Entrevista Raquel Rigotto

Edição 177
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Entrevista Raquel Rigotto

"Há um uso sem controle de agrotóxico"

Participaram: Alan Tygel, Eduardo Sá, Luciana Rios, Mayron Borges, Raquel Júnia e Vivian Fernandes.

Processada por fábricas de agrotóxicos por causa de seus estudos, a professora do departamento de saúde comunitária da faculdade de medicina da Universidade Federal do Ceará, Raquel Rigotto, fala a Caros Amigos sobre os malefícios do modelo de desenvolvimento adotado no campo brasileiro. Rigotto é também associada à Rede Brasileira de Justiça Ambiental e ao grupo temático de Saúde e Ambiente da Abrasco. Na entrevista ela critica a isenção fiscal para os agrotóxicos, expõe dados alarmantes e afirma que os efeitos desses venenos oneram intensamente o SUS.

Caros Amigos - Em que pé estão as suas pesquisas com os agrotóxicos.

Raquel Rigotto - A pesquisa iniciou no ano de 2007, motivada pelos dados da Secretaria Estadual de Saúde do Ceará que mostraram um número elevado de internações por intoxicações por agrotóxicos em 2004 e 2005. Entre esses dois anos houve um aumento exorbitante de 634 casos para 1106. Foi discutido com movimentos sociais do campo, e foi percebido que os casos se concentravam em regiões onde também estava acontecendo a expansão de atividades do agronegócio, especialmente a fruticultura irrigada para exportação no baixo vale do Jaguaribe. E nesse momento coincidiu de ter saído um edital do CNPQ exatamente para estudo de populações expostas a agrotóxicos no nordeste, e nós tivemos o projeto aprovado. Organizamos uma equipe de pesquisa bastante interessante, com 17 formações profissionais diferentes e a participação de dois movimentos sociais: o MST e a Comissão Pastoral da Terra. Isso nos possibilitou fazer um trabalho bastante diferenciado em relação ao que tradicionalmente se faz na pesquisa epidemiológica. Porque ao nos aproximarmos do território começamos a perceber a complexidade e ver pelo menos três modelos de produção diferentes: os trabalhadores empregados ao agronegócio, agricultores camponeses que persistiam na pequena agricultura e o que reunia trabalhadores assentados da reforma agrária e de uma comunidade em transição agroecológica. Eles tinham modos de viver, produzir e de se expor aos agrotóxicos distintos, e a partir daí desenhamos a metodologia da pesquisa.

Quais são os dados novos que você coletou nessa pesquisa?

No que diz respeito a doenças, nós percebemos que 33,1% dessa amostra de 545 trabalhadores tem relatos na sua história egressa de pelo menos um episódio de intoxicação aguda por agrotóxico em algum momento da vida: 1/3 da população examinada. Também parece que 29% deles no momento da entrevista tinham sintomas compatíveis com o quadro de intoxicação aguda por agrotóxicos, isso somado com o dado de que 78% deles tinham o último contato com os agrotóxicos nas últimas 12 ou 24 horas. Outro dado que nos chocou muito é que 54% desses que tiveram sintomas de intoxicação aguda não procuraram assistência médica. Isso nos marcou muito porque mostra a solidão e o desamparo desses trabalhadores, eles se intoxicam durante o trabalho e, quando saem, a unidade de saúde já está fechada pois ela não atende de noite. Para ir ao hospital na cidade é um deslocamento muito difícil para eles, e muitas vezes chegam no hospital e não são compreendidos e acolhidos na sua condição de trabalhadores expostos aos agrotóxicos. Então o diagnóstico não é feito, o nexo entre trabalho e exposição, sintoma e diagnóstico, não é estabelecido. Pela própria falta de resolutividade do sistema de saúde os trabalhadores ficam desestimulados a procurar. Aí você começa a compreender porque a Organização Mundial de Saúde afirma que para cada caso de intoxicação por agrotóxicos diagnosticado e notificado você tem pelo menos 50 casos não notificados. E os nossos dados dão elementos para a gente compreender como que isso vai estar realmente acontecendo.

Chamou também atenção a frequência de sinais e sintomas de alterações neurológicas nesse grupo de trabalhadores examinados, que está na casa dos 70%. Isso vai incluir sintomas como cefaleia, fraqueza, tremores, cânceres, câimbras, irritação, instabilidade, depressão, alterações de sono, que são alterações neurológicas descritas na literatura como associadas aos agrotóxicos, especialmente o grupo dos organofosforados e dos carbamatos, mas também há outros. Também encontramos um percentual bastante significativo nas alterações hematológicas, tanto da série branca como da série vermelha, alterações essas que são preditivas de alterações neoplásicas, de leucemias e também de função hepáticas.

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