Entrevista Elza Soares: “Quero cantar até o mundo acabar”

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“Minhas bandeiras são a mulher, o negro e o gay. Essas são minhas lutas. Carrego a bandeira gay há muito tempo, porque acho que eles têm a minha cor. Pode ser branquinho, loirinho, mas têm a minha cor. São negros. São discriminados”

Por Fania Rodrigues
Da Caros Amigos

Elza Soares volta ao topo e agora em versão rock’n’roll. Ela chega aos 78 anos no auge da carreira, com um álbum de músicas inéditas, A Mulher do Fim de Mundo, o disco e o show mais premiado de 2015. Levou para casa os prêmios de “Melhor Show Nacional”, da Folha de S. Paulo e do Estado de S. Paulo, e “Melhor Álbum”, pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). A revista Rolling Stone Brasil também premiou com o “Melhor Álbum de 2015” e “Melhor Música de 2015” para a canção “Maria da Vila Matilde”, uma letra que convoca as mulheres a denunciar a violência doméstica. Quando cantada no show, a música levanta o público. “Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, diz o refrão, repetido às alturas.

Merecedora de muitos prêmios e homenagens, Elza Soares recebeu no ano 2000 um dos mais importantes reconhecimentos de sua carreira, quando foi eleita a “Melhor Cantora do Milênio” pela BBC de Londres. Nessa entrevista exclusiva à Caros Amigos, Elza Soares fala de sua origem, de suas bandeiras a favor das mulheres, negros e gays, que nesse novo álbum estão ainda mais visíveis. Casada com o jogador Garrincha por dezessete anos, a cantora diz que já não aguenta mais falar do jogador e se incomoda de ser conhecida como “a mulher de alguém”. Ela também comenta a situação da mulher negra e a falta de oportunidade e abre seu coração quando perguntada sobre a morte do filho, Gilson Soares, aos 59 anos, no ano passado por uma infecção urinária.

Mulher, negra e determinada. Sua voz forte e rouca, atrelada a uma personalidade marcante, parece ter sido a fórmula para manter-se na vanguarda ainda hoje, com sessenta anos de carreira.

Nesse último disco, a diva da MPB teve seu público renovado. Ele está mais jovem. Muito mais jovem, e chegou com as letras na ponta da língua. Esse mérito, entretanto, é compartilhado com os compositores das canções, todas feitas sob medida para Elza por jovens músicos paulistanos, mais que familiarizados à boemia pujante.

O show A Mulher do Fim do Mundo é descrito por sua produção como uma “ópera” emocional que retrata as mazelas da sociedade, instigando o espectador à reflexão sobre a realidade brasileira e a uma crítica social.

Mas Elza Soares é muito mais que A Mulher do Fim do Mundo, ela vem de longe, ela vem do “planeta fome”, como certa vez disse a Ary Barroso, quando ainda era uma menina. Aos 12 anos ela se apresentou pela primeira vez no show de calouros, da Rádio Tupi. Ary Barroso, que apresentava o afamado programa, vendo ela com o vestido que a mãe havia costurado à mão, lhe perguntou: “Minha filha, de que planeta você veio?”, e arrancou risos da plateia. “Venho do planeta fome, senhor Ary”. Sua resposta deixou o apresentador desconcertado.

Foi assim que chegou onde chegou, sendo inusitada, surpreendendo o público e se reinventando. E mesmo depois de sucessivas cirurgias e seis pinos na coluna, o que a faz andar com dificuldade, ainda assim a “mulher do fim do mundo” parece estar mais viva do que nunca.

Fania Rodrigues – Por que Mulher do Fim do Mundo? De onde vem a ideia desse disco?

Ezsa Soares – O Guilherme Kastrup (produtor do disco e do show) é que sabe. Ele me olhou e disse: “Essa é a mulher do fim do mundo”. Acho que realmente é muito parecido comigo. O fim do mundo para mim é o fim das coisas ruins. Só coisas boas. Essa é a mulher do fim do mundo que está preparada para o que der e vier.

Como essa mulher do fim do mundo foi construída? Quem foi seu pai, sua mãe, onde você cresceu?

