Campanha polarizada reflete tensões sociais

José Arbex Jr.
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Por José Arbex Jr.

Henry Kissinger foi o pior secretário de todos os tempos da história dos Estados Unidos: responsável pelo assassinato de milhões de civis durante a Guerra do Vietnã, em particular no Camboja, deveria ser julgado por seus crimes contra a humanidade. A sentença foi pronunciada, em fevereiro, em rede nacional de TV dos Estados Unidos, pelo senador Bernard “Bernie” Sanders, pré-candidato do Partido Democrata à presidência, ao acusar a sua adversária Hillary Clinton de adotar Kissinger como “guru”, e de ser porta-voz de Wall Street.

Sanders propõe uma plataforma inspirada pelo modelo social-democrata escandinavo, que inclui a taxação das grandes fortunas e um sistema progressivo de impostos destinado a assegurar a universalização e gratuidade dos serviços públicos, incluindo educação e saúde. Seu público-alvo são os jovens, as mulheres e as minorias negra e hispânica, que formam uma base de apoio sem precedentes, com mais de 2,5 milhões de filiados aos comitês eleitorais.

Sanders propõe uma plataforma inspirada pelo modelo social-democrata escandinavo, que inclui a taxação das grandes fortunas e um sistema progressivo de impostos

Na outra ponta do extremo ideológico, o empreiteiro bilionário Donald Trump, pré-candidato pelo Partido Republicano, exibe uma plataforma ultranacionalista e nativista. É hostil ao Islã e aos imigrantes não documentados: propõe a deportação sumária de 11 milhões de hispânicos, incluindo aqueles que nasceram nos Estados Unidos. Defende o uso da tortura na luta contra o terrorismo. Propõe a destinação de mais verbas para as forças armadas, ao mesmo tempo em que adota uma perspectiva isolacionista (tudo é válido, em nome da defesa da segurança nacional). Usa uma linguagem baixa e vulgar (por exemplo, acusa os seus adversários republicanos de não terem “culhões”, de não serem “machos” o suficiente), para atrair uma parte do eleitorado desencantada com os políticos tradicionais, especialmente os cristão fundamentalistas agrupados pelo Tea Party.

Quando Sanders e Trump anunciaram suas respectivas candidaturas, em meados de 2015, não foram levados a sério, tanto pelo radicalismo de suas propostas, quanto pelo fato de que os dois partidos já tinham os candidatos tidos como os “queridinhos” do establishment: Hillary, pelos democratas; o ex-governador Jeb Bush (irmão e filho de ex-presidentes) e o senador Marco Rubio (descendente de imigrantes cubanos), ambos da Flórida, pelos republicanos. Sanders, aos 74 anos, foi recebido como um “velhinho socialista simpático”, que apenas queria encerrar sua carreira política em grande estilo. Em três meses de campanha, panfletando contra a desigualdade social e contra o 1% mais rico da população, Sanders disparou nas pesquisas. Em agosto do ano passado, entre os democratas, Hillary tinha 58% das intenções de voto, e Sanders 18%. Hoje, Hillary tem 47% e Sanders 44% (os números ainda oscilam muito). Em alguns estados, Sanders lidera.

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A postulação de Trump foi considerada pela mídia em geral, como mais um arroubo narcísico de uma espécie de palhaço nacional. O empreiteiro é conhecido por seus gostos extravagantes (incluindo uma privada revestida a ouro, em seu apartamento situado na cobertura da Trump Tower, em Manhattan), suas afirmações bombásticas (cujo centro é sempre ocupado por sua própria pessoa), e por sua participação no mundo dos espetáculos (criou o programa que, no Brasil, recebe o nome de “Aprendiz”, além de patrocinar o concurso Miss Universo). Até agosto, Trump parecia não ter qualquer chance contra Rubio e Bush.

Tanto Sanders quanto Trump são recém-filiados aos seus respectivos partidos. Ambos alimentam uma retórica contrária aos políticos tradicionais, e se apresentam como candidatos “antissistema”, refletindo um processo que, em linhas gerais, é semelhante ao que ocorre na Europa, e que abre espaço para novos grupos, como o Podemos (Espanha), Syriza (Grécia) e Frente Nacional (França). Ambos expressam os sentimentos de uma grande parte dos eleitores, de descrédito em relação aos políticos e suas instituições.

Em 2014, um levantamento do instituto Rasmussen mostrou que 65% dos estadunidenses diziam que nenhum dos dois principais partidos representavam o povo. Apenas 29% confiavam que o País estava no caminho certo e quase 78% desaprovavam o trabalho do Congresso. Os números foram confirmados por outra pesquisa, de 2015, do Gallup. Mas as semelhanças entre ambos param por aí. Os primeiros resultados das eleições primárias (prévias organizadas pelos comitês dos partidos nos cinquenta estados, além do Distrito de Columbia, onde se situa a capital Washington, e territórios) mostram que, contra todas as expectativas, um dos dois pode vir a ocupar o assento presidencial da Casa Branca.

Claro que muita água ainda vai correr até 8 de novembro, data das eleições: as primárias elegerão delegados para uma convenção nacional, este ano convocada para os dias 18 de julho (republicanos) e 25 de julho (democratas). Os delegados reunidos na convenção escolherão os candidatos que, finalmente, disputarão as urnas. Já na primeira primária, realizada em Iowa, Sanders surpreendeu Hillary, ao obter um quase empate. Venceu de lavada em New Hampshire (com 61% dos votos) e perdeu por pouco em Nevada. Trump ficou em segundo, em Iowa, mas venceu com folga em New Hampshire e Carolina do Sul, quando causou a desistência de Bush, após derrotas acachapantes nas primárias iniciais. O senador cristão fundamentalista texano Ted Cruz e Marco Rubio despontaram como possíveis alternativas a Trump. Ninguém mais ousa prever um resultado. Mas há um consenso quanto ao fato de que o desempenho das duas candidaturas “radicais”, independentemente do resultado final, são o sintoma de que um profundo mal-estar social, político e ideológico marca a sociedade estadunidense contemporânea. As tensões afloram perigosamente, colocando um ponto de interrogação sobre o futuro da mais importante potência planetária.


 

José Arbex Jr. é jornalista e colunista da Revista Caros Amigos. 

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