criança por ser filha de uma petista?

Não, não podemos admitir em hipótese alguma que profissionais responsáveis pela vida de pessoas sejam movidas pelo ódio fabricado em nossa sociedade pelos meios de comunicação, pois se considerarmos normal, como se fosse à mesma coisa de uma mesa de bar ou um estádio de futebol, iremos daqui a pouco admitir que além de petistas, médicos possam querer

"E se nos silenciarmos nesse momento, daqui uns dias iremos nos deparar com escolas e professores alegando que diante de leis como 'Escola Sem Partido'recusem crianças e adolescentes filhos de casais do mesmo sexo"  
   

que o capeta abrace mais rápido negros, deficientes, gays e outros "diferenciados".

E se nos silenciarmos nesse momento, daqui uns dias iremos nos deparar com escolas e professores alegando que diante de leis como "Escola Sem Partido" recusem crianças e adolescentes filhos de casais do mesmo sexo, de adeptos do candomblé ou de filiados a partidos que defendem o socialismo.

É exagero? Voltando ao futebol, lembram-se do Afonsinho, o jogador, e por ironia também médico, que proibiram de jogar por ter barba e cabelos compridos? Ou do estudante que foi proibido de frequentar aulas com guias de Orixás no Rio de Janeiro?

É agora e já que todos e todas que defendem a democracia e a liberdade devem se indignar e lutar para derrotar o ódio que se espalha em nossa sociedade. Não se trata de defender um partido ou um governo deposto. Trata-se de derrotar a barbárie que está ao nosso lado, as vezes vestido de branco, outras de toga e muitas vezes igual a nós.


 Walter Takemoto é educador

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