Meu pai foi Avelino Gomes Soares, mãe Rosária Maria Gomes. Essa mulher do fim do mundo nasceu em Padre Miguel. Ali ela começou a ser construída, tanto que sou da Escola de Samba de Padre Miguel até hoje. Ela veio sendo construída desde aquela época. A mulher do fim
do mundo não nasceu agora.

Seus pais trabalhavam em quê?

Meu pai era um operário e minha mãe lavava roupa.

Assim como os acadêmicos da literatura, você hoje é uma imortal do mundo da música. Mas, antes de ser Elza Soares, onde você trabalhou?

Trabalhei em fábrica de sabão, em fábrica de escova de enceradeira elétrica, carreguei muita lata d’água na cabeça. Passei a juventude criando filho. Essa foi minha vida, desde o infantil até o juvenil. Trabalho desde sempre.

Você começou a trabalhar com que idade?

Comecei a trabalhar aos 11 anos, na fábrica de enceradeira elétrica.

Em fábrica? Com essa idade?

Sim, na fábrica. Lá também trabalhavam menores de idade. Estamos falando da década de 1950. E quando não podia fazer na fábrica, pegava as escovas e fazia em casa. Trabalhei desde pequena.

Escutei dizer que quando você esteve no programa do Ary Barroso, ele olhou para você e perguntou: “De que planeta você veio?”. Você se lembra disso?

Lembro, lógico que me lembro. Eu disse assim: “Do seu planeta”. Então ele perguntou: “Qual é o meu planeta?”. “O planeta fome, seu Ary”, respondi. Aí ele calou a boca, todo mundo ficou quieto, botou a bundinha na cadeira, ninguém ria mais, não falava nada. Foi um silêncio total. Ele ficou meio perdido, não esperava que fosse ouvir essa resposta.

Você era muito novinha, tinha 12 anos, de onde você tirou essa resposta?

Eu conheço o planeta fome. Falei do meu planeta. Planeta dos necessitados, dos desejos não cumpridos. É o planeta da miséria tranquila, onde ninguém fala nada. As pessoas ficam quietas no seu miserê. Não falam nada.

E por que você quis ser cantora? De onde surgiu essa ideia?

Fui uma das primeiras a romper algumas barreiras na música. Fui chegando, competindo com os homens. Era uma época bem brava, mas consegui chegar e sem medo.

Quando você era criança você sonhava em ser cantora?

Sonhava. Meu pai tocava violão e cantava. Ele me fazia cantar com ele. Mas ele não imaginava que quando eu ficasse maior fosse querer ser cantora, porque ele também achava que isso não era profissão para mulher. Só que a filha dele enfrentou todos os bagos e foi ser cantora, coisa que ele não apoiava.

Ele chegou a ver você já famosa, aclamada pelo público?

Não. Infelizmente meu pai morreu muito cedo, com 54 anos.

Você acha que ele sentiria orgulho de você?

Acho que hoje sim, ele se orgulharia da Mulher do Fim do Mundo.

Depois você fez sucesso, ficou conhecida pela sua voz e suas músicas. Aí veio o Garrincha. E você se tornou a mulher do jogador de futebol mais querido da época. Isso te incomodava, ser conhecida como a mulher de alguém?

Me incomoda muito essa coisa de ser a mulher de alguém. Não sou de ninguém. Me incomodou bastante na época e continua incomodando. Eu sou mulher minha, sou eu quem comanda a minha vida. Nunca fui dominada ou comandada por ninguém. Sou dona do meu corpo, de tudo.

Você sempre foi assim, independente, na maneira de lidar com os seus relacionamentos?

Sempre tive esse empoderamento. Mas o tempo também nos ensina muita coisa. Vai vendo as coisas que passam perto de você e antes não alcançava. É preciso também ter tempo para aprender. Ninguém aprende de uma hora para outra.

No ano passado houve um levante feminino quando o Congresso ameaçou mudar uma lei que dificultava o acesso da mulher ao atendimento médico em caso de estupro. Como você viu esse movimento?

