A questão da Catalunha

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A questão da Catalunha

Por Jordi Garcia Farrero

Todos os anos eu e a minha família passamos as férias no Brasil. A razão principal é obvia: a minha esposa é brasileira e já faz tempo que eu entendi o significado da palavra "saudades". Por isso os meus filhos estão crescendo com duas identidades culturais bem diferentes: a catalã e, claro, a brasileira. É lindo ver como o meu filho mais velho mistura, às vezes, o catalão com o português e o espanhol que seriam as línguas mais quotidianas para ele. Sem dúvida, é maravilhoso que eles tenham a possibilidade de ter os pés nos dois lados do Atlântico de forma tão natural e que possam absorver tantas coisas legais e diferentes das duas culturas.

Além de outros temas como poderia ser a saída do Neymar para o PSG, tanto os amigos da minha esposa como a minha querida família brasileira sempre perguntam sobre a situação política entre Catalunha e Espanha. É um assunto muito complexo com fundamentos históricos. Ainda lembro, por exemplo, quando o meu avô me falava, com muita emoção, sobre o dia em que foi proclamada a II República (1931-1939) e, além das possibilidades que o novo regime político oferecia para a população (chegava, por fim, a modernização, justiça e igualdade), o catalão deixava de ser proibido depois de mais de dois séculos (1714). No entanto, depois o ditador Franco fez a mesma coisa com a identidade cultural própria de Catalunha (1939-1975) ou ainda pior porque, para ele, os separatistas, comunistas e maçons eram os principais inimigos do movimento fascista que provocou um golpe de estado e uma guerra civil (1936-1939). Durante os anos franquistas, também fuzilaram o último presidente republicano de Catalunha (1940).

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O Império na era dos escombros

Com a chegada da democracia, é verdade que a cultura catalã saiu, pouco a pouco, da clandestinidade até chegar a uma "normalidade". Foi permitido cantar, escrever e dar aula em catalão na escola e na universidade. Mesmo assim, o Estado espanhol sempre mostrou muitas dificuldades de aceitar o seu carácter plurinacional e plurilíngue. Só um exemplo: até hoje não é permitido falar em catalão, galego ou basco na câmara dos deputados espanhol. Desta maneira, os anos foram passando sem resolver o status político da Catalunha dentro do Estado espanhol (região ou nação). Até que o colapso político, econômico e cultural foi tão grande que começou uma nova era política (2010), que chegou à conclusão que Catalunha precisava de mais soberania para poder solucionar os seus problemas econômicos e sociais. Espanha deixou de ser um bom marco de atuação e os exemplos de pequenos países (Dinamarca, Finlândia) se convertem em um modelo a seguir para o futuro. A questão de quem tem a soberania passou a ser muito importante.

A raiz de isso, o movimento a favor da independência, apareceu com muito mais força do que antes. Aproveitando que, uma das características principais é sua transversalidade (movimento que contém neoliberais, liberais, democratas cristãos, social-democratas, comunistas e anarco-sindicalistas), de um tempo para cá que se está organizando, cada 11 de setembro, umas manifestações que sempre acabam nas capas dos jornais mais importantes do mundo pela sua estética e originalidade. Já se esperava que o Estado espanhol estaria contra a independência de Catalunha, mas o problema é que também não aceita a celebração de um referendum programado para o dia 1 de outubro deste ano para solucionar esta questão, tal como já aconteceu em países como Canadá e Inglaterra e mesmo sabendo que, segundo todas as pesquisas, 80% dos catalães querem poder votar para solucionar o status político da Catalunha no futuro. O resultado, por acaso, está muito ajustado.

"Então, quais são as respostas políticas que dão o governo e os partidos mais importantes de Espanha a esta questão? Ou como intentam convencer os catalães a favor da independência que é melhor não sair da Espanha? Por enquanto, não existe nenhuma proposta clara"

Então, quais são as respostas políticas que dão o governo e os partidos mais importantes de Espanha a esta questão? Ou como intentam convencer os catalães a favor da independência que é melhor não sair da Espanha? Por enquanto, não existe nenhuma proposta clara. Só desprezam o movimento, criminalizam o referendum e utilizam todos os aparelhos do Estado para acabar, de forma legal e ilegal, com os líderes políticos, funcionários públicos e movimentos sociais. Portanto: parece que o sonho de uma Catalunha em forma de Estado fez acordar, de novo, a “monstro franquista” que nunca morreu e, ainda mais, quando a unidade do Estado espanhol começa a estar em perigo. Pode ser que um Estado sempre tenha mais força do que uma nação, mas isso não significa que tenha mais razão.

Com estas circunstâncias, é evidente que na Catalunha, como acontece em outros lugares do mundo, é muito importante defender a democracia e todas as reivindicações que são cívicas e legítimas. É fundamental para defender a saúde democrática dum país. No caso particular catalão, penso que a independência de Catalunha pode criar, apesar de todos os problemas iniciais, uma oportunidade para construir um país mais democrático (passaríamos de uma monarquia a uma república) e daria à língua e à cultura catalã a possibilidade de ser mais uma expressão de forma natural e sem tutelas externas neste mundo global. Ou seja: da mesma forma que o meu filho mais velho olha o mundo e a todas as línguas próprias dele sem nenhum tipo de hierarquias nem preconceito.


♦ Jordi Garcia Farrero é catalão, professor da Universidade de Barcelona especialista em história da educação

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