Você tem medo do fascismo? Se não tem, deveria

Artigos e Debates
Typography

Você tem medo do fascismo? Se não tem, deveria

Por Ana Vitória Sampaio

Denúncias de corrupção invadem as páginas dos jornais, portais de notícias e redes sociais, ao lado da criminalidade urbana que cerceia nossa liberdade de ir e vir nas ruas de cidades cada vez mais violentas. O Atlas da Violência lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) neste ano analisou os dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) no período de uma década. Segundo a pesquisa, apenas em 2015 o país registrou 59.080 homicídios no país, sendo que a maior parte das vítimas são homens jovens e negros. Os dados refletem os efeitos do racismo estrutural e institucional existente e persistente em nossa sociedade. A extrema desigualdade social, a falta de oportunidades, a crise institucional-econômica e o desemprego alertam para uma realidade cada vez mais indigesta.

Se, por um lado, a violência aumentou na última década, as respostas a essa situação se tornam cada vez mais radicais e autoritárias. O fato de Jair Bolsonaro ser apontado como um dos presidenciáveis em ascensão não pode ser visto como um elemento isolado. Políticos desse tipo conquistam adeptos com discurso policialesco aliado a soluções fáceis e extremas, como a defesa da pena de morte, da redução da maioridade penal e da castração química para criminosos sexuais. Propõem-se combater a violência com mais violência, travestida de “ordem” necessária a uma nação caótica. Ao mesmo tempo, notícias de tortura e linchamento, como a que vitimou o adolescente de 17 anos suspeito de roubar uma bicicleta, levam multidões ao êxtase. Se há alguns anos atrás não era incomum perceber indivíduos a favor da pena de morte para estupradores ou assassinos em série, hoje em dia uma “bala na cabeça” é desejada para qualquer tipo de delito, mesmo o roubo de uma bicicleta quebrada. Ao ser vendida como notícia, a violência se retroalimenta e se expande. A sua naturalização ocorre com a difusão de imagens que, de tão comuns, não chocam mais o receptor. E diante de um Estado ineficiente – seja pela sua ausência, seja pelos seus excessos contra os direitos humanos –, características básicas do fascismo encontram um amplo espaço para se desenvolverem.

Leia mais:

Temer usa BNDES para "comprar apoio político" diz economista

Índios, direitos humanos e democracia no Brasil

“A USP é o bastião da elite paulistana”, afirma militante sobre ausência de cotas na universidade

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Durante o século XX, o filósofo Theodor W. Adorno se dedicou à investigação do autoritarismo que, dentre outras coisas, serviu para os regimes fascistas europeus firmarem suas bases. Apoiando-se na psicologia, na sociologia e na história, o autor utilizou a teoria global da personalidade para compreender a personalidade autoritária. Essa teoria consiste, basicamente, em “uma organização de forças mais ou menos duradouras dentro do indivíduo. As forças da personalidade ajudam a determinar a resposta a várias situações e portanto é sobretudo a elas que devemos atribuir a consistência – seja verbal ou física – do referido comportamento”. A formação da personalidade repousa no meio social do indivíduo, nos valores que apreende e também na história, na memória e nos estímulos que recebe da sociedade. Entretanto, isso só não basta para explicar de forma objetiva como a personalidade autoritária se forma, já que não é incomum pessoas que cresceram no mesmo lugar, dentro da mesma classe social ou até na mesma família, possuírem personalidades tão distintas.

Adorno sugere que para compreender o fenômeno da personalidade autoritária é necessário ter em mente as necessidades do indivíduo. São essas necessidades que formam as forças de sua personalidade. Mas essas forças não são nada óbvias: não basta uma pessoa ter motivos pessoais para odiar homossexuais, por exemplo. Muitas vezes esse ódio surge da vontade de ser aceito socialmente e responder às sensibilidades do grupo. Mesmo que determinado indivíduo nunca tenha se sentido pessoalmente ofendido com o afeto entre dois homens ou duas mulheres, esse ódio é autointrojetado e produzido para que ele se encaixe em determinado grupo – família, colegas da escola, colegas da igreja – e dessa forma supra suas carências afetivas. O mesmo raciocínio serve para todas as tendências ideológicas, mais especificamente as da direita e da extrema direita que têm conquistado popularidade nos últimos tempos.