Esse movimento vem desde o Dia Internacional da Mulher. Algumas mulheres tiveram que morrer, porque pediam para ganhar um pouco mais. Então vejo que há muito tempo a mulher vem falando, mas vem falando baixinho. Agora é preciso falar mais alto. Agora já pode falar mais alto. A mulher é mais ouvida, está mais unida. Naquela manifestação do ano passado elas passaram o recado e de recado em recado vai chegando na sua casa e na minha. Como o índio, que manda recado através do som, nós também mandamos através dos nossos gritos.

A mulher negra ainda está na base da pirâmide social e também é a que mais sofre violência. Você como mulher negra, bem-sucedida, que chegou na sua idade na auge da carreira, como você vê essas mulheres sofridas?

Se eu tivesse o poder de transformação eu traria muitas mulheres negras para esse lado de cá. Tem muitas negras inteligentes, que estudaram, mas que não têm oportunidade. Olho para essa mulher e digo: “Você que veio da escova da enceradeira elétrica, da fábrica
de sabão. Você que veio com essa garra toda, você pode chegar lá”.

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O que você achou da atitude da Beyoncé, que levou para o palco do Super Bowl o tema da luta e da resistência do povo negro nos Estados Unidos?

Achei maravilhoso. Tinha que ser no Super Bowl mesmo, um evento que é transmitido para o mundo inteiro. É ali que ela tinha que fazer isso. Ela é maravilhosa.

E o que você acha dessa agressividade toda que a gente está vivendo nas redes sociais e nas ruas nesses últimos dois anos no Brasil?

Ficou muito fácil. Posso pegar meu celular e fazer uma crítica a alguém que não conheço. Criticando aquilo que não vi, que não sei. Estão dando ordens, dizendo que você tem que ser isso ou aquilo. A internet dá essa abertura. Acho a liberdade uma coisa maravilhosa, só
acho que as pessoas não estão sabendo usar. Liberdade tem que ter, mas também é preciso saber usar a liberdade. Quem não tiver essa responsabilidade vai fazer besteira.

Mas essa agressividade também está na rua. Veja o que aconteceu com o Chico Buarque.

O Chico é uma pessoa incrível. Viu que ele não revidou. Avec élégance (com elegância, em francês).

Quais são suas bandeiras de luta, Elza?

Minhas bandeiras são a mulher, o negro e o gay. Essas são minhas lutas. Carrego a bandeira gay há muito tempo, porque acho que eles têm a minha cor. Pode ser branquinho, loirinho, mas têm a minha cor. São negros. São discriminados. Temos o mesmo discurso, por
isso carrego essa bandeira. Adoro.

Entre as músicas desse álbum tem “Maria Da Vila Matilde”, que incentiva a denúncia da violência doméstica. Você acredita que o artista tem a missão de levar uma mensagem social?

Eu só acredito nisso. Quando eu canto “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, e vejo a meninada cantando, é maravilhoso. É o ponto alto do show. É uma coisa inexplicável.

Inclusive no seu show uma coisa que impressiona muito é ver como o público canta todas as músicas, que são inéditas. Além disso, o público dessa turnê é bem jovem.

Não sei se é poder de Deus, porque eu não tenho poder nenhum, ou é a força da música mesmo. A música tem força, ela caminha junto com a inteligência da pessoa. Essa é uma música que tem uma mensagem muito potente.

“Minhas bandeiras são
a mulher, o negro e o
gay. Essas são minhas
lutas. Carrego a
bandeira gay há muito
tempo, porque acho que
eles têm a minha cor.
Pode ser branquinho,
loirinho, mas têm a minha
cor. São negros. São
discriminados”

 

Como foi a escolha dessas músicas?

O processo do CD acabou no chão da sala da minha casa, com todo mundo aqui sentado para escolher as músicas. Foram feitas cinquenta músicas para eu escolher onze.

Esse compositores fizeram as músicas exclusivamente para você?

