Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais denuncia invisibilidade

Cotidiano
Typography

 

Com a palavra de ordem "Luanas e Katianes. Quantas mais? Resistimos!”,  mulheres denunciam a lesbofobia e a bifobia no País

Por Lu Sudré
Caros Amigos

Aos 24 anos, Luana Barbosa dos Reis Santos morreu ao ser espancada por três policiais militares em abril de 2016 no estado de São Paulo. Em setembro, poucos meses depois, Katiane Campos, de 26 anos, foi encontrada morta, nua, com o corpo parcialmente carbonizado e indícios de estupro, em Brasília. Duas mulheres, vítimas de lesbofobia e racismo, serão lembradas na 15ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, que acontece neste sábado (17), na Praça Roosevelt, centro da cidade.

Com a palavra de ordem "Luanas e Katianes. Quantas mais? Resistimos!”, mulheres denunciam a lesbofobia e a bifobia no País. “Usamos esses dois nomes para representar tantas outras mulheres lésbicas que morreram, foram assassinadas e que sofreram lesbofobia. Que sofreram todo e qualquer tipo de violência que é possível imaginar, principalmente pela lesbianidade delas. São nomes que precisam ser lembrados sempre”, afirma Ane Sarinara, feminista do coletivo Luana Barbosa e uma das organizadoras da Caminhada.

Para ela, a marcha organizada de forma autônoma, faz um importante contraponto à “sociedade machista e misógina na qual vivemos.” “Mulheres lésbicas e bissexuais são atacadas, desmoralizadas, violentadas. Estamos aqui para mostrar que existimos e estamos morrendo, de diversas formas, mas queremos continuar vivas. Quase não se fala sobre mulheres lésbicas e bissexuais, e mesmo em programas de televisão que estão falando ou usando as bandeiras LGBTs, as lésbicas e bissexuais não estão no palco. Não falam sobre nós e não nos deixam falar”,  pontua a militante.

Historiadora e moradora da periferia de São Paulo, Ane ressalta que tanto para o caso de Luana, quanto para o de Katiane não houve justiça, e critica inexistente notificação de crimes de ódio contra lésbicas e bissexuais. Segundo ela, não existem órgãos que acompanhem casos de lesbofobia ou bifobia. Assassinatos de mulheres são enquadrados como casos de feminicídio mas sem o recorte de orientação sexual. De acordo com o coletivo Luana Barbosa, que passou a monitorar os números, no ano de 2016  houve 20 casos de assassinatos e outros inúmeros de agressão física em espaços públicos contra lésbicas e bissexuais.

“O caso de Luana teve mais repercussão e ainda sim não houve resolução. Sempre o deixamos a frente, pra que ele ganhe holofotes, receba a devida atenção judicial e não seja mais um caso arquivado. O caso da Katiane foi um crime bárbaro, que até hoje não se sabe o que aconteceu”, comenta Ane Sarinara. 

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Parada “LGBT” e invisibilidade

Este ano, são aguardadas 40 mil pessoas para a conhecida Parada do Orgulho LGBT, que acontece no próximo domingo (18), na Avenida Paulista, em São Paulo. Mas, na opinião de Marcela Reis, lésbica e feminista, mesmo com a grande adesão pública ao evento, é extremamente importante ter uma caminhada focada só em lésbicas e bissexuais.

“O movimento LGBT nunca nos priorizou. O L como primeira letra da sigla é só pra ficar dito que o movimento em algum momento se preocupou com as lésbicas. A Parada Gay tem sua importância, mas creio que muito mais para os gays, principalmente, e para pessoas trans e travestis. Nesse sentido surge a necessidade das lésbicas se organizarem politicamente e saírem às ruas para mostrar que nós resistimos”, diz. “Precisam saber que políticas públicas não são voltadas pra nós, que sofremos estupros corretivos diariamente, que somos mortas por amarmos mulheres, que somos expulsas de casa por nos comportarmos ‘como homens’. Nossa luta precisa crescer e ganhar peso e nome como a luta dos gays”, complementa Marcela. 

Em relação à Parada LGBT, Ane Sarinara compartilha da mesma opinião e enxerga uma falta de politização no evento. “A Parada Gay se tornou uma grande festa e um evento que arrecada milhões para a Prefeitura de São Paulo, então, a questão política é totalmente deixada de lado. Festas são ótimas, mas não é só isso. Gostamos de festas mas queremos mostrar que estamos morrendo e fora do mercado, reivindicar uma posição do Estado e não servi-lo. Não tivemos espaço para nos colocar na Parada Gay”. Segundo ela, nos últimos dois anos, mulheres negras, mães e periféricas estão ocupando o espaço da Caminhada e tornando o ato cada vez mais diversificado.

Conjuntura política

Ao longo dos últimos dias, a Caminhada promoveu uma série de atividades e discussões, como a roda de conversa "O que pensam as Lésbicas e Bissexuais sobre o atual momento político?".  Ane conta que para as mulheres da periferia, o retrocesso pelo qual passa o País não é novidade. “Temos bancadas conservadoras na política, muito pautada em questões religiosas, apesar de sabermos que é uma grande hipocrisia porque os grandes defensores da moral e dos bons costumes estão envolvidos em vários escândalos de corrupção. Eles estão apertando por todos os lados. Se ficarmos quietas, eles irão nos sucumbir”, endossa a historiadora.

Confira programação completa da Caminhada.

Artigos Relacionados

Moro atropela lei brasileira para atender a pedido da polícia dos EUA Moro atropela lei brasileira para atender a pedido da polícia dos EUA
ILEGALIDADE O juiz autorizou produção de documento falso e abertura de conta secreta para...
TCE critica falta de transparência de Alckmin com renúncias fiscais TCE critica falta de transparência de Alckmin com renúncias fiscais
SEM CONTROLE Tribunal aprova contas do exercício de 2016 do governador com ressalvas, alertas...
Código Florestal completa cinco anos longe de atingir objetivos Código Florestal completa cinco anos longe de atingir objetivos
MEIO AMBIENTE Entre trancos e barrancos, avanços e retrocessos, o nosso Código Florestal...

Leia mais

Correio Caros Amigos

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
×