Lumpemburguesia brasileira

José Arbex Jr.
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As intervenções do centro do capital, observa o economista argentino Jorge Beinstein, transformam “as velhas burguesias” em “círculos de bandidos”, e instala uma nova dinâmica planetária de lumpemburguesias centrais e periféricas.

Por José Arbex Jr.

As reais dimensões do golpe no Brasil só podem ser apreendidas quando situadas no contexto internacional, e mais particularmente latino-americano, tanto do ponto de vista de suas motivações quanto do modus operandi que orientou os golpistas. O seu pano de fundo é a crise do capital, aberta em 2007, e que rasteja sem solução à vista.

Durante o início dos anos 2000, a economia mundial foi sustentada pela brutal especulação financeira, de um lado, e, de outro, pelo aumento dos preços das commodities, incluindo o petróleo, cujo comércio alimentava os países periféricos, criando as condições para uma explosão de consumo baseado no endividamento das famílias. Tudo ia bem, até estourar a bolha especulativa: em 2007, o total de títulos
e ações que circulavam nas bolsas de valores de todo mundo girava em torno de US$ 600 trilhões, quando o PIB mundial somava US$ 60 trilhões. Isto é, a “nuvem” especulativa equivalia a dez vezes o total da riqueza real produzida.

O mundo descobriu então, subitamente, que não era tão rico quanto pensava. Ou melhor: a maior parte da riqueza ia parar nas mãos de meia dúzia de famílias, ao passo que a imensa maioria só acumulava dívidas impagáveis. Foi quebrado o círculo vicioso do consumo baseado no endividamento do lar, que, por sua vez, mantinha em funcionamento a demanda por commodities. Os preços despencaram, o comércio internacional de bens, capitais e mercadorias acusou os seus efeitos, a atividade industrial encolheu drasticamente. O resultado foi a recessão. O desemprego em massa, a inadimplência, o desespero e a frustração mostraram a sua cara, nos Estados Unidos, na Europa e, claro, na periferia do sistema global.

Nos países da América Latina, em geral, e no Brasil, em particular, o edifício especulativo desabou de forma ainda mais brutal, dado o fato de que, por serem exportadores de commodities, viveram uma espécie de “bonança” sem precedentes na primeira década do século. Na Venezuela, Hugo Chávez aproveitou o preço do barril de petróleo a US$ 100 para lançar programas sociais que erradicaram o analfabetismo, garantiram alimentação e saúde básica para todos. Na Argentina, o presidente Néstor Kirchner decretou moratória da dívida e reconstruiu o País, em grande parte apoiado pelos petrodólares venezuelanos (Chávez comprou uma parte dos títulos podres da dívida argentina). Na Bolívia, o cocalero Evo Morales, embora não tenha produzido nenhuma grande reforma econômica, tornou-se um símbolo do renascimento das populações descendentes dos povos originários, contra o racismo colonial. No Brasil, os governos Lula/Dilma asseguraram aumento real do salário mínimo e distribuíram uma migalha das riquezas, por meio de programas como o Bolsa Família.

O mundo descobriu então, subitamente, que não era tão rico quanto pensava. Ou melhor: a maior parte da riqueza ia parar nas mãos de meia dúzia de famílias, ao passo que a imensa maioria só acumulava dívidas impagáveis

 

Mas esse quadro quase idílico se chocou com a determinação do centro do capital, cada vez mais concentrador. Para preservar e expandir os seus ganhos, face a uma economia mundial em encolhimento, o capital adotou uma política agressiva, militarista e parasitária, de pilhagem das riquezas nacionais, que não recua diante da necessidade de destruir as forças produtivas, o meio ambiente e as estruturas institucionais. É o que vimos no caso do Iraque (2003), da Líbia (2011) e da Síria (com a eclosão da guerra civil, em 2011). É o que vemos também na América Latina, embora aqui a pilhagem tenha se travestido com as roupas da “legalidade institucional”, com a decisiva articulação de políticos cooptados, de um aparelho jurídico enquadrado em sua função de legitimador da ordem institucional, da mídia e de intelectuais (professores, especialistas, comentaristas e lideranças da sociedade civil). O ensaio geral desse processo ocorreu na Venezuela, em 2002, com o golpe fracassado, desdobrando-se, depois, nas deposições bem-sucedidas de Manuel Zelaya (2009), em Honduras, e de Fernando Lugo (2012), no Paraguai. Na Bolívia e na Argentina, a campanha sistemática, mentirosa e manipuladora da mídia foi fundamental, em 2015-2016, para derrotar Evo Morales (no plebiscito sobre a possibilidade de um terceiro mandato) e Cristina Kirchner (nas eleições que elegeram Mauricio Macri).

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A motoniveladora do capital passa por cima das instituições e arrebenta com o estado nacional. Ela não suporta o “estorvo progressista” representado pelos governos populares latino-americanos, menos ainda no caso brasileiro. Os governos Lula/Dilma ousaram, além de tudo, dar alguns pequenos passos autônomos no cenário internacional – incluindo apoiar a insuportável criação do Banco dos Brics, com o objetivo de ganhar relativa independência frente ao dólar, tomar iniciativas nos conflitos do Oriente Médio, que resultaram na ira de Israel
(cujo porta-voz qualifi cou o Brasil como “anão diplomático”). Assim não dá. É preciso acabar com a festa.

As intervenções do centro do capital, observa o economista argentino Jorge Beinstein, transformam “as velhas burguesias” em “círculos de bandidos”, e instala uma nova dinâmica planetária de lumpemburguesias centrais e periféricas. “Agora as direitas latino-americanas vão ocupando as posições perdidas e consolidam as preservadas, mas já não são aquelas velhas camarilhas neoliberais otimistas dos anos
1990; foram sofrendo mutações através de um complexo processo econômico, social e cultural que as converteu em componentes de lumpemburguesias niilistas embarcadas na onda global do capitalismo parasitário”, diz Beinstein. “Grupos industriais ou de agrobusiness foram combinando seus investimentos tradicionais com outros mais rentáveis, só que também mais voláteis: aventuras especulativas, negócios ilegais de todo tipo (desde o narcotráfico até operações imobiliárias opacas passando por fraudes comerciais e fi scais e outros empreendimentos turvos), convergindo com “investimentos” saqueadores provenientes do exterior, como a megamineração ou rapinas financeiras.”

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Trata-se, enfim, de um processo de rapinagem, puro e simples. “Quando avaliamos personagens como Aécio Neves, Maurício Macri ou Henrique Capriles não encontramos chefes autoritários de elites oligárquicas estáveis, mas personagens completamente inescrupulosos, ignorantes das tradições burguesas de seus países (inclusive em olhares depreciativos dos mesmos). Aparecem como uma sorte de mafiosos entre primitivos e pós-modernos, a encabeçar politicamente grupos de negócios cuja norma principal é a de não respeitar nenhuma norma (na medida do possível)”, diz Beinstein.

Mas golpes, “brandos” ou “duros”, não são capazes de abolir a história. Os povos que passaram pelas transformações do início da década sabem, agora, que “outro mundo é possível”, para usar a expressão que consagrou o Fórum Social Mundial. Haverá resistência, e muita. No Brasil, o golpe pode ter derrotado o governo, mas não erradicou o PT como partido de massas, nem as décadas de história de lutas
investidas em sua construção. Estamos, ainda, no capítulo inicial dessa nova fase de combates.

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