Há, também, a questão da identidade em um mundo em que culturas tradicionais perdem espaço para outros valores e formas de vida. Como lembrou Kathryn Woodward, a identidade passa a ser um problema quando algo que era considerado estável e seguro já não é mais. O diferente e suas formas de manifestação, anteriormente ofuscadas e coibidas, ganham uma face ameaçadora para sujeitos que temem perder seus referenciais identitários, sendo estes religiosos, familiares, regionais ou sexuais. Temos, então, a defesa da integridade da personalidade contra um inimigo externo: alguém “estranho”, pertencente a uma outra raça, religião, etnia, identidade de gênero, orientação sexual ou país.

Os grandes conglomerados da comunicação brasileira têm aproveitado bem o potencial ódio da população, oferecendo alvos fáceis como os causadores dos problemas da vida cotidiana. O ódio aos últimos governos petistas é outro bom exemplo de como a intolerância pode ser produzida, utilizada e manipulada em favor dos interesses de meia dúzia de milionários. Cria-se um inimigo comum, utiliza-se estereótipos para caracterizar este inimigo e, em seguida, o desumaniza. Dinâmica semelhante foi adotada pela máquina da propaganda nazista contra judeus e comunistas. Se uma boa parte da população responde de forma excessivamente violenta àquilo que lhe é apresentado como sujo, pecaminoso, criminoso e indesejável, não é porque o gene do fascismo corre em suas veias; é porque existe toda uma estrutura social que chancela, potencializa e produz esse comportamento violento. O fascismo não é nada sem uma nação em crise – econômica, política, trabalhista, moral – para ecoar seus absurdos.

Como em outros momentos da história, o fim da corrupção surge como bandeira para unir a população em torno de uma causa comum. Nos últimos anos temos visto apelos patrióticos contra “tudo o que está aí”, como testemunhamos em 2013 uma multidão tomar as ruas sem propostas claras, restando um vazio de liderança e, principalmente, de agenda. Esse vazio foi preenchido por discursos autoritários que defendem uma personalidade específica – Sérgio Moro, Jair Bolsonaro, ou outros potenciais “salvadores da pátria” – ou uma intervenção militar em uma democracia ainda tão jovem. As últimas denúncias envolvendo o presidente Michel Temer e Aécio Neves, candidato do PSDB ao último pleito, ao invés de apontarem para o caráter sistêmico da corrupção de nosso sistema político, potencializou o ódio que já era excessivo antes de Dilma Rousseff cair. Com o fim da confiança nas instituições e na representação política, temos uma sociedade cujo desespero a torna sensível às bandeiras mais cruéis à sua própria integridade. Quem são os maiores interessados nessa distopia?

Você se preocupa com a corrupção? Pois eu me preocupo com o fascismo que – infelizmente – estamos aprendendo a conviver.

Ana Vitória Sampaio é Mestre em História pela Universidade de Brasília

Artigos Relacionados

Fascista, o vento será tua herança Fascista, o vento será tua herança
FASCISMO "O golpe, o clima de intolerância criado para legitimá-lo, fez emergir o obscurantismo e...
O discurso fascista e a negação da política O discurso fascista e a negação da política
ENTREVISTA “Quando se nega o instrumento da política — a política no grande sentido do termo...
Valores fascistas na classe média Valores fascistas na classe média
FASCISMO Não é um fenômeno isolado, mas parece evidente que a polariza&...

Leia mais

Correio Caros Amigos

 
powered by moosend
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
×

×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend