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LGBT Artistas LGBTs ocupam espaço nas mídias tradicionais em momento que o Fundamentalismo político-religioso avança em todas as esferas sociais (Foto: Divulgação)


 

Artistas LGBTs ocupam espaço nas mídias tradicionais em momento que o Fundamentalismo político-religioso avança em todas as esferas sociais

Por Marcelo Hailer
Especial para Caros Amigos

Em plena ditadura militar dois grupos escandalizaram os quartéis generais com performances andróginas: Secos & Molhados, capitaneados pela figura de Ney Matogrosso, e Dzi Croquettes, trupe músico-teatral liderada por Lennie Dale e que causou furor no eixo Rio-São Paulo. Questões empresariais dissolveram o Secos & Molhados, mas os Croquettes continuaram e, antes de serem censurados pela ditadura, criaram um estilo de performance e representação de corpos e sexualidade, questionando definições, que segue influenciando nos dias atuais. Além de borrar as convenções de gênero, o Dzi construiu uma linguagem que é usada ainda hoje no vocabulário LGBT em expressões como “tietes”, criada para a legião de fãs que o seguia; “tô boa”, “toda cagada”. Muito do que os Dzi Croquettes fizeram nos palcos é o que hoje chamam “queer”, que em tradução literal significa “estranho”, mas ressignificada pelo movimento gay dos Estados Unidos é utilizada para se referir a quem não se encaixa no binarismo de gênero, homem e mulher, e de orientação sexual, hétero e homossexual.

Entre as décadas de 1980, 1990 e começo dos anos 2000, três artistas ocuparam espaços com suas músicas e levaram consigo as respectivas orientações sexuais: Cazuza (1958-1990), Renato Russo (1960-1996) e Cássia Eller (1962-2001). Ainda que não tratassem diretamente das questões referentes a gênero e sexualidade em suas músicas, foram artistas que sacudiram o cenário morno da música brasileira no final do século XX, em uma época em que a internet começava a dar as caras, as redes sociais não existiam e todos os produtos culturais permaneciam nas mãos das grandes corporações, que definiam o que seria “sucesso”. A morte precoce deles levou junto o que representavam.

Com a popularização da internet e do compartilhamento digital de músicas – movimento encorpado pelo Napster a partir do fim dos anos 90 – expressões culturais e musicais ignoradas pela mídia tradicional começaram a ganhar popularidade se utilizando das plataformas digitais em trabalhos independentes. Os ritmos eletrônicos techno e drum n’ bass são exemplos daquilo que se tornou comum para os dias atuais: hackearam o sistema das corporações culturais e caíram no gosto popular, fazendo do Brasil uma referência internacional no estilo. A mídia tradicional até tentou ignorar o movimento clubber, mas foi impossível: raves e eventos como o Mercado Mundo Mix pipocaram pelo País concentrando milhares de jovens com as suas roupas e cabelos coloridos.

É neste contexto que inúmeras artistas assumidamente LGBT – ainda que esta sigla esteja repleta de conflitos existenciais – dos mais variados ritmos e estilos voltaram a ocupar a música brasileira. Ao que tudo indica, vieram para ficar e chacoalhar os “bons costumes” da nossa cultura, sem se submeterem à higienização da indústria quando explora um nicho que ganha espaço e conquista fãs – retira-se o teor crítico das letras, esconde-se a sexualidade e, por vezes, produz-se um embranquecimento do artista.

As artistas LGBTs

Daniel Peixoto e o DJ Leco Jucá formavam o duo Montage e, em 2006, ganharam as pistas e a mídia com os hits Raio de fogo e Ode to my Pills – Benflogim. Em 2009, a dupla se separou e Peixoto seguiu em carreira solo. Mastigando humanos foi o seu disco de estreia e o single Olhos Castanhos fez parte da trilha sonora da novela Lado a Lado, da Rede Globo. Atualmente, o cantor está em turnê com o seu segundo disco, Massa.

Daniel conta como observa essa relação da mídia tradicional com as artistas LGBTs. “Nos últimos anos a música brasileira teve mesmo essa ascensão de artistas ligado à cultura LGBT. E para a galera que é jovem, isso também é muito massa. Gente que está entrando na adolescência, porque é muito importante que você tenha referência (LGBT). Eu lembro quando eu era adolescente, não tinha uma referência assim”, analisa Peixoto sobre a presença de artistas fora do armário atuando no mercado.

Por ser um dos pioneiros deste cenário, Daniel Peixoto diz que sofreu preconceitos e difamações. “Na minha época era assim: ‘É a banda do travesti’, no masculino... Era a banda ‘do travesti’, ‘militante’, mas essas palavras eram utilizadas para debochar da minha cara. E toda uma perseguição: ‘o Montage é uma banda gay’. Mas, nós éramos três caras e um era gay. Tinha essa coisa pejorativa quando as pessoas se referiam à gente como uma ‘banda gay’, como um artista da cultura gay. Desde Que Fim Levou o Robyn não tinha uma banda que trouxesse isso. As pessoas se assustaram, mas muitos desses artistas de hoje que estão em ascensão dizem que o Montage foi uma referência para eles e isso é muito maravilhoso de se ouvir, porque é uma sensação de missão cumprida. Mas nós temos que ver toda a história e de onde tudo isso veio: Ney Matogrosso, Cássia Eller, Edson Cordeiro... É uma escala que a cultura LGBT tem subido e é massa que hoje é muito mais fácil do que na minha época. Foi duro? Foi duro, mas sinto a missão cumprida por isso tudo. Recebi pedradas, fui criticado, fui apontado, fui tido como mau exemplo, mas serviu para alguma coisa (risos)”, diz Peixoto. 

Rico Dalasam, o primeiro rapper no Brasil assumidamente gay e autor dos sucessos Aceite-C e Fogo em mim, faz uma leitura mais crítica sobre os holofotes da mídia tradicional nas artistas LGBTs e destaca que não se trata de um “espaço dado”. “É necessidade deles, mano. A gente está lá por pura necessidade deles que administram a decadência deles. É só por isso. Não acham que eles gostam, não ficou bonito de um dia para o outro ser trans, não ficou bonito de um dia para o outro ser bicha preta, não ficou bonito de um dia para o outro você sair mano do meio do nada, que é como eles enxergam o rap... Só que se eles não levam, a decadência deles acontece em doses maiores e se eles levam, eles conseguem amortecer um pouco a queda deles. A televisão caminha para esse lugar e a mídia impressa também. Então, uma hora ou outra ele tem que pôr a bicha preta na capa do negócio, ele tem de dialogar, ele tem que fomentar, tem que fazer a farsa da inclusão para poder se manter na guerra, entendeu? Pra mim é só uma tentativa de sobrevivência ou de gestão de decadência deles”, critica Dalasam.

Pryka Almeida, vocalista da banda de hard core Lâmina, que está no cenário musical desde 2006, se une ao coro de Dalasam. “A mídia sempre tende a pegar carona com os assuntos que estão em alta, é o feminismo, os homossexuais, agora estamos falando de trans. De um modo geral, apesar de ter o lado do capitalismo, não deixo de achar válido esses assuntos ‘proibidos’ começarem a rondar o universo da sociedade que cria opiniões baseadas no que vê na TV, jornais e internet. A visibilidade traz um papel bem importante. Faz a família tradicional brasileira pôr a mão na consciência e falar: opa, pera lá, isso existe. A mídia está ali fazendo o papel dela, capitalista, de pegar o assunto do momento e vender de todas as maneiras, mas nesse caso, pensando em novelas e filmes com a temática LGBT, se exposto de uma maneira sem deteriorar esses grupos, eu não deixo de considerar válido como visibilidade”, analisa Pryka.

A drag queen e cantora Pabllo Vittar, que se tornou um fenômeno nacional e internacional da música pop vê com bons olhos a atual relação da mídia com as artistas LGBTs. “Fico feliz por cada vez mais a diversidade garantir o seu espaço e por podermos mostrar nosso trabalho, espalhar amor e alegria para mais pessoas. Esse espaço é incrível para o debate da representatividade, para levantar a bandeira da tolerância e do respeito”, comemora Vittar, que provocou um debate na edição do Rock in Rio, em setembro, quando milhares de fãs e analistas questionaram os valores críticos e estéticos dos curadores do evento.

Leandro Colling é professor adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos ((IHAC) e do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, ambos da Universidade Federal da Bahia (UFBA). À Caros Amigos, Colling faz uma análise de como essas artistas estão pautando a imprensa tradicional a partir das redes sociais e levanta o questionamento de que, ainda hoje, há “um quesito estético que guia essa seleção (de artistas)” e provoca: “Por que Liniker e não Leona Vingativa?”. O professor diz que “muitos fatores poderiam explicar porque a grande mídia está dando espaço para essas artistas. Uma delas é antiga e conhecida de quem estuda mídia e a indústria cultural, é aquilo que Stuart Hall chamou de ‘tiquinho do outro’, aquela necessidade de encontrar na sociedade alguma coisa diferente para chamar atenção do público. Esse ‘tiquinho do outro’ é muito mais um uso da diferença para produzir algo de diferente no conteúdo da mídia, mas não se expressa em grandes conquistas para essas pessoas diferentes. No entanto, isso também não explica tudo. Eu penso que a emergência dessa cena também é fruto do fato de que a temática LGBT tem se ampliado mais na mídia nas últimas décadas, também temos mais pessoas LGBTs produzindo arte, inclusive, porque elas passaram a ter mais acesso às tecnologias nos últimos anos e têm usado essas produções artísticas como instrumentos de um contradiscurso em relação a essa onda conservadora que assola o nosso País”, analisa.

Visibilidade e homofobia

Uma marca das artistas LGBTs é que os discursos estão carregados de mensagens políticas que visam sempre colocar a questão da sexualidade fora do armário. Este é, talvez, um dos principais fatores que rodeiam a atual geração dessas artistas. Como apontado por Daniel Peixoto, inúmeros jovens com sexualidades dissidentes olham para o cenário musical e conseguem identificar artistas com histórias de orgulho e preconceito muito semelhantes. Direta ou indiretamente, estas artistas fazem com que toda a sociedade reflita sobre questões como homofobia, transfobia, respeito e direitos humanos e civis. Se levarmos em conta a atual ofensiva de grupos fundamentalistas aliados a partidos da extrema direita, não se trata de pouca coisa, ainda mais quando exposições LGBTs são censuradas e até mesmo a “cura gay” ganha aval judicial.

Para o cantor e performer Xërxës, a atual visibilidade sobre as artistas LGBTs é positiva, pois começa “a plantar algo na cabeça de quem está fora dessa bolha. Ainda vemos héteros falando ‘O Pabllo’ (em referência a Pabllo Vittar), mas pelo menos a música dela está tocando no churrasco de aniversário dos filhos deles. Essa visibilidade é como aquele pajubá: ‘Atura ou surta, bebê!’. Temos um País politicamente em ruínas onde a população se volta para classe artística para se entreter e agora o momento é deles, vão ter que ouvir o que a gente nunca pôde falar às claras”.  

Daniel Peixoto segue a linha de Xërxës e diz que “é importante que hajam ícones em todos os seguimentos e a cultura, e especialmente a música, sempre foi uma ferramenta de extrema importância em qualquer militância, não só em relação a questão da sexualidade e gênero. Ter uma artista como a Pabllo Vittar em um programa nobre de uma emissora aberta acaba levando (a discussão) a uma mulher que está lá no interior do Pará, lá na minha cidade, no Crato, que tem uma filha trans, que acha que aquilo é a coisa mais errada do mundo, e ela vê uma figura que dialoga com a filha dela em um programa de TV, acaba que aquilo traz sim uma aceitação. Não sei se essa é a forma mais correta disso acontecer, mas isso acontece”, observa o cantor.

“Você pode ser bicha, preta, de favela e isso te ajudar nesse instante. Só que você saber que isso te ajuda, mas você não dá o passo necessário que é: cheguei, eu que fiz, eu que assinei a arte, mas é para que ela dê vista de fato. Por que, sem dúvida, se um moleque me vê e se sente orgulhoso de me ver e se sentir representado e ele vai fomentar isso lá onde ele existe. Mas aí isso já não é um serviço meu, isso vem da mente de cada pessoa. Agora, se eu pego o meu espaço e torno possível, aí eu consegui fazer o 360 dessa possibilidade e cumpri o papel da música de emergência”, analisa Rico Dalasam sobre o papel da música e a representatividade que ela produz nas pessoas que a consomem.  

Pabllo Vittar acredita no potencial da televisão e na ocupação desses espaços para disseminar discursos contra o ódio. “Esse espaço é incrível para o debate da representatividade, para levantar a bandeira da tolerância e do respeito”, comemora a artista. 

Das redes para o mundo

É inegável o papel que as redes sociais e as plataformas digitais de compartilhamento representam para esta geração de músicos da MPB. Muito provavelmente, se não existissem as redes e as artistas ainda dependessem do esquema clássico da indústria fonográfica, as musicistas que compõem a nossa reportagem estariam relegadas àquilo que se convencionou chamar de “alternativo” ou “artístico” no sentido negativo destes dois termos, pois, eles podem ser utilizados para esconder obras artísticas consideradas “perigosas” para os “bons costumes”. Desse modo, Rico Dalasam, Pabllo Vittar, Pryka Almeida (com a banda Lâmina), Daniel Peixoto e Xërxës subverteram a ordem das coisas: primeiro conquistaram os seus respectivos públicos a partir das redes e deram início as suas turnês, posteriormente é que – de modo que não dava mais para ignorar – é que a mídia tradicional voltou os seus holofotes para a produção musical desses artistas.

“As redes sociais são fundamentais para a divulgação do trabalho de todos os artistas hoje. São o principal canal que conecta o nosso trabalho com os fãs e nos permitem estar sempre perto deles. Eu amo muito”, afirma Pabllo Vittar, que hoje é a Drag Queen mais popular das redes brasileiras e possui mais 1, 500 milhões de seguidores em seu Facebook e no YouTube o seu canal é seguido por mais de 4 milhões de pessoas, sendo um dos mais populares dessa rede. O rapper Rico Dalasam também exalta a efetividade da internet e vislumbra um próximo passo para a utilização das redes na divulgação de seu trabalho.

“Primeiro a gente acontece na internet pra depois ir parar na TV. Você acontece na internet pra depois parar na gravadora. Você acontece na internet e depois pontua nas imprensas, porque ainda existe esse pensamento sobre pontuar em alguns lugares, segmentar e tal. Mas, pra mim a relevância disso tudo é muito volátil, porque as vezes é um link que sai num lugar e aí quando eu ponho na minha plataforma, anda. Só que ele anda com o selo do lugar. É isso. Então, o próximo estágio é a gente criar a mensagem do nosso selo e do nosso selo a gente põe na outra plataforma do nosso selo e aí é o último beijo, tchau! Aí as pessoas que trabalham lá, vão trabalhar de redator das nossas próprias coisas, e aí é um outro dia”, profetiza Dalasam.

Pryka Almeida, vocalista da banda Lâmina, fala sobre a internet em dois momentos da banda, pois, elas fizeram uma pausa e retornaram no ano passado, quando a rede estava mais desenvolvida. “Na experiência da nossa banda a internet está sendo fundamental. Nós temos uma história de banda que começou por volta dos anos 2000, que apesar de não termos a internet dessa forma que é hoje, era impressionante como a gente dava conta de se comunicar através de fanzines em cartas, amigas em comum. Depois veio Orkut, fotolog e melhorou mais ainda. A banda parou de tocar mais ou menos em 2006, e quando voltamos a tocar em 2016, foi impressionante o poder da internet. O nosso som percorre cidades, estados, países. Tenho contato com meninas do Brasil, de outros países, inclusive, no ano passado nossa banda tocou numa rádio online de Nova Iorque. Hoje em dia aparecem revistas ou páginas de facebook querendo conversar com a gente ou pessoas para marcar show que não conhecemos.  Antes, o nosso círculo era fechado, eram as mesmas pessoas, não que não existissem outras, é porque era difícil se achar nesse mundão mesmo”, analisa Almeida.

“A internet é fundamental, mas tanto pode ser usado para o bem quanto para o mal. Mas, a internet facilitou e muito o que aconteceu com o meu trabalho, as coisas que eu consegui foram graças à internet, ela trouxe a possibilidade de você ser um artista sem essa necessidade de passar pelas gravadoras”, analisa Daniel Peixoto.  Para Xërxës “a Internet é tão vital para a música hoje quanto o microfone. É fundamental ter um bom trabalho de divulgação na Internet, mas além disso investir nesse trabalho, nem que for pouca grana. Há um tempo a Internet é o principal meio não só de lançamento de nova música, quanto de distribuição. Mudou os padrões das mídias”, avalia.

Uma reconfiguração na música brasileira? 

Além das artistas que conversaram com a reportagem, há uma profusão de artistas LGBT – ainda que alguns destes artistas não se sintam à vontade com esta sigla – tais como Liniker, Thiago Pethit, Johnny Hooker, Jaloo, Linn da Quebrada, Luana Hansen, As Bahias e a Cozinha Mineira... enfim, se cavoucarmos a lista é infinita e se espalha por todo o Brasil nas suas variadas manifestações musicais. Tod@s estes artistas possuem as suas músicas e características próprias, o que revela uma fase altamente criativa e diversa na música brasileira, ainda que parte dos críticos e mecenas enxerguem apenas um tipo de música a se fazer no Brasil, o que revela também certa homofobia da indústria. Mas, como já colocado aqui, isso não faz a mínima diferença, visto que esta nova onda de artistas já hackearam completamente o sistema tradicional de difusão de novos artistas. Diante disso, surge uma questão: estamos diante de uma reconfiguração estética e crítica na música brasileira?

O pesquisador Leandro Colling diz que “alguma coisa” está acontecendo. “Algumas fissuras estão sendo produzidas. Não estou dizendo que se trata de uma cena absolutamente nova, pois temos antecedentes dessa cena musical no Brasil. Mas essa cena antecedente, como Secos e Molhados, por exemplo, para citar apenas o mais conhecido, questionava as normas de gênero e sexualidade muito mais no vestuário, na gestualidade e nos adereços do que nas letras das canções.  O que me parece mais intenso agora é que a performatividade de gênero e a identidade sexual dessas pessoas artistas é o combustível para a sua produção artística como um todo. Em alguns casos, quando saímos da música e vamos para o teatro ou a performance, a performatividade de gênero da pessoa artista é a sua própria arte. E transformar a sua vida como arte não é novo no campo da arte em geral, é “novo” ou emergente no tocante às dissidências sexuais e de gênero e a arte no nosso país. Talvez essa seja a reconfiguração a que estamos assistindo”, analisa Colling.

Rico Dalasam faz uma profunda análise de uma provável reconfiguração na música brasileira, porém, o músico faz uma intersecção entre classe e raça e afirma também que há uma questão de linguagem e geração que está mudando completamente o modo de pensar e fazer música no Brasil.  “Cada personagem tem o seu viés e sua peculiaridade, ao mesmo tempo o mercado hoje, essa coisa de falar com a sua geração, essa geração X, a geração y, a geração tal, as empresas que se ligam no que que essa geração está consumindo entendeu que questões relacionadas a humanidade, a vida, as minorias, pautam a discussão dessas pessoas e elas vão consumir a partir disso. Isso já configura um outro processo de ser música num país como o nosso. A bossa nova não ia arrumar nada hoje em dia, a bossa nova ia na casa de quem bate panela, que foi aonde ela ganhou o now how de bossa nova.  O samba ia ser o samba igual agora que o funk é o funk, sem ter que descer pro asfalto pra ser alguma coisa e chegar lá embaixo e ser hackeado e pego pelos brancos. E os pretos do samba e do morro morrer fodido sem dinheiro, o Cartola ser mais vivo depois de morto. Então, o jogo é outro e nesse momento quem se estrutura, quem usa as armas das palavras e se organiza da melhor forma sendo da emergência, da periferia, pauta qual é o caminho da música aqui. Você vê o Emicida (cantor de rap) o quanto ele se organiza e faz sentido, o KondZilla (produtor musical) com os clipes de funk, alguns expoentes que vem da periferia e testificam que isso é possível e que é partir daí que se toca. Fora isso é resquício de pensamento e estruturas de majors. Eu não tenho nenhum problema com isso, mas, eu acho que a música passa por essa mudança não por conta da música, mas por conta da geração que existe hoje nesse país e como ela consome, e não só no país, mas no mundo, é uma juventude global. Se o mundo está globalizado, a juventude pensa em qualquer canto do mundo talvez da mesma forma, mas, cada uma com as suas nuances culturais. A gente vai caminhando nesse sentido: de fazer, estabelecer um diálogo com o público e com quem consome que vai deixar um legado nisso e a transformação na possibilidade, mas, só transforma também quem resiste. Você resistiu até aqui e aqui você entregou os pontos e passou a fazer parte de um modo de executar que é o do século passado. Só dá pra saber que mudou mesmo depois de um período mínimo de 10, 12 anos dentro da mesma busca e da mesma crescente, fora isso, a gente pode existir no quarto ano e não existir mais”, finaliza Dalasam.

Parte final:  ao mesmo tempo em que fechamos esta reportagem inúmeras notícias dão conta de uma forte ofensiva fundamentalista contra a população LGBT: exposição e peça teatral censurada, e derrubada da portaria que proíbe os psicólogos de aplicarem as terapias de conversão sexual, a famigerada “cura gay”. O rapper Rico Dalasam desenha o que se passa politicamente neste momento no Brasil e de que maneira se dá a disputa política, social e cultural em curso no Brasil. “o bonde é nosso...”

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