Exclusivamente pra mim. Fui vendo as que tinham a minha cara, meu jeito. Fomos juntos descobrindo o trabalho. Nasceu, brotou dessa juventude maravilhosa de São Paulo. O Kiko Dinucci fez uma música muito forte para mim, “Pra fuder”. Ele falou isso assim, na minha
cara. Tem outra música intensa, que é “Benedita”, que fala do mundo gay.

Todo o CD tem uma mensagem social, crítica. Isso foi pensado assim?

Não, aconteceu. Acredito na maturidade, lógico, mas também no nascimento da coisa. Foi nascendo aos poucos. Conseguimos fechar esse trabalho inteligentemente. O Kastrupe (Guilherme Kastrup, produtor do disco) foi muito feliz nesse trabalho, escolhendo as músicas que mais me representam.

Esse disco tem uma pegada bem rock’n’roll.

É isso mesmo. Aquelas guitarras quando gritam é algo lindo demais. É um samba-rock’n’roll. Gosto dessa pegada que demos para o CD. Na “Carne” também tem guitarra (apesar de não fazer parte do CD, essa música está no repertório do show). Usamos um DJ em algumas
músicas do disco e gostei do resultado. Antigamente isso era mais difícil, usar esses recursos.

Como você se sente chegando em 2016 na vanguarda, com um dos trabalhos mais premiados de 2015? Ninguém da sua geração está vivendo isso.

Porque as pessoas se acomodam. Pensam: “Isso está dando certo assim, vou deixar desse jeito”. Lógico que ninguém tem essa garra. Como eu venho de lá (da pobreza) para mim tanto faz, como tanto fez. Conheço lá muito bem e não tenho medo de voltar a Padre Miguel.
Agora quem nunca viu Padre Miguel, o subúrbio, essa vida dura é algo assustador. Então, se acomodam, não vão deixar o certo pelo duvidoso. Eu não sei quem é o certo, nem o duvidoso.

Edith Piaf dizia que quando ela ouviu pela primeira vez “Non, Je Ne Regrette Rien” ela sentiu que era a música da sua vida. Tem alguma música que significa isso para você?

Quando eu ouvi a “Carne”, achei que fosse ela. “Carne” é uma música muito forte. Ela é de 2004 e ainda hoje é referência. Quando eu canto todo mundo enlouquece com essa música. Ela é atemporal. Mas, hoje, eu acho que outras virão.

Você foi sucesso em muitas outras épocas da sua vida. Qual o segredo?

Não existe segredo. Eu sou o agora. Não pode ter medo. Para ser vanguardista tem que ter peito e coragem. Eu tenho peito e coragem, aliás, até muito peito. O sucesso não tem tempo, nem hora marcada. Quando tem que chegar ele chega bonito e maravilhoso.

Que energia é essa? O que te move?

Olha, talvez você é o que me move. Essa juventude assim, na minha cara, me impulsiona. Mas também a própria vida. O sofrimento também faz a gente crescer bastante. A gente vai alimentando essa chama, uma chama que não se apaga nunca. Está acesa e acesa mesmo.

No ano passado você perdeu um filho e já havia perdido outro, seu filho com o Garrincha. Como essas dores impactam sua arte?

É difícil. O momento mais difícil para uma mãe é quando ela perde um filho. A gente fica sem chão. É o momento em que temos que buscar novamente toda aquela força de antes. É um momento que a gente diz: “Meu Deus, eu existo”. Que difícil é se encontrar outra vez. E com a coluna operada, não posso fazer qualquer movimento. Você não imagina o que passei. Mas vou com fé. A fé também é uma coisa muito séria. Acho que consigo muita coisa através da minha fé.

Você tem religião?

Sou espírita. Sou como um caminhão a 500 por hora e venho batendo de peito aberto.

Como você está de saúde?

Está tudo ótimo. A coluna é só uma parte do corpo. O resto está tudo bem.

Até quando você fica com essa turnê da Mulher do Fim do Mundo?

Até o mundo acabar, até o mundo acabar.

Você pensa em se aposentar em algum momento?

Não, nunca. A minha música já fala tudo. “Eu quero cantar até o fim/ Me deixem cantar até o fim/ Até o fim eu vou cantar”.

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