Aquarius: um olhar sobre a narrativa da classe média branca

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Aquarius: um olhar sobre a narrativa da classe média branca

Por Jéssica Ipólito

Fui assistir o filme Aquarius numa expectativa inocente, influenciada pelas críticas pipocadas no Facebook e em sites de cinema e cultura. Não, eu não li todas, mas o frisson nas redes sociais me fez acreditar que seria um filme interessante de pagar pra ver. Fui lá, paguei, me sentei pra assistir. Antes de continuar meu raciocínio preciso me localizar: eu sou sapatão, preta, gorda, estudante e desempregada. Esses marcadores sociais são importantes ao destaque porque me encontro no não-lugar das representações políticas e midiáticas. Localizar as falas é um modo de explicitar a necessidade do reconhecimento dos sujeitos na sociedade brasileira, algo que raramente é feito a não ser para aquelas pessoas já marcadas socialmente (ou seja, euzinha mesma); sujeitos brancos, masculinos, heterossexuais se compreendem como universais pois não se localizam a partir dos marcadores sociais e vão perpetuando essa ideia torpe de que não partem de lugar algum, ou melhor, o ponto de partida é "isento".

Ledo engano, meus caros. Não existe neutralidade em nenhuma ação, isso é uma falácia pra vender publicidade e jornalismo que corrobora pra ideologia dominante, coisa de quem não quer reconhecer a realidade perversa que existe. Pois bem, voltemos ao filme: tive vontade de sair da sala de cinema pelo menos em 3 momentos! Mas eu realmente tive o impulso de levantar na cena em que tratava das empregadas domésticas da "família". Fui segurada pela minha amiga que estava ao lado e que me fez ver o filme até o final. Fiquei lá, contrariada, mas fiquei. Assisti tudo na promessa de que se tivesse a parte 4 eu não aguentaria e sairia mesmo! Esse foi o acordo.

"Se a intenção era chamar atenção para a forma com que a classe média trata as pessoas trabalhadoras domésticas, o filme não cumpriu o papel de comunicar e problematizar a questão. Não teve a proposta de desvendar essas relações, apenas de apresentá-las ao público que, em sua maioria, adorou e aplaudiu nas salas de cinema"

O ápice do meu incômodo foi quando soltaram a frase "Elas roubam e a gente explora. Justo", sobre a lembrança de uma empregada doméstica antiga que havia roubado a família. Engraçado que mostraram essa cena de "roubo" mas não mostraram a relação de exploração perversa da classe média para com suas trabalhadoras domésticas. O "justo" acabou sendo aquela relação de que "são quase da família". E se a intenção era chamar atenção para a forma com que a classe média trata as pessoas trabalhadoras domésticas, o filme não cumpriu o papel de comunicar e problematizar a questão. Não teve a proposta de desvendar essas relações, apenas de apresentá-las ao público que, em sua maioria, adorou e aplaudiu nas salas de cinema. Não teve um viés questionador como eu imaginava, dada a repercussão do filme. Para uma amiga, o filme foi mea culpa. Para mim, foi perfumaria.

Percebam o quanto a mídia é responsável por manter e alimentar o imaginário social racista, fazendo com que no cotidiano as relações sociais também se mantenham, ou seja, vocês se assustarem quando uma mulher preta chefia grandes projetos e empresas, o "espanto" é o racismo. Estranhar a presença de pessoas negras em cargos de responsabilidade ou em evidência cultural, é fruto do racismo que segue sendo reproduzido nas telonas, até mesmo quando este se propõe a algo mais "denunciante", mas que o fez sob a égide racial que estrutura as relações sociais brasileiras.

Não foi utilizado nenhum questionamento para além do que sabemos a respeito das práticas racistas e elitista daqueles que se julgam burguesia para não pertencer à classe trabalhadora como demérito do ser. A especulação imobiliária que contém no filme é algo florido e amenizado no sentido de que a busca por uma solução aparece como individual, de revanche na mesma moeda, de ameaça mas de manutenção dos acordos porque "fulano é da família". As hierarquias mantidas e gravadas serviram para reforçar ideologicamente o lugar que é imposto para as pessoas pretas nesta sociedade. A notar tanto aplauso e elogio sendo distribuídos por aí, isentos de uma reflexão sócio-racial, me fizeram compreender que esse filme serviu para a classe média se identificar com a história e não compreender a colonialidade violenta contida nas relações de poder ali filmadas. Então não acredito que tenha servido amplamente para quebrar questionar esses lugares hegemônicos, de práticas racistas e elitistas, pelo contrário, foi um mea culpa bem chulo que enfatizou o lugar da mulher preta, da trabalhadora doméstica, do porteiro ao salva-vidas, todo mundo tem que estar à serviço de uma pessoa cujo status social é a fonte que desenha as relações.

