Sepultamento da sensibilidade humana no cemitério da esperança

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Sepultamento da sensibilidade humana no cemitério da esperança

Por Renan Araújo Kell

O presente ensaio deslindará superficialmente os densos aspectos ontológicos do ser social, diferentemente de uma catalogação mecânica ou de um depósito de dados matematizados. O ensaio buscará as transdisciplinaridades sem limitar-se a cronologização histórica e sociológica. Sobre a apreensão das múltiplas determinações do real e sua homogeneização, optamos pelas várias áreas do conhecimento e suas similitudes. A substancialidade de determinados processos históricos é palco para uma maior apreensão crítica de seus acontecimentos, mesmo que de uma forma simples mas nem por isso menos importante ao ponto de não ser dito.

A famosa maçã proibida transmutou e sublevou-se sobre os aspectos ontológicos da “ultrapassada” mitologia da Antiguidade. As respostas da vida cotidiana e prática já não se sustentava sobre a base dos múltiplos deuses, o Estige já não amedrontava tanto os seus crentes, o Olimpo definhava-se ao mesmo tempo que o Império Romano, e Constantino protegido por Hércules contraditoriamente instaura a religião cristã ao mundo. O furto do fogo de Zeus por Prometeu já não livraria os homens da ignorância e de sua condição material, ao qual o mito estava cristalizando-se em Cristianismo, e a maldição recaindo sobre o próprio homem, a ter seu fígado estilhaçado todo santo dia pelo abutre antropofágico de seu próprio presente com o passado, onde o deus único todo poderoso jantaria seus filhos cozidos no fogo do inferno se estes não obedecerem suas leis divinas.

Quem mais seria o abutre carniceiro cotidiano da modernidade que não o próprio trabalho para o trabalhador?! A benevolência e a fúria do fálico pai transpassa gerações, ora como Zeus, ora como deus. As leis divinas procuram suprimir o antigo e arrastar a humanidade a novas leis, e também a nova produção e reprodução da vida material. A apreensão da realidade se modifica, a linguagem se metamorfoseia para dar conta a uma nova base ideológica, e assim como na Antiguidade, os agentes e gerenciados da mudança são arrastados até a decadência do próprio sistema que criaram, a Idade Média está em ruínas pelos avanços tecnológicos, a terra já não prende mais os homens, e “deus” passa aceitar o lucro.

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As cidades se abarrotam, as fábricas vomitam fumaça e engole seres humanos, o capitalista como bílis faz o processo digestivo da alma dos trabalhadores, está aberta uma nova era, e “a modernidade não espera”. Godard deu Adeus à linguagem sem nos deixar pistas se iria voltar, Brecht em seu Intertexto nos provou que a individualidade humana recria o Saturno devorando um filho que Goya pincelou, Balzac descreveu que A Condição Humana está fadada ao decadentismo desenfreado, são tempos sombrios e não sobrará mais palavras nos dicionários das cidades modelos como Alphaville, pois a batuta está nas mãos de dr. Von Braun, quanto a orquestra, desta lhes foi roubada o prazer de tocar, pois a todos passaram pelo O exame, de Kafka, e infelizmente foram aprovados. A máquina criou língua, e fala sem ser perguntada, se impõe diante da própria realidade, a interatividade arrancou os traços que permite a distinção do homem para com a máquina.

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A força dos pistões venceu os braços raquíticos do trabalhador industrial, a velocidade e a multiplicidade de tarefas executadas pela máquina expulsando uma enorme massa de seus postos de trabalho, os jogando a margem da margem e dando a seus filhos os corretivos da 9mm do capataz da modernidade, que faria com que E. Munch se tornasse inexpressível e insignificante. O deus Chronos ronda a linha de produção e segue seus funcionários até o caixão, grita como um patrão mal humorado para acelerar, time is money baby, agiliza desgraçados se quiser tempo para morrer. As gôndolas do supermercado como Medusa petrificam seus espectadores, e a serpente do desejo rasteja além das reais necessidades humanas. Ondina ficaria atemorizada com a carga horária de trabalho ativo na modernidade.

As moiras sentiriam inveja das primeiras máquinas de fiar a vapor e como elas determinavam e determinam o ritmo e o tempo de vida dos trabalhadores. A cientificidade, assim como Zeus e deus, toma características tão santificadas que a verdade universal tem necessariamente de ser aprovada pelas canetadas ou a palavra do cientista. Quem seria o louco que iria contra a verdade científica?! A ciência como imposição é uma constância, avançou tanto que com um botão o planeta Terra vai pelos ares mais de dez vezes, que “avanço”, o homem vai à Lua porém não chega a um passo sequer de sua própria emancipação. Tabelas, planilhas, gráficos, equações, estatísticas, números infinitos não regem a verdade, a mediocridade humana não ultrapassa as páginas dos livros de autoa juda, reality shows, cinema hollywoodiano e fast food, da adrenalina dos parques de diversão, shoppings com requinte de serial killer salarial, marteladas musicais amaciando a carne cefálica, sites de relacionamento para matar o tempo, cachaça pra dar “vida” às desgraças e as telenovelas para todos se “apaixonarem”, e a missa aos domingos para a ressaca moral se renovar.

A política se tornou o asco social, a crítica um descaso, a oportunidade de dizer adeus a tudo o que nos faz humanos nos é imposta a cada milésimo de segundo com as batidas pulsantes das brocas que perfuram pneumaticamente o âmago da modernidade. A capital da dor já não grita, não sente e não diz coisa com coisa, a esquizofrenia generalizada da matematização desenfreada dos lucros ultrapassam as planilhas dos bem-aventurados ao olhar do pai. Os pixotes vagueiam pelas marquises, o Baixio das bestas cada vez mais populoso até que o amor desapareça, o panopitismo policial cercando os artistas e poetas marginais, a museificação da pobreza abre as vias para o elogio à riqueza.

"A matematização contabilizou e aniquilou a constituição da essencialidade humana, o poder de sentir e se expressar e diferenciar-se das roldanas e engrenagens, dos megabytes intermináveis que a fibra óptica com lubrificante de felicidade reificada, introjetam na psique humana a incapacidade de pensar criticamente e de imaginar"  
   

A matematização contabilizou e aniquilou a constituição da essencialidade humana, o poder de sentir e se expressar e diferenciar-se das roldanas e engrenagens, dos megabytes intermináveis que a fibra óptica com lubrificante de felicidade reificada, introjetam na psique humana a incapacidade de pensar criticamente e de imaginar. As relações humanas, sejam elas observadas do macro seja do ponto de vista do micro se dão incessantemente pela calculabilidade das emoções, a racionalização do todo e das partes, o sentimento dos números, o sofrimento do risco, o enaltecimento do eu, o controle desenfreado da “liberdade”, o futuro aferido na ponta do lápis, o presente medido pelo pertencimento do ter, o orçamento do medo, o ponderamento de amar, a rigorosa forma de desconfiar. Os pesos e medidas, os números classificatórios do mundo, o mundo ao alcance do cifrão, o descontentamento e o sofrimento de não ser bem sucedido financeiramente, a perda da identidade por não elevar-se à glória do pódio capital, pois o maior pecado é ser pobre. A pobreza humana sensível e inteligível alcançou a desenfreada racionalização ao ponto da perda de sentido existencial ser mera causalidade de um sistema “racional”.

As fissuras do chão iluminista deixou a todos os transeuntes sem ter por onde caminhar, e a calçada da barbárie foi se constituindo por cravadas de pedras místicas da barbárie racionalizada, a todos que chegavam, um letreiro pintado com um vermelho cor de sangue feito a base química de pele, cabelos e ossos de judeus, homossexuais, ciganos, comunistas e paraplégicos. Os arquitetos do letreiro e os pintores “arianos” obedeciam ordens, das ordens dadas por ordens ordenadas, ao qual, sem questionar fez brotar Auschwitz para todo e qualquer lugar. Os financeadores foram BMW, Fiat, IG Farben (Bayer), Volkswagen, Siemens, IBM, Chase Bank, Allianz. Até deus entrou nessa dança, pois quem seria o louco de questionar as palavras do pai? Todos caminham como no final de O sétimo selo de Bergman e poucos compreendem onde irão chegar, a peste negra moderna vestida de SS assombra com sua capa mística de poder, a questão grupal e o líder voando em seu próprio id é a satisfação para a aniquilação, “admirável mundo novo”, milhares de mortos nos campos de extermínio e concentração. A fantástica fábrica de cadáver estava a todo o vapor, engenheiros, mecânicos, cientistas e todos os funcionários do terror delineados de modernidade fazem com que o inferno seja nós mesmos. O RH da fábrica da razão instrumental demitia para as valas de cal os corpos que já não se sustentavam por si só, os chefes do almoxarifado estocavam pesticidas em larga escala para vaporizar nos chuveiros que banhavam desgraças, os servidores da limpeza raspavam cabeças e esterilizavam a humanidade, a contabilidade pesava a pele desossada dos seres humanos “impuros” e contabilizava os lucros de cada polegada arrecadada. Os quadros do terror e a sinfonia do medo assolava os espectadores barbarizados, a raça humana e seu complexo de deus criou a sua imagem e semelhança o inferno real com requinte de sadismo.

