Falconi Consultores de resultados ou a escola-empresa do ACM Neto!

Walter Takemoto
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Falconi Consultores de resultados ou a escola-empresa do ACM Neto!

Por Walter Takemoto

ACM Neto, sem licitação e consulta aos profissionais das escolas de Salvador, contratou a empresa Falconi Consultores de Resultados, que tem um braço chamado de Falconi Educação, para “assessorar as escolas consideradas de desempenho crítico”.
Não é novidade esse “método” utilizado pelo ACM Neto de contratar “empresas educacionais” na calada da noite. Foi assim com o Alfa e Beto, o Instituto Ayrton Senna, o Instituto Chapada e tantos outros, gastando dezenas de milhões de reais de recursos públicos.

A diferença é que agora o faz exatamente quando as professoras e os professores estão nas ruas, mobilizados e denunciando o abandono das escolas, a falta de produtos básicos como merenda, gás de cozinha, material pedagógico, fardamento para os alunos, edificações com problemas estruturais, escolas inauguradas sem condições de funcionamento e o magistério sem reajuste salarial há quase três anos e várias cláusulas do plano de carreira sendo descumpridas, como mudanças de referência ou de níveis.

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O que existe de crítico na rede municipal de ensino de Salvador são os anos de administração municipal que teve como prioridade a busca de resultados em indicadores quantitativos para fins eleitorais, com gastos de quase uma centena de milhões de reais em pacotes educacionais à revelia dos educadores e sem investimentos na valorização e desenvolvimento profissional.

E agora, escancarando uma concepção de educação que contraria qualquer estudo e pesquisa séria sobre os fatores que estão associados à qualidade do ensino e da aprendizagem, ACM Neto contrata essa empresa, Falconi Consultores de Resultados, para atuar junto às escolas municipais. Mas quem são esses que foram contratados pelo ACM Neto?

A Falconi tem em seu nome “Consultoria de Resultados”. Quais resultados?

Os educadores de Campinas, em São Paulo, dizem quais são.

Em carta à população, educadores de Campinas denunciaram que a prefeitura de Campinas em 2013 contratou, da mesma forma que ACM Neto, sem nenhuma consulta aos profissionais do magistério essa empresa para assessorar a secretaria, equipes técnicas e escolas para a “gestão de resultados”.

O início dos trabalhos da Falconi em 2014 foi precedido de intensas pressões por parte da gestão da secretaria sobre as equipes escolares, inclusive tentando impedir a participação dos educadores em um seminário realizado por professores e a Faculdade de Educação da Unicamp, que tinha como objetivo debater essa “parceria”.

Tal como em Salvador, em Campinas a secretaria definiu que 10 escolas receberiam inicialmente a “formação” dos consultores da Falconi. Os conselhos escolares não aceitaram a presença dos mesmos, e para tanto afirmaram que desconheciam completamente a realidade das escolas públicas, a história de construção pela rede do projeto político pedagógico, e apenas repetiam as “técnicas” do PDCA – Plan/Do/Check/Act or Adjust, que empregam nas empresas que assessoram, demonstrando desinteresse absoluto pelo trabalho pedagógico realizado pelas comunidades escolares.

E essa parte do relato dos educadores de Campinas relembra um fato ocorrido no início dos anos 2000 quando o dono do Alfa e Beto em uma reunião com técnicos pedagógicos da Secretaria Estadual de Educação da Bahia jogou na lata de lixo um relatório produzido pelos técnicos da secretaria com críticas ao pacote educacional, dizendo que não lhe interessava o que pedagogos escreviam por não entenderem de educação.

Mas, o grave do relato dos educadores de Campinas, é a denúncia de que após os anos de 2015 e 2016 sem nenhuma informação sobre qualquer trabalho realizado junto às escolas, eis que em 2017 o prefeito, no início de sua segunda gestão, publica o relatório“4 anos Juntos – Campinas – SP”, destacando como resultados da atuação dessa empresa no programa “Juntos Pelo Desenvolvimento Sustentável” a “promoção de uma nova cultura gerencial na Prefeitura de Campinas” e a “introdução de uma cultura de gestão de resultados no sistema municipal de educação, com foco na melhoria dos índices de qualidade do ensino local”.

E os educadores de Campinas denunciam que a ausência de ética da administração municipal e dessa empresa se faz presente com:

 “a tática de tentar forjar consensos onde, na verdade, existem projetos antagônicos de educação e sociedade superou todos os limites da ética quando a Comunitas/Falconi diz ter participação nas seguintes iniciativas:

      •     Elaboração dos “Planos de ação” produzidos pelos coletivos das 45 unidades de ensino fundamental, 159 da educação infantil e 21 dos centros de educação infantil (referem-se aos documentos dos projetos político pedagógicos de longa tradição na Rede).

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      •     Capacitação dos gestores para a elaboração do PP online

      •     Promoção de 126 atividades formativas com a participação de 2.752 profissionais da educação (referindo-se aos cursos de formação continuada aos educadores organizados pelo setorial de formação da SME desde o início dos anos 90).

      •     Alocação de novos profissionais para a educação mediante a realização de concurso público e contratações para as diferentes etapas e modalidades de ensino.

