Frei que atua contra a mineração é ameaçado de morte em MG

Cotidiano
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Moradores denunciam os impactos ambientais profundos que a atividade mineradora pode causar na região 

Por Lu Sudré
Caros Amigos

Conhecida nacionalmente por sua rica biodiversidade, a Serra do Brigadeiro, em Minas Gerais, está na mira das mineradoras que avançam sobre a região. Do outro lado, moradores se mobilizam e denunciam os impactos negativos da atividade, entre eles, frei Gilberto Teixeira, franciscano da Fraternidade Santa Maria dos Anjos e responsável pela Paróquia no distrito de Muriaé, em Belisário.

Em entrevista à Caros Amigos, frei Gilberto, umas das lideranças da região, denuncia que foi ameaçado de morte por um sujeito armado que o abordou na casa paroquial após a missa do domingo, 19 de fevereiro. "Ele mostrou a arma e disse para que eu ficasse tranquilo. Repetia ‘Hoje é só um aviso’. Disse que eu estava falando muito sobre mineração e deveria me calar. Reforçou que ‘eles’ não queriam que eu falasse sobre mineração", conta o religioso. O homem ainda ditou a "agenda" da última semana de frei Gilberto, mostrando que tinha conhecimento sobre suas atividades e lugares que havia frequentado.

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Para ele, a ameaça foi uma tentativa de inibir o movimento contra a mineração, encabeçada na região pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), que até o fim do ano passado fazia parte do grupo Votorantim. “Creio que essa ameaça veio com objetivo de inibir e amedrontar o movimento, mas estamos defendendo a 'vida'. O resquício que temos de Mata Atlântica é muito pequeno e aqui na região de Belisário há uma concentração de nascentes e mata. A mineradora é, nesse momento, a principal ameaça para esse bioma”, afirma frei Gilberto. “Esses dias perguntei: ‘quem tem uma nascente na sua área?’, e quase metade da igreja levantou a mão. A principal defesa é a de nossa água, que é um bem coletivo. Entendemos que aqui é uma região produtora de água e assim deve permanecer. A bauxita não está acima da água, não vale mais”, continua o franciscano. No dia seguinte à ameaça, frei Gilberto fez uma ocorrência e dia 9 de março prestou depoimento. Atualmente, a Polícia Civil investiga o caso.

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Segundo o religioso, há 30 anos a Serra do Brigadeiro é estudada por mineradoras e os moradores, em conjunto com movimentos sociais e entidades ambientais, tentam impedir a chegada das atividades até Belisário. As sequelas nos ambientes fluviais são um dos principais danos causados pela atividade mineradora, pois a aplicação de mercúrio e outros detritos contaminam a água, e consequentemente a fauna e flora locais são afetadas. A contaminação impediria também a agricultura familiar em Belisário e cidades vizinhas como Rosário da Mineira e Miraí.

“Não dá pra conciliar a atividade minerária com a agricultura familiar, que é a base da economia de pequenos proprietários da região. Eles desapropriam o terreno, que depois fica improdutivo. Já visitamos lugares em que eles mineraram e os pequenos agricultores não conseguem mais produzir na área”, afirma frei Gilberto.

Uma nota de solidariedade ao religioso circula na internet e foi assinada por movimentos como Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) e outras entidades.

Tensão

Em novembro de 2016, a comunidade local de Belisário realizou um ato contra a mineração na região, o que tensionou as relações com a CBA. A companhia pleiteou recentemente uma cadeira no conselho do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro enquanto representante da sociedade civil. Os franciscanos e a Escola Família Agrícola, associação de pequenos agricultores, também pleitearam a vaga, ocupada pela última após votação, mas a vacância em outras cadeiras do conselho permitiu a participação das entidades sociais em todas as atividades no conselho.

Com a ameaça de morte sendo de conhecimento público, frei Gilberto prevê que as reuniões do conselho do Parque serão delicadas. “Durante todo o processo foi uma discussão muito acirrada. A grande maioria não queria a presença da mineradora no conselho, foi um embate muito grande”, relembra o frei.

Nesta terça-feira (14), Belisário recebe a visita do secretário estadual de Direitos Humanos, Nilmário Miranda (PT). A ameaça chegou ao conhecimento de Frei Betto e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que, de acordo com o religioso, deu mais força para a mobilização. “A comunidade tem mais segurança para denunciar e falar. O que ‘eles’ esperavam com a ameaça, quem quer que eles sejam, gerou um efeito contrário. As pessoas estão mais convictas. Está gerando uma postura ainda mais crítica e firme na comunidade, o movimento cresceu”.

Na próxima quarta (15), haverá a reunião de posse do conselho, em que militantes do MAM, MAB, moradores e entidades ambientais locais se manifestarão contra a presença da mineradora no conselho do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro. No dia 26 de março, a comunidade organiza a “Caminhada das Águas”, em defesa das nascentes e contra a atividade mineradora.

 

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