A valoração humana e seus milênios de filosofia e de arte não foi suficiente para conter ou prever a barbárie racional generalizada, a razão iluminista definhou ao passo que o mítico ser “ariano” ganhou força pela força em barrar qualquer possibilidade de emancipação universal. A repetição incansável e a instrumentalização do âmago com o propósito da hegemonia global arrastou para a lixeira qualquer possibilidade crítica do ser social, não sem resistências. O limite da compreensão humana baseia-se e se concatena a forma de produção, reprodução e organização social. A produção do terror possui a máquina do medo e os operários sufocados por suas necessidades vitais são ludibriados a acreditar que o mundo pode ser melhor, mesmo que dirigido por um psicopata.

Os resquícios do saber universal contemplam uma multiplicidade de atrocidades humanas, a luta incessante pela igualdade e a busca da verdade perpassa a apreensão do real. A linguagem que traduz o mundo foi imposta assim como o trabalho forçado nos campos de concentração. Os aspectos ontológicos e o seu processo de amadurecimento faz da linguagem o instrumento de conservação e transformação da concreticidade material, ora permitindo uma representatividade mais fiel da realidade, ora se distanciando ao ponto de não dar conta de representar as múltiplas modificações que ocorrem na heterogeneidade social. A centralidade da crítica parte das fundamentações da práxis social, e o agente desta crítica só encontrará formulações mais tangíveis se estiver em movimento em relação ao seu objeto, o que G. Lukács definiria de intentio recta e intentio obliqua, ao qual, parte dos pressupostos de que não possui uma neutralidade, um espelho de água idêntico ao que Narciso em seu onanismo vivia. O observador é parte atuante do objeto, e este se traduz e se modifica no participante ao qual demonstra através de suas próprias ações, e quanto mais perto da concreticidade material, mais próximo as ideias estarão dos fatos. A homogeneização das heterogeneidades sociais são aplicabilidades desempenhada pelo todo social, pelas múltiplas relações do todo. Porém não podemos nos esquecer que existe de fato a luta incessante pela representatividade do todo, seja um grupo, seja um partido, seja uma nação. Querem os pós-modernos um enaltecimento ao kantismo e suas gnosiologias afirmar brandamente que não existe luta de classes ou ideologia, sendo que este movimento da concreticidade sempre existiu, ora chamado pelo status quo de anomalia social, ora colocado abertamente com as revoluções sociais.

A história e suas temporalidades constitui o artifício científico mais próximo da verdade, pois caberia os números demonstrar a beleza das pinturas impressionistas? Ou as sinfonias de Tchaikovsky ou Beethoven, ou até mesmo o encanto das metanarrativas da mitologia grega? A arte não passa de mais uma das representatividades do real, assim como o teatro, e o cinema. As maravilhosas mentiras de Goethe para representar a verdade, a possibilidade de não exaurir o espírito humano classificado apenas pela representação de números abstratos. Os zeros e um binários da programação não pode representar a sensibilidade humana como uma pintura de Emygdio de Barros incentivado pela dr. Nise da Silveira. Se a esperança foi à única que restou na caixa de Pandora façamos dela um artefato de sobrevivência, ora buscando as contradições internas do próprio movimento social, ora nos valendo de suspiros de esperança, ao qual a raça humana não sobreviveria um minuto a mais sem respirar mudanças.


 

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