      •     Desenvolvimento de atividades voltadas para a diminuição da distorção idade-ano em 2016, melhora nos índices de aprovação dos alunos e nos resultados do Ideb”.

Que empresa é essa que quer atuar na educação e fere um princípio básico de educadores que é o compromisso com a ética e a autonomia dos educadores?

Simples. Essa é uma empresa que segue a ética do mercado, do compromisso com o lucro rápido e fácil, da produção em larga escala, da padronização dos procedimentos e do controle absoluto sobre os que produzem, que apenas repetem o que lhes é determinado pelos níveis de comando.

Diz a Falconi que o “seu conhecimento”, a venda para o mercado, foi adquirido em experiências bem sucedidas no exterior, em especial no Japão. Esquecem esses senhores que o Japão não é aqui, pois se Caetano cantou que o Haiti é aqui, afirmou também que o Haiti não é aqui. Mas o Japão também não é o Haiti. Mas Caetano completou dizendo:


“E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau”.

Não existe plano de educação fácil e rápido.

Transformar a qualidade da educação pública exige investimentos na valorização e desenvolvimento profissional dos educadores, condições adequadas de ensino e aprendizagem nas escolas, respeito à autonomia pedagógica das equipes escolares, gestão democrática do sistema de ensino que garanta a participação da comunidade em todos os níveis de execução das políticas educacionais, do chão da escola as decisões tomadas pelos gestores. A transformação da qualidade da escola pública tem início na sala de aula, na relação do professor com seus alunos. Ou é essa relação que tem qualidade, ou então não existirá sucesso na aprendizagem dos alunos.

Não será com desprezo aos profissionais e seus conhecimentos que a necessária qualidade da aprendizagem será alcançada, muito menos com métodos gerenciais empresariais.

"Décadas atrás virou moda a introdução do método gerencial empresarial na gestão das escolas e um banco multinacional produziu e financiou um programa de formação de diretores de escolas em gestão, rapidamente adotado por várias secretarias. Quem sabe dos resultados? Nunca mais se ouviu falar desse programa ou de qualquer resultado qualitativo que tenha produzido"

Décadas atrás virou moda a introdução do método gerencial empresarial na gestão das escolas e um banco multinacional produziu e financiou um programa de formação de diretores de escolas em gestão, rapidamente adotado por várias secretarias. Quem sabe dos resultados? Nunca mais se ouviu falar desse programa ou de qualquer resultado qualitativo que tenha produzido.

E dois fatores estão associados ao crescimento da presença de empresas como a Falconi, de produtoras de pacotes educacionais, fabricantes de sistemas gerenciais, grupos financeiros educacionais, entre outras, na educação.

De um lado, o destaque dado pelos meios de comunicação aos indicadores de qualidade produzidos pelas avaliações externas do MEC/Inep, que transformaram o Ideb em um ranking que muitos gestores passaram a utilizar como objetivo estratégico a ser alcançado a curto prazo, tendo em vista o calendário eleitoral.

De outro, os recursos destinados à educação em 2013 que, segundo o MEC e a OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico –, atingiram 6,6% do PIB – Produto Interno Bruto –, ou quase R$ 360 bilhões.

E aí está pronto o banquete: secretários com pouco ou nenhum compromisso com a qualidade do ensino e da aprendizagem com recursos financeiros disponíveis em busca de resultados imediatos, e empresários em busca de lucros vultosos e sem riscos para seus negócios.

Da mesma forma que o Alfa e Beto surgiu no início dos anos 2000 da relação obscura entre o já falecido Antonio Carlos Magalhães, figura de triste recordação na história do País, e o proprietário desse pacote educacional, grande parte das empresas que transformaram a educação pública em fonte de extração de lucros crescem a partir de relações políticas e não da qualidade do que oferecem para a educação.

Basta analisarmos o site da Falconi Consultores de Resultados, nele não encontraremos absolutamente nada sobre sua concepção de educação, de ensino e aprendizagem, dos desafios postos para o trabalho em sala de aula dos profissionais do magistério ou sobre metodologia de formação e o seu desenvolvimento no cotidiano das escolas para a construção do trabalho coletivo.

Como os educadores de Campinas, os de Salvador, e o magistério de todo o País, encontram-se diante do desafio de lutar contra a mercantilização da escola pública, principalmente nesses tempos de exceção que atravessamos. O teto dos gastos públicos e a terceirização das atividades fins, inclusive do serviço público, é porta aberta para os grandes grupos econômicos que já começam a adquirir escolas de educação básica em todo o País, e Goiás é uma demonstração do que pode vir a se tornar receituário para as secretarias de Educação com gestores comprometidos com as “reformas” em curso no Brasil, assim como já ocorre na saúde pública com a presença cada vez maior de empresas no controle de instituições pública.

As professoras e os professores de Salvador que foram capazes de impedir a imposição do Alfa e Beto nas escolas públicas da cidade estão novamente diante do desafio de impedir esse novo atentado contra a categoria e seus alunos. E diante de tudo que demonstraram nos últimos anos, com certeza mais uma vez demonstrarão que tiranos como ACM Neto não combinam com soteropolitanos corações.


 Walter Takemoto é educador

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