Cultura Popular: Sangue, suor e poesia

Edição 176
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Cultura Popular: Sangue, suor e poesia


Em seus 10 anos de vida, a Cooperifa mostra que a cultura é uma poderosa ferramenta para transformar o cotidiano da periferia.

Por Otávio Nagoya

Quem apareceu no Zé Batidão, na noite de 19 de outubro, teve a impressão de chegar a um desses bares famosos do centro da cidade. Quando o relógio marcava 19 horas, todas as mesas estavam ocupadas e as pessoas tinham que ocupar a calçada. Porém, aqueles que lotavam o Zé Batidão, localizado na periferia da Zona Sul paulistana, aguardavam ansiosamente o início do Sarau da Cooperifa, que ocorre toda quarta-feira, “faça chuva ou faça sol”, como avisa o fundador Sérgio Vaz.

Porém, o dia 19 de outubro foi especial. Além de chegar à marca de 500 saraus, a Cooperifa completa 10 anos de resistência cultural. Para a comemoração, cerca de 500 pessoas se espremiam alegremente no Zé Batidão. Às 21 horas, quando o poeta Sérgio Vaz e outros colaboradores se reuniram em frente ao microfone, o ambiente se modificou. O barulho produzido pelas conversas e debates, deu lugar a um respeitoso silêncio. “O silêncio é prece. É uma prece mesmo”, repetiam todos, como é costume. “O cara chega na quebrada e vê 200 pessoas reunidas em volta de um bar pela poesia. E não é para festa. É silêncio, é comungar a palavra, comungar o respeito”, explica Vaz.

Antes de iniciar o sarau, Sérgio Vaz agradece todos e todas que fizeram parte dessa história. De repente, todo mundo começa a cantar “parabéns à você”, seguido por uma contagem coletiva de um até 10. “Cooperifa é 10”, gritavam. Após um momento de celebração e abraços, a atividade continuou normalmente. “Queremos que o artista conheça sua comunidade e que a comunidade conheça seu artista. O artista não é só aquele que está na revista, na televisão”, disse Vaz.

Durante duas horas, mais de 50 poetas declamaram seus textos. Depois do aplauso da galera, eles voltavam para seus lugares, se misturando com o público, e assistiam as declamações seguintes. Era difícil diferenciar os artistas e os espectadores. “Aqui é o movimento dos sem palco, a ideia de que todos podem se apropriar da literatura, podem ser poetas, podem ser escritores. É um espaço para a periferia se reconhecer em atividades que sempre foram bem elitizadas”, analisa o escritor Rodrigo Ciríaco, que lançou o seu livro 100 Mágoas no sarau.

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Passado imediato

Porém, essa efervescência cultural nem sempre foi a realidade da periferia de São Paulo. “Nos anos 1980, a zona Sul foi considerada um dos lugares mais violentos do mundo e ninguém queria morar aqui”, relembra Márcio Batista, poeta e fundador da Cooperifa. Durante muito tempo os moradores da periferia tiveram seu direito à cultura negado. Para Rose Dória, poeta e fundadora, a situação ainda é a mesma, “se você parar pra pensar, quanto se paga para ver um show, uma peça de teatro ou filme no cinema? Então, a cultura continua não sendo acessível, o que mudou é que resolvemos fazer por nós mesmos”.

Para Josiel Medrado, poeta e morador da zona Sul, durante muito tempo a articulação e produção cultural da região foi fraca. “Aconteciam somente coisas eventuais e esporádicas, não existia um movimento de ação cultural, isso começa com a Cooperifa”. Atualmente, existem mais de 70 saraus espalhados pela periferia de São Paulo, todos acontecendo em bares. “Todo mundo sabe que na periferia não tem teatro, nem cinema, nem biblioteca. O único espaço público que o governo deu foi o bar. Então, vamos transformar o bar em centro cultural”, incentiva Vaz.

Com a efervescência cultural, os moradores passaram a se apropriar do lugar e ter orgulho da região. “Isso traz uma transformação social muito grande. Antes as pessoas tinham que atravessar a ponte para ter cultura, hoje as pessoas tão vindo do outro lado da ponte para consumir a nossa”, avalia Márcio. Para Sérgio Vaz, a atual cena cultural da periferia é um momento histórico, “dos 70 saraus que existem, mais de 40 viraram centros culturais, criou-se células de cultura e o que a classe média viveu com a música popular, com os festivais, a periferia vive hoje com o rap, com a poesia e a literatura”.

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