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Por isso que a construtora tratou a protagonista com educação, batendo na porta, enviando propostas e aguardando o tempo dela mesmo que se movimentando para causar dor de cabeça. Não seria interessante mostrar a atuação dessas construtoras para com as pessoas que não possuem 5 imóveis (a protagonista), nenhuma amiga best friend advogada para defender, e que mesmo assim seguem resistindo para manter seu espaço, sua terra, seu patrimônio tal qual Clara o fez?! E a defesa da personagem nada mais foi do que uma reação extremamente individualista pagando com cupim no escritório chique, que fizeram nos andares do prédio. Não seria interessante mostrar a estratégica violenta com que se dá em bairros periféricos? Onde o cupim passa longe de ser usado como arma para tirar pessoas da onde querem construir edificações monstruosas. Uma personagem que tem condições de resistir à especulação imobiliária deitada na rede, vendo o neto correr pelado pela casa enquanto pensa em sabe-se lá o quê, é tedioso! Não prendeu minha atenção, tampouco me deixou aflita com o que viria acontecer a seguir. Tudo muito por cima, muito docilizado, apaziguado, intocado para ser bem assimilado ao público.

Um desabafo sincero: Eu estou cansada de assistir nas telonas a vida de pessoas brancas! Estou cansada dos problemas da classe média e como seus subterfúgios são os mais diversos! Estou cansada de pagar para assistir casamento hétero, relações heterossexuais, dilemas heterossexuais e brancos. Isso já é feito constantemente tanto pelo cinema europeu e norte-americano, quanto o brasileiro, que diga-se de passagem é muito bom, mas que segue cumprindo à risca uma cartilha colonial de pensar histórias a serem idealizadas em filmes.

Com tanta gente fora dessa minoria de classe, partindo de pontos diferentes, com vivências extremamente aguerridas e questionadoras da norma, porque escolher retratar o que já está posto sob uma nova roupagem?! Qual a contribuição social desse tipo de filme? Cinema é comunicação. Cinema tem um poder descomunal de produzir e re-produzir, desconstruir e re-construir imaginários sociais que servirão para mudança social sim. Cinema não é isento de ideologia, tanto quanto escola não o é.

"Se não for pensado para além do que está posto, ou melhor, se não for feita uma autocrítica e um reconhecimento do que é ser branco e dos privilégios que advém de o ser, não haverá cinema que realmente colabore para vida real"

É preciso que profissionais do cinema, do audiovisual se comprometam mais com construção de seus trabalhos, para que o produto final sirva para alguma coisa e não tão somente endossar o que já está posto. Isso daí já vem sendo feito pelo cinema mainstream. É preciso rever a ótica que coloca as pessoas negras somente em papéis historicamente construídos para fazer crítica a uma sociedade, ou seja, buscar formas irreverentes de criticar a branquitude, o status quo, o elitismo desse espaço em que cada profissional vive, já que quer partir do próprio espaço para criticá-lo. Se não for pensado para além do que está posto, ou melhor, se não for feita uma autocrítica e um reconhecimento do que é ser branco e dos privilégios que advém de o ser, não haverá cinema que realmente colabore para vida real.    

Fazer um filme que não demarca exatamente qual sua posição política a despeito de questões sociais deixa margem para interpretação dúbia do que foi mostrado no filme; uma falha na comunicação da lógica que se quer se explica para o público. Acabou sendo mais uma dica de como manter a ordem social racista e isso é mais do mesmo, nenhuma novidade sob o sol. Se vocês cineastas, se proporem a enxergar ao redor, poderão se aproximar de um outro modo de fazer cinema nacional. Indico navegar pelos perfis desta plataforma que reune profissionais, mulheres negras, atuantes no audio-visual: http://mulheresnegrasavbr.com/


 Jéssica Ipólito é afro-latina, feminista negra, graduanda em Gênero e Diversidade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e idealizadora do blog Gorda&Sapatão que versa sobre negritude, lesbianidade, feminismo e gordofobia. 

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